25.11.2011 | Atualizado em 25.11.2011 - 08:08
Visualizações: 181 - Versão Impressa
A TV pública do Brasil comemora na próxima semana quatro anos de atividades, sem nada a comemorar. Inaugurada em 2 de dezembro de 2007 pelo ex-presidente Lula, com o propósito de ser uma terceira via para o telespectador, ou seja, uma alternativa entre os interesses de Estado (as emissoras estatais) e os interesses do mercado (as redes de TV da iniciativa privada), continua a registrar traço nos índices de audiência do Ibope.
Significa que a TV pública não conseguiu ser pública coisa nenhuma, para isso seria necessário ter uma audiência de massa; significa que, na prática, é de fato uma televisão privada e elitista, no sentido de que atinge apenas uma insignificante parcela da população, a mais bem esclarecida. O referido traço corresponde a menos de 1% dos domicílios com aparelhos ligados.
A TV pública é uma das melhores ideias que o Brasil já produziu no sentido de democratizar os meios de comunicação, possibilitando ao cidadão a oportunidade de decidir sobre os conteúdos de informação, cultura e entretenimento, fortalecendo a pluralidade e a regionalização da produção. Ideia que pressupõe a não ingerência do governo ou, então, dos interesses de mercado, através da publicidade que paga os espaços e gera lucro para os empreendedores privados. No papel é o modelo ideal de televisão que tem como referência a BBC de Londres, a mais bem-sucedida TV pública do mundo. O telespectador decide o que consome.
Duas perguntas são inevitáveis sobre a TV pública no Brasil: por que não deu certo até agora? Mesmo considerando que houve um ganho de qualidade da programação, atestado por respeitáveis analistas, mas não traduzido em audiência. E a segunda: tem chances de dar certo? Não deu certo porque o Brasil adotou o pior modelo de TV pública do mundo que consiste em transferir recursos integrais do governo para a rede de TV e se eu disse recursos foi por generosidade, na prática são esmolas. Outros países optaram por modelos mais bem-sucedidos, como o sistema de impostos para essa finalidade, embutidos na compra de monitores e de serviços, ou então taxas diretas.
A TV Brasil conta hoje com um orçamento de R$ 471 milhões ao ano, 100% de subsídio oficial - uma ninharia considerando os orçamentos na casa dos bilhões de reais das emissoras privadas. Sem dinheiro, não é possível fazer uma boa televisão. Fora isso, a TV pública não conseguiu, também, passar credibilidade no seu jornalismo, que já vacilou em situações críticas como o do episódio do enriquecimento do ministro Palocci que, primeiro, omitiu e demorou a noticiar, já sob pressão dos acontecimentos. Para fazer média com quem lhe paga as despesas, rendeu-se à mesma lógica dos interesses de mercado que diz ser o seu contraponto.
E tem chances de dar certo? Na minha opinião não, enquanto os diretores da TV pública continuarem a ser nomeados pela Presidência da República e não por um conselho de representantes da sociedade, como seria aconselhável e é nos países onde a TV pública tem audiência. Não, enquanto prevalecer o artigo 8º da lei que estabelece a obrigação de “transmissão de atos e matérias do governo federal”. Não, enquanto for totalmente dependente do governo e seguir a lógica do orçamento estatal e seus entraves para a execução de despesas com a dinâmica que o veículo exige.
Não, enquanto o talento (melhores apresentadores, fotógrafos, editores, especialistas de todas as artes e ciências, etc.) for custo do orçamento e não um diferencial competitivo. Se nada for feito para mudar, a TV Brasil terá sido simplesmente uma boa ideia jogada no lixo. Terá sido apenas uma transferência de nome e de razão social e também uma transferência de audiência. Nesse caso, da falta dela.
Comente esta notícia
Ocultar comentários
Comentar notícia | Cadastre-se