Não era cinismo. Nem desencanto. Tampouco, o canhoto do show do Arctic Monkeys, sua banda favorita, esquecido no bolso do blusão Adidas, quando tomou todas e nem sabe como chegou em casa. Nada que merecesse mais que dois tópicos na crônica pop e barata de sua vida. Apenas não tinha mais vontade de vê-la. Muito menos de jurar amor eterno e tolices do tipo quando se está dentro de um outro corpo.

Aprendera com o cinema, a música pop e a literatura made in USA a dizer I love you de forma banal, como se comesse um Big Mac. As palavras, às vezes, não merecem mesmo ter peso (ainda que os poetas, seres inferiores na escala literária, achem o contrário em seus longos devaneios). Mais importante do que o verbo é a verba -  e a ação.

A voz do outro lado da linha perdera o encanto rapidamente. Na verdade, passara a lhe provocar tédio – como a vida social da sua cidade, o politicamente correto , o rock cantado em português, as baladas noturnas, a onipresença de Deus, os bastidores da política, as pequenas maldades dos pseudointelectuais homossexuais e os cachorros.

Melhor sair em silêncio ouvindo uma canção de Jeff Buckley, que deixou o mundo à francesa mergulhando nas águas turvas e lendárias do Mississippi. Era a maneira menos óbvia de dar adeus, de falar: “Cansei de você”. Tinha certeza de que causaria frustração (raiva, talvez). Mas, convenhamos, nem sempre se pode ser Deus.

***
Ele estava desaparecido. A namorada acreditava que ele estava perto, fugindo de qualquer demonstração de afeto. Ela ficava na janela, lugar de onde observava as primeiras e bem-vindas chuvas de maio. Ele era outro ser no meio de toda aquela vida lá fora, um elemento pequenino, tão importante quanto uma árvore na grande floresta das coisas.

Nem a sua consciência nem a dela tinham qualquer importância. O seu amor por ele, ela achava, era um comportamento de pesar e felicidade ao mesmo tempo. O seu amor por ele era como o hálito na vidraça. Eu presenciava aquilo sem querer me envolver. Afinal, um suicida tem direito a escolher a maneira como quer morrer.

***
Chegou ao aeroporto sem saber se devia realmente viajar. Nunca tivera medo de avião, mas sonhava cada vez mais com um acidente em que a aeronave mergulhava nas águas do Atlântico. Lembranças de um filme-catástrofe de Hollywood? Adquirira o dom da premonição? Fez o check-in pensando nisso e na má fase do seu time de futebol.

Sentiu um prazer mórbido ao imaginar como os parentes e amigos receberiam a notícia. Assim, bizarro e sombrio como Tim Burton, ouviu seu nome ser chamado ao balcão de embarque da empresa pelo serviço de som. O senhor do destino resolvera intervir diretamente? Caminhou e descobriu, surpreso, que Deus e os anjos existem.

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Cabelos loiros me comovem, sempre me comoveram. Tenho ímpetos de tocá-los. Quanto mais longos, maior o desejo. Na Suécia, Noruega ou Dinamarca, eu seria preso todos os dias por atentado ao pudor ou algo do gênero. Por isso, agradeço a compreensão e o controle que você tem da situação

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Cuide bem de mim  – até que a euforia inicial ceda lugar à morte cerebral da paixão.

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* Texto publicado originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO*, dia 15 de maio de 2012.

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A cantora e contrabaixista americana Esperanza Spalding inova ao flertar com o pop no novo álbum, Radio Music Society, e quer gravar um disco inteiro com Milton Nascimento, um dos seus maiores ídolos

Muita gente ficou surpresa quando, em fevereiro de 2011, a cantora e contrabaixista Esperanza Spalding recebeu o prêmio Grammy de revelação do ano. O principal candidato à estatueta dourada era Justin Bieber, ídolo das adolescentes e um dos artistas que mais discos venderam em 2010. Além de Bieber, Esperanza Spalding superou Drake, Florence & The Machine e Mumford & Sons, se tornando a primeira intérprete de jazz a levar a honra.

Mas, a artista de 27 anos, que tem entre seus fãs personalidades como o presidente americano Barack Obama (“Eu amo ouvir a música de Esperanza, ela é maravilhosa”), mereceu o Grammy, pois não, como reitera com o seu excelente novo e quarto álbum: Radio Music Society (Universal Music). Dizer que Esperanza, nascida em Portland, Oregon, é o futuro do jazz é simplista demais, mas ela move-se como quem sabe que o único destino possível de sua música é ser popular.

Do primeiro disco, Junjo (2006), que sai somente agora no Brasil, via Biscoito Fino, ao novo, as mudanças são evidentes. Em Junjo, ela se portava como uma jazzista mais tradicional. Agora, o próprio título Radio Music Society não nasce por acaso. A imagem do objeto rádio ou do meio de comunicação que se usou para massificar canções funciona como uma declaração de intenções em que a música é o elo de transmissão para um fim assumido: a sociedade.

Assim, e cercada de talentos como Q-Tip, Joe Lovano, Jack DeJohnette e Billy Hart, Esperanza Spalding mistura o jazz com os ritmos do soul, funk e R&B. Sugestivamente, a primeira canção chama-se Radio Song. “Radio Music Society é um trabalho com íntimas e sutis explorações, nos quais músicos de jazz exploram formas e melodias formatadas de acordo com as linhas do que classificaríamos como ‘músicas pop’”, explica a bela jazzista.

O álbum é o primeiro em que Esperanza não inclui uma canção brasileira. Em Junjo, por exemplo, ela gravou Loro, de Egberto Gismonti. Em Chamber Music Society (2010), interpretou – em bom português – Inútil Paisagem, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, e ainda fez dueto com Milton Nascimento em Apple Bloosom.

Fascinada por Milton, de quem já gravou Ponta de Areia, Esperanza Spalding cantou com o brasileiro no Rock in Rio 2011, no palco Sunset, e pretende dividir um disco inteiro com ele. “Milton é um dos meus heróis. Se há alguém que está perto do que eu quero ser musicalmente, esse alguém é Milton”, elogia.

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* Matéria publicada originalmente no jornal CORREIO*, dia 12 de maio de 2012.

Confira Esperanza no videoclipe de Radio Song

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Chico Buarque no palco do TCA: com roteiro musical excelente, show evoca amores e lembranças de um compositor genial e um homem delicado (foto/Robson Mendes/CORREIO)

Ao cantar Ana de Amsterdam na estreia do show Chico, no Teatro Castro Alves, quarta-feira (9), Chico Buarque lembrou que interpretou aquela música há 40 anos naquele mesmo palco, no espetáculo Caetano e Chico – Juntos e Ao Vivo. Em novembro de 1972, quando o encontro com Caetano Veloso gerou um dos melhores discos ao vivo da história da MPB, Chico Buarque tinha 28 anos. Em 2012, ele completa 68  no dia 19 de junho.

Entre as duas interpretações, muita coisa mudou, obviamente, mas algo permanece praticamente inalterado no artista hoje maduro e que reencontra um público também maduro em sua maioria: a capacidade de encantar. Os olhos cor de ardósia, por exemplo, viraram lenda para mulheres que enxergam Chico ainda moço, um tímido prisioneiro do tempo, talvez.

Mas, acima de tudo, incluindo a admiração intelectual por parte dos homens da plateia, o encanto vem da beleza das canções que ele, autor do roteiro do show dirigido por Luiz Claudio Ramos, tão bem costura. O repertório evoca amores e lembranças de sua trajetória.

Na companhia de Bia Paes Leme (teclados e vocais), Chico Batera (percussão), João Rebouças (piano), Jorge Helder (contrabaixo acústico), Marcelo Bernardes (flauta e sopros), o grande Wilson das Neves (bateria) e Luiz Claudio Ramos, Chico, que toca violão, entrelaça canções que estão no inconsciente coletivo do país com temas do álbum de inéditas de 2011.

É quase tudo samba (cadenciado, sofisticado, jobiniano), como ele avisa logo na segunda música do show de 90 minutos: De Volta ao Samba (1993): “Pensou que eu não vinha mais, pensou/ Cansou de esperar por mim/ Acenda o refletor/ Apure o tamborim/ Aqui é o meu lugar/ Eu vim”.

Chico é, provavelmente, o compositor popular – em qualquer idioma – que melhor enxerga a alma feminina. O Meu Amor (1977), Terezinha (1977), Ana de Amsterdam (1973) e Sob Medida (1979), compostas do ponto de vista feminino e interpretadas em sequência, reforçam essa ideia e calam fundo nas mulheres. Algumas gritam: “Lindo!”.

A alma feminina de Chico, aliás, não sofreu o desgaste do tempo. É só prestar atenção na nova safra: o pseudoblues Essa Pequena e as valsas Nina e Se Eu Soubesse. Esta última, sob a ótica de uma mulher, ele interpreta no disco Chico com a cantora Thais Gulin, sua namorada.

No universo musical de um homem especial que evoca um tempo de delicadezas, Geni e o Zepelim (1977) ressurge com impacto, Baioque (1972) tangencia o rock, e o rapper paulista Criolo é saudado de modo surpreendente em Cálice (parceria com Gilberto Gil, de 1973).  O show, que vai até amanhã e para o qual ainda há ingressos nas filas Z, termina com a melhor música recente de Chico Buarque: Sinhá (2011), parceria com João Bosco. Um samba-afro admirável na Roma negra Salvador.

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* Crítica publicada originalmente no jornal CORREIO*, dia 11 de maio de 2012

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Faltava um farol em alguns dos carros no estacionamento do The Broadway. O bar propriamente dito tinha duas personalidades. Havia os caras de 30 e poucos anos que trabalhavam duro na fábrica de cerveja na outra margem do rio e que, ao cair da tarde, não queriam ir para casa e ficavam tomando todas.

E depois, por volta das 22 horas, chegava a primeira leva de jovens. As duas turmas vinham sempre. Houve um tempo em que o pessoal da noite era formado apenas de adolescentes, mas a idade permitida para beber vinha aos poucos sendo elevada. Agora, as carteirinhas de faculdade predominavam na entrada.

Os adolescentes sempre haviam sido maioria no Broadway ao longo dos anos e, à menor provocação, podiam expulsar um punk encrenqueiro, um cabeça de comprimido. Os gostos dessa turma, incluindo a receptividade às novas bandas de garagem rock, acabaram prevalecendo – e o senhor do tempo parecia sempre em movimento.

Na parede dos fundos, as bandas ocupavam pouco mais de dois metros quadrados. Não havia muito espaço para dançar na plateia, tampouco evoluções e corridas pelo palco. O som que saía daquilo que chamavam de equipamento era sujo e ameaçador como uma derrapagem nas ruas cobertas de neve de Reykjavik.

Quando Björn chegou, uma banda chamada New Cardigans estava se apresentando. Ele desdenhou do jeito do trio: dos clichês (“Te quero tanto, vamos curtir, não me faça sofrer…”), da incapacidade do baixista de aprender as mudanças de acordes, das botas pretas de cowboy de Nashville perdido na Islândia.

Björn foi beber numa mesa do canto. A noite estava entediante. Embora tivesse 25 anos, começava a ficar sem paciência para a fauna do rock. De qualquer maneira, se o boato que correra no final da tarde na internet se confirmasse, os guys dos Strokes fariam um show surpresa naquele inferninho.

O que Fabrizio Moretti, Albert Hammond, Julian Casablancas, Nick Valensi e Nikolai Fraiture estavam fazendo naquele lugar frio dos infernos, só Deus sabe. Mas, por volta de 1 hora, um cara pegou o microfone e anunciou: “Ladies and gentlemen! From N.Y.C., The Strokes!”. E a banda começou a tocar Meet me in the bathroom.

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Björn lembrava-se do beijo de despedida. A garota fora embora antes do meio-dia. Antes de ir tinha sussurrado algo no seu ouvido. O quê? E depois beijou-o. Os detalhes estavam nebulosos. Ficou mais alguns minutos sonolento, com os acordes de Last nite e Hard to explain indo e vindo na sua cabeça.

Uma ponta de dor correu da base do pescoço, passou pela medula, pelo músculo, pelo osso, principalmente pelo cérebro, e mergulhou no fundo dos seus olhos. De cueca preta, com um prato de cereais e uma caixa de suco de laranja na mão, ele passou em revista os últimos meses de sua vida. Estava no lucro.

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Não há nada mais tímido do que um violão depois que se toca guitarra por algum tempo. É como usar baioneta contra um exército de submetralhadoras. O som daquele dedilhar solitário de acordes abertos – som que traz fogueiras e acampamentos à memória – é patético, porque fica muito perto do silêncio.

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O que é melhor: um show dos Strokes ou um orgasmo? Um show dos Strokes, respondeu Björn à sua própria pergunta. E voltou para o calor das cobertas.

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* Texto publicado originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO*, dia 8 de maio de 2012.

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O cantor e multi-instrumentista belga-australiano Gotye: apaixonado pelo pop dos anos 80 e sucesso inesperado na parada americana

Nascido na Bélgica e criado em Melbourne, na Austrália, o cantor e multi-instrumentista Gotye – pronuncia-se Gotiê -, 31 anos, é o acontecimento mais inusitado da parada americana nesta temporada. O single Somebody That I Used To Know – uma canção eletroacústica que inclui um sample de Seville, do brasileiro Luiz Bonfá, e lembra Sting – encontra-se há 17 semanas na parada da revista Billboard, estando ainda no topo, e o disco Making Mirrors (Universal Music) está no Top 10 dos álbuns. É uma canção atípica numa lista dominada pelo neosoul de Adele e por artistas de hip hop, dance, teen pop e ex-participantes do American Idol.

Wally De Becker, nome de batismo de Gotye, é apaixonado por colagens musicais e bebe do pop dos anos 80 – Police, Peter Gabriel, Depeche Mode – de modo muito criativo. O mundo não vai mudar com Making Mirrors, mas a música de Gotye é puro prazer. O sucesso merecido passa também pelo videoclipe de Somebody That I Used To Know, com mais de 198 milhões de visualizações no YouTube. A canção, que tem participação especial da cantora neozelandesa Kimbra, já ganhou cover na série Glee.

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Maior compositor do rock argentino e um dos melhores artistas pop da língua espanhola, Fito Paez, 49 anos, decidiu interpretar 14 canções de outros autores, de diferentes lugares do mundo, e ainda transmiti-las por ondas magnéticas no espaço sideral. “Pensei que nós poderíamos fazer uma série de gravações para enviar ao espaço, como uma mensagem numa garrafa, para um dia serem ouvidas em algum lugar escondido no universo”, explica Fito.

O resultado é o excelente álbum Canciones para aliens (Sony), gravado entre Trancoso, na Bahia, e a Argentina. Além do bom gosto na escolha das canções, Fito Paez imprime sua estética, muito poética, em todo o projeto. De Chico Buarque, por exemplo, ele interpreta o clássico Construção de modo muito criativo, reconstruindo a tensão original da composição graças às cordas da Ensamble Estación Buenos Aires.

O cantor brasileiro, além disso, divide os vocais com Fito na faixa Tango (Promesas de Amor), do japonês Ryuchi Sakamoto. Algumas canções ganham versões e letras do próprio Fito, como Ring them bells (Bob Dylan) e Dancing in the streets (Marvin Gaye), que viram Doblen campanas e Baila por ahí. Outros destaques do repertório são o punk rock Rata de dos patas, do mexicano Eduardo Norberto Toscano; a versão menos dramática de Ne me quitte pas, de Jacques Brel; e o rock Yo no quiero volverme tan loco, do argentino Charly Garcia.

Veja imagens e o áudio de Fito Paez interpretando Construção, de Chico Buarque…

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Madrugada: 2h45. Eu sou o último cliente do bar do hotel com vista para a praia. Um casal acabou de sair e os garçons, educados, mas cansados, precisam ir para casa. Não quero dormir. A mistura de álcool, paraísos artificiais e recordações produz mais serotonina em mim do que uma barra de chocolate amargo.

Nunca pensei que um dia estaria na cidade em que você nasceu. Eu nunca soube muita coisa sobre o seu passado. Você não gostava de falar sobre ele. Tinha seus motivos: uma briga, um crime passional, uma fuga, uma filha deixada para trás… A vida é bela, pois não, e quem disse que sempre podemos julgar?

Estou há quatro dias na cidade e não tive tempo de passear, ir além de centros culturais e da avenida beira-mar. Preciso conhecer um pouco mais, ver, pelo menos, as ruas, praças e igrejas que um dia você também viu e que formaram a memória da sua pele. A pele que tanto me tocou. Peço ao recepcionista que chame um taxista conhecido e acerto um preço para fazer um tour. A iluminação amarelada das ruas desertas combina com meu roteiro de filme indie.

Tudo que vejo parece cena de cinema: a lagoa que é um cartão-postal, a igreja com um imenso cruzeiro, o teatro centenário… Pergunto onde fica o lado selvagem da cidade, onde as criaturas outsiders vagueiam. O motorista sorri e sou levado a uma praça com luz néon e música e emoções baratas, um lugar vagabundo e humano, demasiadamente humano. Desço do carro, peço uma cerveja numa barraca e um travesti, em cima de uma mesa, se esforça para dançar e cantar uma música de Beyoncé.

Somos tão grandiosos e tão patéticos, nós, homens. Pensamos que construímos nosso destino, e talvez até o façamos um pouco, mas, no fundo, somos personagens de uma tragicomédia grega. Os deuses são mesmo sábios: estimulam a nossa vaidade para que possamos tropeçar e pedir ajuda.

São 4h55. Na cidade onde o sol nasce mais cedo no país, ele está para surgir de novo. De volta ao hotel, eu continuo pensando em você. Queria poder lhe abraçar e dizer que, finalmente, conheci a cidade onde você nasceu. Queria beijá-lo e sentir a sua fragrância pós-barba, mas isso é impossível, eu sei.

***

Grito todos os meus silêncios. Meu corpo me escapa. Eu não mais me pertenço. Eu percorro todos os quartos vazios da minha alma. Eu grito minha memória, cada afago que recebi de você, cada reprimenda, cada conselho. Por Deus, por que não podemos ver quem amamos depois que eles morrem? Só senti-los, de leve, como o roçar de um gato.

***

O passado tem raízes no amanhã. Penso em mim, já idoso, repetindo coisas que eu não gostava em ti. Como não entendo a vida sem ironia, não fico chateado com essa perspectiva. Sou cada vez mais a sua imagem e semelhança, uma carta que o destino enviou, mas cuja página ainda está sendo escrita. Eu sou você, meu senhor.

***

Eu me dou conta agora de que todos aqueles anos ao seu lado não foram suficientes para mim. Tudo que restou está na caverna luminosa da memória e nada posso fazer para alterar a situação.

***
E isso é apenas pulp fiction, homeboy.

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* Texto publicado originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO*, dia 1º de maio de 2012

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Produto clássico de um hype (no caso, da indústria musical inglesa em 2011), a banda The Vaccines foi comparada imediatamente ao grupo americano The Strokes – e faz sentido, mesmo que em seu corpo em formação ela traga sinais também da objetividade punk dos Ramones e da complexidade dos Smiths. Apenas sinais, aliás, como mostra o álbum  What Did You Expect from The Vaccines? (Sony Music). O neo-garagem rock da década passada foi vendido inicialmente como um  novo rock’n'roll, mas, na maioria dos casos, não passava de um revival sonhador legitimado por quem só descobriu o Television depois dos Strokes. Apenas uma banda pós-Strokes conseguiu ultrapassar com louvor aquela febre neo-garagem: o Arctic Monkeys. Alex Turner e parceiros foram capazes de conservar uma verve adolescente e, ao mesmo tempo, de crescer sem distorcer virtudes e valores. O hype que rodeia o primeiro disco dos Vacinnes não é muito diferente daquele que projetou o Arctic Monkeys. Porém, apesar do frescor de canções como Wreckin Bar (Ra Ra Ra), If you wanna e Post break-up sex, há questões de identidade que não se resolvem nesse trabalho. Aguardemos o próximo disco, pois não.

Confira The Vaccines no videoclipe de Post break-up sex

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George não gostava de Natal, Reveillon, Carnaval, dessas festas em que as pessoas, mesmo não sendo familiares ou amigos, abraçam todo mundo, desejam felicidade e acreditam que a paz universal é possível. Ele não era parente do Grinch, mas não suportava as renas, Papai Noel, Rei Momo e o que chamava de conspiração consumista ou ditadura da alegria.

Eu entendia George. Nascido em San Francisco e morando no Brasil há 18 anos, ele sofria com a ausência do amigo desaparecido num desastre de automóvel e, vez por outra, se permitia uma pequena bebedeira no final da noite ao som de Jim Morrison. Um instante febril na existência de um homem resignado aos livros e à monotonia da razão.

Como se fosse um poeta moderno medíocre, George escrevia nesses momentos: “A linha da vida quer a interrupção, cair no chão, rastejar feito réptil, abrir um buraco e sumir, aceitando tudo como devaneio de afluentes, falta de brilho, espaço, avião um minuto antes da pane. A linha da vida quer ser cortada”.

Um dia, porém, um novo amor errou de endereço e bateu à porta de George. Como todo novo amor, ele mudou a geografia dos móveis da casa, tirou a poeira, trocou as cortinas, abriu as janelas e trouxe seus discos e livros. No início, George estranhou. Pensou em expulsar o intruso, mas foi se reeducando aos poucos ao afeto que parecia sincero.

Havia tempo que ele não se sentia tão bem. Passou a admirar menos o umbigo e mais as coisas simples da vida, a não sentir-se responsável pelas dores do mundo, a tentar entender melhor o ponto de vista do outro. Não era uma questão de redenção e, sim, de trocar a pretensão pela comoção existencial.

Sábado, encontrei George e Gabriel, o seu novo e bonito boyfriend, fazendo compras em um shopping. Parecia outro homem. Me pediu sugestão de brinquedo para o afilhado, falou da paixão recente por The Vaccines, a quem assistira num pequeno clube em Los Angeles, e que tinha adorado o filme O Artista. Nos despedimos cantando Love is all around, como se fôssemos backing vocals de Elvis.

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Podemos escolher o melhor amante, mas não o melhor amor. Como a morte, não podemos escolher o amor – ele nos é dado. É diferente também da paixão, a quem somos levados por uma catarse que identificamos, mas não sabemos controlá-la. Até que o encanto quebre (e a gente perceba que beijávamos um ser monstruoso) ou então que o sentimento amadureça e vire amor.

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Não importo em ver a idade que nos separa, pois ela é o que nos aproxima. O dobro da tua idade é a minha – e até brincamos com isso. Ouvimos o que nos convém e dispensamos previsões sobre o futuro. Só estamos interessados no presente.

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Chame a cavalaria. Estou ferido e sem água na pradaria. O forte está distante e os índios vão voltar a atacar. Chame a cavalaria, urgente. Você vai sofrer se eu morrer por falta de socorro. Chame a cavalaria enquanto é tempo. Eu já começo a delirar e a sentir o gosto amargo da tua boca. Chame a cavalaria e me abrace forte.

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Considere tudo que faça seu rosto ficar vermelho, seu coração disparar e você querer ouvir baladas românticas. É o primeiro aviso de que o amor está mandando lembranças.

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*Matéria publicada originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO*, dia 24 de abril de 2012.

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Um dos melhores artistas americanos do pop atual, a cantora Katy Perry, 27 anos, tem consciência de que Teenage dream (2010) se transformou num clássico pop instantâneo da era 2000 – os seis vibrantes singles consecutivos que atingiram o top da parada da Billboard, igualando o recorde que o mito Michael Jackson conseguiu com Bad (1987), não deixam dúvidas. Por isso, ela alonga o álbum e lança Teenage dream: The complete confection (EMI). Além das 12 faixas do álbum original, o novo disco tem três novas canções (Part of me, Wide awake e Dressin’ up), bem como versões de ET (com Kannye West), Last friday night (com Missy Elliott), uma releitura acústica de The one that got away e um megamix do DJ Tommir Sunshine com todos  os seis singles #1: California gurls, Teenage dream, Firework, ET, Last Friday night (T.G.I.F.) e The one that got away. Ah! E a inédita Part of me também bateu no topo da parada de singles da Billboard. Garota esperta!

Confira o videoclipe de Part of me

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