18.11.2011 | Atualizado em 18.11.2011 - 04:21
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Assis Valente morreu de tristeza, numa manhã de março de 1958. Se despediu da vida por iniciativa própria, cumprindo a promessa que fizera mais de uma vez aos amigos mais próximos. Assis Valente morreu, já se vão mais de seis décadas, mas, no Natal, ele está mais vivo do que nunca, na música de sua autoria que os corais dos shoppings já interpretam, ouvi no último fim de semana, e logo mais as estações de rádio estarão a reproduzir. Música natalina, genuinamente brasileira, de versos tristes e melodia alegre, um paradoxo dos arranjos musicais: “Eu pensei que todo mundo/ fosse filho de papai Noel/ E assim felicidade/ Eu pensei que fosse uma/ Brincadeira de papel/ Já faz tempo que eu pedi /Mas o meu Papai Noel não vem/ Com certeza já morreu/ Ou então felicidade/ É brinquedo que não tem”.
Assis Valente nasceu em Santo Amaro, foi roubado dos pais biológicos e já adolescente vagou pelo interior da Bahia com o elenco de um circo; em Salvador trabalhou como farmacêutico e fez um curso de protético, até que um dia se encontrou com a música. Tornou-se, já morando no Rio de Janeiro, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos; algumas de suas criações eternizadas, a exemplo da música natalina aqui referida, ou então Brasil Pandeiro e Camisa Listrada, para citar as de maior ‘recall’ na discografia brasileira.
O seu talento não reverteu em meios de ganhar a vida. Não conseguiu viver da música. Enquanto alguns de seus intérpretes enriqueceram, Carmen Miranda, por exemplo, Assis Valente viveu afogado em dívidas; na sua carta de despedida implorava para que o público comprasse seu novo disco, Lamento, e pedia a Ary Barroso que pagasse os aluguéis atrasados. Não disse mais nada: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo”. Seu amigo o embaixador Paschoal Carlos Magno em memorável crônica escrita no semanário Politika, de Sebastião Nery, na edição de 26 de junho de 1972, lembrou a aflição do compositor, uma tristeza que tinha raízes mais profundas do que o sentimento fraterno poderia imaginar.
“Era mais de meia-noite. Eu morava em Santa Teresa. O telefone furava o silêncio. Era Assis Valente que me pedia socorro. Precisava com urgência me ver, àquela hora mesmo... Assim que entrou na sala de nossa casa parecia mais calmo. Olhou, como era seu costume, para os santos antigos, os oratórios e para o quadro de minha mãe, pintado por Rescala. Esperava que me revelasse alguma coisa muito séria que o afligia”, conta o embaixador que narra o desabafo do compositor: “Toda vez que me sinto perdido, desesperado, venho para sua casa. Sempre foi assim. Eu vivo obcecado pela morte, um dia me mato doutor, um dia me mato”.
Paschoal Carlos Magno prossegue: “Nunca me contava as razões de seu desespero. Fui buscar água. Ao voltar o encontrei chorando, com o rosto escondido entre as mãos abertas. Não bebeu a água que havia pedido. Então me deu um abraço grande e falou: me desculpe doutor, me desculpe. Estou melhor. Esta noite não me mato mais. Vi o senhor, vi o retrato de sua mãe. Ainda tem muita gente boa neste mundo”. Algumas semanas após o episódio relatado Assis Valente deixou a vida ao amanhecer. “Certamente ele me telefonou de madrugada - supõe o embaixador - na certa ele me chamou ao telefone muitas e muitas vezes, como costumava fazer, eu tinha tomado remédio e não acordei. Sozinho, sem ter seu irmão mais velho para amparar-lhe a queda, matou-se”.
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José Falcão
Obrigado, Nelson. Não sabia que essa canção era de Assis Valente, baiano, santoamarense. Cmo pode quem teve a ideia de ecrever a música ser menos, bem menos reconhecido em comparação ao interprete. Que tambem tem seu valor - é claro. Um abraço.
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