Arctic Monkeys: apresentação em Paris, hoje (3/2), pode ser acompanhada pelos fãs via site oficial e página da banda no Facebook
Como diria o mestre Dorival Caymmi (1914-2008) se amasse esse tal de rock’n'roll, quem não gosta do Arctic Monkeys bom sujeito não é. Hoje (3/2), a banda inglesa se apresenta no Olympia, em Paris, e o show será transmitido ao vivo através do site oficial do grupo (www.arcticmonkeys.com) e de sua página no Facebook (www.facebook.com/arcticmonkeys), a partir das 18h15. A performance terá a participação especial do convidado Miles Kane, a partir das 17h.
Os Macacos do Ártico (Alex Turner, Jamie Cook, Matt Helders e Nick Malley) foram indicados ao Brit Awards (o Grammy da Inglaterra) 2012 como melhor banda britânica. A festa de premiação será dia 21 de fevereiro. Também concorrem a sete prêmios NME (New Musical Express), cuja cerimônia será dia 29 na Brixton Academy. Tudo por causa do discão Suck it and see, um dos melhores da temporada 2011.
A pele fina e branca, mesmo tendo nascido em Honolulu. O sorriso tão bonito quanto a adolescência de alguém bem nascido e que cresceu cercado de carinho. As mãos pequenas e seguras. O sexo firme que atravessa a madrugada de janeiro. O jeito de dormir sem travesseiro e acordar fazendo movimentos de estiramento. As gírias de homeboy e o som da Vivendo do Ócio. A tevê ligada em Restrepo, o suco de laranja, cereal Müslik e ovos com bacon no café da manhã.
O cara lá de cima gosta de mim, penso nisso toda vez que sinto tua presença em (quase) tudo ao meu redor atualmente. Afinal, por mais que eu tenha amor e que esse carinho eu te entregue, é preciso paciência para conviver com um lobo. Temos sangue quente, somos impulsivos, ciumentos, familiares e mudamos quando é Lua Cheia. Somos personagens de dramas com toques de humor negro, roteiros prontos à espera de diretores como Alexander Payne, histórias simples com lado humano forte.
E, ainda assim, você diz: “Eu faço o que você quiser, man”. Então, responda, de que é feito mesmo o amor? Os gatos são mais fiéis do que os homens? Qual o momento exato em que a dúvida deixa de existir e a confiança toma posse do matador? O que pensa o guardião do templo quando o pastor se ausenta e o rebanho não volta ao aprisco? Quando o que era apenas uma parte se transforma no todo? Que importância tem o homem diante de Deus? Se existe união, é natural que um dia haja separação?
***
Não consigo lembrar de como eu era antes de conhecer você. Aliás, minto. Parecia um personagem de Sam Shepard. Um cara supostamente maduro e há um tempo sem amar. Vagando à procura da onda perfeita. Indo de um corpo para outro, buscando o que guardar na memória. Ficando, às vezes, o tempo necessário para entender que a perplexidade era maior do que uma solidão a dois. Você me livrou de ser um clichê de mim mesmo.
***
Meu vício é você. Exceto o amor incondicional da princesa Hanna, meu vício é você. Abraçar o teu corpo é melhor do que uma Miller com limão, surfar em Pipeline, um show do Arctic Monkeys no Royal Albert Hall, um beijo da gata Fiona. Beijar a tatuagem em tuas costas é melhor do que um poema inédito de Antonio Brasileiro, carne desfiada com brócolis, um novo filme de Clint Eastwood.
***
Todo amor é pessoal e universal, particular e infinito ao meu redor ao mesmo tempo. Só não vê quem não quer ou quem, pretensioso demais, quer tocar o abstrato. Todo amor, ou melhor, todo grande amor, tem um quê de Deus nos seus pequenos detalhes. E, contrariando Charles Baudelaire, o melhor do amor é que se trata do tipo de crime que exige um cúmplice (em qualquer estação).
***
Dois homens caminham por uma calçada. Como medir o sentimento e o destino de cada um? O que ocorrerá daqui a um minuto, por exemplo? Um holofote despencará do (imenso) cenário que eles acreditam ser real? Descobrirão que pessoas os observavam na surdina? Dois homens caminham juntos. Estão felizes. É o que basta.
***
E isso é apenas pulp fiction, homeboy.
*
* Texto publicado originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO*, dia 31 de janeiro de 2012 (ilustração/’Boys on the grass’/1903/Ilya Repin)
Entre tapas e beijos, os irmãos Noel e Liam Gallagher lideraram o Oasis por 16 anos. Um dos sinônimos daquilo que foi batizado de britpop (e muito influenciado pelos Beatles), o Oasis se alimentava do equilíbrio distante entre o ótimo compositor e guitarrista Noel – e o bom e intempestivo vocalista Liam. Com o fim da banda, em 2009, as estreias solos de Noel e Liam – no segundo semestre de 2011 – reafirmaram tais características . Primeiro, tivemos o lançamento do álbum da nova banda Liam, Beady Eye, no qual o vocalista se distanciou dos Beatles e se mostrou mais próximo da virulência do The Who. No final do ano, Noel lançou Noel Gallagher’s High Flying Birds (Universal), que sai agora no Brasil e no qual ele recupera o estilo clássico do Oasis. Além do grande talento como compositor, Noel não está nem aí para mudanças de estilos e flertes experimentais (no máximo, um trompete). Ele sabe que, mesmo anacrônico, o Oasis foi uma das maiores bandas de rock do mundo. Dessa forma, Noel Gallagher’s High Flying chega até a evocar (What’s The Story) Morning Glory?, da melhor fase do Oasis. Um bom álbum de britpop com alma de estádio.
Metamorfoses encaixota, em 16 CDs, álbuns de Ney Matogrosso pós-1993
Em 2008, a caixa Camaleão reuniu os álbuns lançados pelo cantor Ney Matogrosso, 70 anos, entre 1975 e 1991. Um presente para os admiradores de um dos artistas mais interessantes da história da música brasileira – seja pela sua qualidade de intérprete, seja pela postura artística. A caixa Metamorfoses (Universal/ R$ 299,90), compreendendo a produção fonográfica de Ney entre 1993 e 2009, dá continuidade ao cuidadoso projeto de acompanhamento e remasterização da obra do cantor.
São 16 CDs, sendo 15 álbuns, com capas, encartes e fichas originais, mais um CD duplo de raridades e um livreto – escrito pelo pesquisador Rodrigo Faour – com a história de cada disco, depoimentos e fotos inéditas. A caixa anterior, Camaleão, documentava a fase inicial da trajetória solo de Ney e a sua consagração definitiva no show business do Brasil. O homem que provocou uma transgressora comoção nacional como vocalista da banda Secos & Molhados, em plena ditadura militar de 1973, mostrou que, sozinho, também não tinha medo de lobisomem. Muito pelo contrário.
Consolidado, Ney quis, a partir do final dos anos 80, explorar também outras nuances estéticas na sonoridade, na interpretação e no figurino, inclusive abandonando a maquiagem. Primeiro CD da caixa Metamorfoses, As Aparências Enganam, de 1993, segue essa nova preocupação estética (iniciada em 1986, com o espetacular Pescador de Pérolas). Na companhia do quinteto instrumental Aquarela Carioca, Ney recriou canções de Alceu Valença, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso e Ednardo em clima camerístico.
Relendo, com sofisticação, clássicos e personalidades da MPB e assumindo totalmente o controle da sua discografia, Ney amadureceu a sua atávica personalidade mutante. Em O Cair da Tarde (1997), por exemplo, ele entrelaçou Tom Jobim e Heitor Villa-Lobos. Dois anos depois, voltou a abraçar o pop no álbum Olhos de Farol, gravando Pedro Luís, Fred Martins e Celso Viáfora. Em Inclassificáveis (2008), caiu de boca no rock, desafiando a idade com muito estilo. Ney é o cara, pois não.
***
*Matéria publicada originalmente no jornal CORREIO*, dia 26 de janeiro de 2012.
Ela ergueu as finas e móveis sobrancelhas e apertou os olhos. Confessei-me atraído, no sentido mais imediato, por sua boca, não muito sensual, não muito avultada, e tão expressiva, pelas salientes maçãs do rosto, pelo movimento com que inclinava a cabeça à espera de uma resposta que eu demorava a dar.
A minha atração também era provocada pelo gesto com que erguia o busto ao fazer uma afirmação taxativa (“Depeche Mode é a melhor banda inglesa dos anos 80”), por seu olhar perspicaz e, ao mesmo tempo, contido. Por suas risadas invencíveis, contagiosas, harmônicas e completamente desarmadas.
Talvez eu nunca tivesse visto uma mulher mais feminina (suas mãos passaram perto do meu rosto e voltei a sorrir). Tão capaz simultaneamente de generosidades e perfídias, de declarações inquestionáveis e de inquestionáveis ternuras. Quem melhor do que uma bela mulher para compreender a solidão de um homem?
“Você está inventando um personagem”, censurei-me. Não obstante, disse: – Você se interessa tanto assim pela filosofia a ponto de dedicar-se a ela? “Eu me dedico à vida”, respondeu com todo o charme do planeta e do resto do universo. Tinha, como se não bastasse, uma voz luminosa.
Entre o encanto de sua mímica e a graça de sua atitude, eu não conseguia julgar com objetividade nem seu aspecto nem suas palavras. Não saberia afirmar se ela estava zombando de mim ou se tudo nela era uma amável ironia. Creio que na sua frente o olhar subjetivo se deixava conter e não consentia em intervir.
Algo dentro de mim protestou: – O destino é um senhorio cruel que, durante alguns momentos em cada vida, se transforma em alguém sensível, generoso e alegre como Ariel. E vulnerável. “Tudo é aproveitável, o senhorio também”, disse, entornando os seus olhos nos meus. Tive a impressão de que já a conhecia há tempos.
A voz e o riso não me eram estranhos. Invadiu-me um sentimento de familiaridade, como se compartilhasse um mesmo espírito com ela. Não era de admirar que também escrevesse e tivesse uma atraente história de amor. Foi por isso que investiu contra mim. Se não o medo ainda, o primeiro sinal de alarme. Quer dizer, não era um amor, mas um temor à primeira vista.
- Nos debatemos (eu, pelo menos) entre as recordações como quem mergulha em águas profundas, tratando de sobreviver entre elas e através delas. Nos debatemos, no terreno das lembranças, com nós mesmos. Ser e ter sido talvez não seja possível ao mesmo tempo. Talvez não seja possível amar e ter amado.
Como se fora uma conversa iniciada há muito tempo, aquela mulher a quem eu desconhecia colocou a mão em meu braço direito e afirmou com segurança: “É possível, meu caro. Sei disso. Estou sabendo”. Fiquei observando-a como se observa um acontecimento distante e próximo ao mesmo tempo. E, sem saber bem por que, confiei nela.
***
O amor, esse açougueiro que passa o tempo afiando seus facões… E ainda tem a ousadia de tentar-me de novo, de chegar com seus passos macios de gato, com sua irrefletida alegria, com sua ensaiadíssima improvisação. Reconheço-o por mais que se disfarce e verifico de novo se a porta está fechada. O amor, esse açougueiro, não me engana mais. Agora, tudo está em seu lugar.
***
Aquele que amou os rostos e os corpos das minhas recordações já não sou eu. Também já morri. E muito mais vezes do que eles.
*
*Texto publicado originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO*, dia 24 de janeiro de 2012
Voz de timbre mais bonito de sua geração na MPB, Roberta Sá lança o álbum Segunda Pele, cuja turnê nacional começa por Salvador, no TCA, dia 1º de março (foto/Gui Paganini/divulgação)
A voz resplandecente da cantora Roberta Sá, 31 anos, não combina com o mormaço, seguido de chuva, e a atmosfera poluída de São Paulo, mesmo que ela cite a cidade de modo sensual na faixa-título do seu quinto álbum (e quarto de estúdio), Segunda Pele (MP,B/Universal Music), composta pelos paulistanos Carlos Rennó e Gustavo Ruiz, irmão de Tulipa.
Combina, sim, com Natal, a ensolarada capital potiguar, onde ela nasceu, e com o belo Rio de Janeiro, onde mora desde os 9 anos e conquistou projeção artística a partir da estreia, em 2005, com o disco Braseiro. Mas é no charmoso Manioca Eventos, no Jardim Paulistano, no começo da tarde de janeiro, que Roberta nos recebe com um sorriso tão sedutor quanto as 12 canções do disco produzido pelo fiel Rodrigo Campello e que chega às lojas nesta terça (24/1).
Sensualidade – Flerte é a palavra que me vem à cabeça quando, depois do almoço na companhia de Roberta e de mais dois jornalistas, do empresário João Mario Linhares e de assessores da Universal e da Natura Musical – patrocinadora do disco e da turnê -, sento diante da cantora, no sofá, para a entrevista individual. Aliás, minto, não apenas flerte: voz luminosa, também. “Luminosa? Adorei (risos). Desde a faixa-título, esse disco é um convite à sedução, ao flerte. Até minha postura na capa mudou: pela primeira vez estou olhando de frente, transparente. É um trabalho mais solar”, afirma.
O alto astral do álbum, que reflete de modo mais direto o que a artista pensa, passa também pelo uso de sopros em canções como Bem a Sós (Rubinho Jacobina), No Bolso (Pedro Luís e Roberta Sá), A Brincadeira (Moreno Veloso, Quito Ribeiro e Domenico Lancellotti) e Deixa Sangrar (Caetano Veloso), nas quais os arranjos lembram muito os do maestro tropicalista Rogério Duprat (1936-2006). “Há muito tempo eu e Rodrigo Campello queríamos fazer um disco cheio de sopros. Chegou a hora e os sopros dão ainda um clima carnavalesco ao trabalho”, explica, ressaltando ainda que sua opção pela música e pelos ritmos brasileiros tem sido muito bem correspondida pelo público.
Ligação baiana – De fato, a trajetória de Roberta é ascendente em todos os níveis. Em seis anos de carreira fonográfica, os seus quatro CDs e um DVD venderam, no total, mais de 220 mil cópias. Em 2011, ela fez cem shows com a turnê baseada no álbum Quando o Canto é Reza (2010), dedicado ao repertrório do sambista baiano Roque Ferreira. “Mostrar o trabalho de Roque para o Brasil, na companhia do Trio Madeira Brasil, foi um privilégio. Você está dizendo que estou virando baiana, então vou pedir meu título de cidadã baiana (risos)”.
Sim, do mestre Caymmi aos artistas da axé music, que embalaram sua adolescência em Natal, passando por Gilberto Gil, Caetano, Gal Costa e Roque Ferreira, Roberta é chegada à cultura baiana. “Aqui, no Rio e São Paulo, tem gente que tem preconceito, mas eu gosto de axé, é uma música carnavalesca forte. Na adolescência, no Carnatal (micareta de Natal), fui muito atrás de trio elétrico ouvindo Netinho e Márcia Freire (Cheiro de Amor), e peguei o comecinho de Ivete Sangalo no Eva. Depois, quando Daniela Mercury estourou e fez show pela primeira vez no Rio, no Canecão, eu estava lá”, revela.
Estreia no TCA – A cantora brilha na releitura do frevo Deixa Sangrar, música de Caetano que Gal Costa lançou no Carnaval de 1970. A canção é uma das duas regravações do álbum: a outra é o jongo-reggae No Arrebol, do sambista Wilson Moreira. Considerando-se essencialmente intérprete, Roberta recebe o cantor uruguaio Jorge Drexler em Esquirlas, cantada em espanhol.
A turnê de lançamento do álbum começa dia 1º de março, no Teatro Castro Alves, Salvador, seguindo para Recife (dia 3), Natal (4), Rio (10), Porto Alegre (16), Curitiba (17), Florianópolis (18) e São Paulo, ainda sem data certa. “Abri a turnê anterior em Salvador, no TCA, uma casa maravilhosa, e me deu muita sorte. Então, vou começar de novo por lá. Vou te esperar, certo?”, encerra. Como recusar um convite de Roberta?
***
A conexão baiana de Roberta Sá
Dorival Caymmi – Em 2004, após ouvir uma “demo” com a gravação, o novelista Gilberto Braga convidou Roberta Sá para gravar A Vizinha do Lado, do mestre baiano, para a trilha da novela Celebridade. Logo depois, Roberta lançou Braseiro, o primeiro álbum, tendo Ney Matogrosso, MPB-4 e Pedro Luís como convidados especiais.
Roque Ferreira – Compositor de ritmos baianos, Roque forneceu o repertório de Quando o Canto é Reza (2010), álbum que Roberta gravou acompanhada pelo Trio Madeira Brasil. Das 13 canções do sambista, oito eram inéditas. A cantora e seu marido, o músico carioca Pedro Luís, vieram conhecer o Recôncavo.
Gilberto Gil – Em 2011, Gil chamou Roberta para gravar, em dueto, a bela Minha Princesa Cordel, tema de abertura da novela Cordel Encantado, maior sucesso da temporada. “Foi um presente. Gil é o único artista que me desconcerta quando encontro, fico até meio sem graça, não sei o que falar. Ele me causa deslumbramento”, diz.
Caetano Veloso – “Admiro o conceito que Caetano procura dar a cada álbum que faz, as sonoridades que busca. Gravei Deixa Sangrar, frevo que ele compôs e que Gal lançou em 1970″, afirma Roberta. Na versão do álbum no iTunes, Deixa Sangrar ganha um remix frevo dub feito pelo MiniStereo, além de outra faixa bônus, Mão e Luva, de Pedro Luís.
***
* O jornalista viajou a São Paulo a convite da Universal Music.
** Matéria publicada originalmente no jornal CORREIO*, dia 23 de janeiro de 2012.
*** Veja Roberta Sá no videoclipe de Pavilhão de espelhos, canção composta por Lula Queiroga…
A cantora americana Etta James (1938-2012): uma lenda da história da soul music e do blues
As divas verdadeiras são cada vez mais raras. A maioria já partiu, antes mesmo que o termo fosse banalizado pela cultura pop atual. Hoje, tem até cantora teen sendo chamada de diva. Etta James (1938-2012) foi uma diva de verdade, pois não. Uma mulher que superou a infância complicada e até o vício da heroína, entre os anos 60 e 70, para se tornar uma das vozes mais respeitadas do soul e do blues.
Em 2008, a estrela Beyoncé interpretou Etta James no filme Cadillac Records. Dirigido por Darnell Martin, o longa-metragem conta a história da gravadora de blues Chess Records, de Chicago, entre os anos 40 e o final dos 60. A interpretação de Beyoncé para At last, um dos maiores sucessos da carreira de Etta James, é não menos do que sensacional.
Neste vídeo, num evento chamado Fashion Rock, Beyoncé canta At last tendo a própria Etta James na plateia… Belo momento.
O primeiro álbum do Gorillaz, de 2001, vendeu seis milhões de cópias e revelou um supergrupo incomum. Saída da imaginação do cartunista Jamie Hewlett (Tank Girl) e do músico Damon Albarn (Blur), a banda-cartum seduziu o mundo audiovisual com videoclipes sensacionais e canções pop embebidas de hip hop, indie rock, electro e dub. O que era uma brincadeira despretensiosa de um variado comboio de artistas ingleses e americanos se transformou em algo tão vitorioso que quase virou filme dirigido pelo gigante Steven Spielberg. Quem não curtiu o single e o videoclipe de Clint Eastwood certamente não estava no planeta Terra na época. The Singles Collections 2001-2011 (EMI) comemora uma década fonográfica da banda que reapareceu no começo de 2010 e que já vendeu mais de 13 milhões de discos. São 15 faixas entre singles e remixes (está previsto ainda o lançamento da versão CD + DVD), com pepitas pop grandiosas como Clint Eastwood, Tomorrow Comes Today, Rock The House, Feel Good Inc (com participação do De La Soul), Dirty Harry, Kids With Guns, Stylo, Doncamatic e On Melancholy.
Os problemas de uma metrópole eram complicados demais para se criar um filho. Demasiadamente imbuídos de podridão. Eu achava isso, mas Clara nem tanto. Ela temia que o menino crescesse com a imaginação prejudicada pelo excesso de facilidades. “Não quero que meu filho seja bom demais”, dizia.
Lembrei-lhe tudo que uma cidade como São Paulo oferece para quem quer que seja muito pequeno ou mal informado para lutar por seu direito a um pedaço de espaço próprio. Durante uma fase da vida pensei em seguir o exemplo dos meus pais e sentir orgulho de ser paulistano. O orgulho havia ficado para trás.
Inventei probabilidades numéricas sobre as escolas das cidades pequenas e sobre os efeitos da cor verde no desenvolvimento psicológico. Coisas que eu havia lido em alguma revista de consultório médico, quando a cultura inútil cumpre sua função de matar o tempo.
“Escute”, falou Clara, “crescer perto do campo não é mais garantia nenhuma de bom comportamento. O país quase todo virou uma gigantesca cloaca, com criminosos, desonestos e estúpidos por toda a parte”. Ela sabia ser convincentemente exagerada quando queria, honrando o sangue italiano dos avós.
Felizmente, meus argumentos venceram. E assim passamos a pesquisar na internet. Começamos a sair de carro pelo interior para ver casas suficientemente estranhas ou um pouco desoladas para estar ao alcance do nosso dinheiro, que não era muito, é verdade (e não queríamos tomar empréstimo alto em banco).
Quando você sai à busca de um imóvel barato, acaba conhecendo a derrota humana de todos os dias. Você sente o cheiro molhado, o cheiro de lambris empenados, vê tetos e assoalhos numa contínua derrocada em câmera lenta. Vê como o tempo e a desintegração acabam vencendo apenas por continuar o seu trabalho.
Depois de cinco semanas encontramos uma casa marrom de dois andares, perto de Pompeia. Uma casa espaçosa, erguida sobre uma sólida fundação, com uma dignidade maternal, levemente insana, na qual a soma de vantagens superava as falhas.
***
Isso foi há 14 meses. Agora moramos no campo, de frente para montanhas desgastadas pelo vento e pela chuva. Flores sobem pela nossa cerca, abelhas zumbem no êxtase do seu trabalho diário e fiapos de um céu azul pendem por trás das árvores. “Odeio a natureza. É tão óbvia”, diz Clara. Ela está parada a minha frente, se tornou uma mulher mais afiada. Ao contrário do que eu imaginava, a maternidade não a suavizou.
“Tenha dó. Veja se supera isso, tá?”, digo. Dentro da casa o pequeno Domenico começa a chorar. “Isso é que faz toda a diferença. Sempre cometi só os meus próprios erros, nunca tive que me preocupar com mais ninguém desse jeito. Ainda não me acostumei com a nova realidade”, responde rápido.
***
Eu nunca esperei isso, um amor tão voraz que quase não é algo pessoal. Um amor que tira você do lugar, que tira você de sua própria forma, que te reconstrói. Eu sabia que, se estivesse atravessando a rua com o meu filho e um carro virasse a esquina buzinando a toda velocidade, eu o defenderia com meu corpo.
Faria isso automaticamente, do mesmo modo como a gente levanta os braços para proteger a cabeça e o coração. É um amor uivante, inundado pela luz dos refletores, algo intenso que a casa parece entender, pois presenciara aquele mesmo sentimento em outros pais que a habitaram. As casas antigas têm alma.
*
* Texto publicado originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO*, dia 17 de janeiro de 2012. (Ilustração/Edward Hopper/’Andersons House’/1926)
Criolo: videoclipe na Liberdade, com o Ilê, esta semana; e show na Concha Acústica do TCA, dia 5 de fevereiro
Responsável pelo melhor disco brasileiro da temporada 2011, Nó na Orelha, o rapper paulista Criolo grava em Salvador, nesta quarta (18) e quinta (19), com o bloco Ilê Aiyê, o videoclipe do clássico afro-baiano Ilê Ayê – Que Bloco é Esse?, de Paulinho Camafeu. Com patrocínio da Petrobras, o encontro acontecerá na Liberdade, bairro do Ilê, e o videoclipe será dirigido por Ricardo Spencer, baiano radicado em São Paulo e colaborador habitual da cantora Pitty. O clipe será lançado no dia 28, na Noite da Beleza Negra, e vai ficar disponível no endereço www.petrobras.com.br/queblocoeesse.
Além disso, Criolo (nascido Kleber Cavalcante Gomes) faz show em Salvador, dia 5 de fevereiro, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, encerrando a programação do Digitalia – Congresso Internacional de Música e Cultura Digital, que acontece no início do próximo mês em Salvador. Apesar de rapper em atitude, a música de Criolo – bom intérprete, também – vai além do hip hop e incorpora elementos do afro beat, dub, reggae, MPB e do romantismo popular. A canção Não Existe Amor em SP já nasceu como um pequeno clássico da urbanidade paulista.