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Colunistas

 

Nelson Cadena


Nelson Cadena: Duzentos anos das revistas

20.01.2012 | Atualizado em 20.01.2012 - 04:24

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Comemoramos este mês 200 anos da plataforma de mídia revistas no Brasil, referência da edição número um de Variedades. Ou Ensaios de Literatura, que circulou em Salvador em fevereiro de 1812 com data de capa de janeiro do mesmo ano, edição de trinta e quatro páginas, trinta de matéria, iniciativa empresarial do editor Manoel da Silva Serva. Diferente do que sugere o título não tinha um conteúdo propriamente literário e sim científico, filosófico e até de entretenimento, considerando as anedotas. Ostentava o símbolo da maçonaria na capa. Pelo que me consta teria sido a primeira publicação em idioma português no mundo a exibir o sol flamegante, a esquadra e o compasso como referência visual e certamente essa era a senha para o público alvo.


Muitas são as dúvidas em torno de nossa primeira revista, redigida por Diogo Doares da Silva de Bivar, preso político que cumpria pena no Forte de São Pedro, acusado de ter servido o General Junot durante a invasão napoleônica a Portugal; contraiu matrimônio por procuração e mesmo atrás das grades, teve três filhos. O grande desafio é entender como uma publicação “com as licenças necessárias” conforme exibe no seu rodapé de capa, ou seja, o beneplácito da censura, foi pensada e redigida dentro do cárcere. Outro desafio é entender o acesso do jornalista às referências bibliográficas das matérias redigidas (Cícero, Ariano, Diógenes, Laércio, Sêneca, Rapin, Barthelemy, Le Sage, Foucher, Condillac...). Ou ele dispunha de uma biblioteca a seu serviço na prisão, ou, então, saia e voltava, num eventual privilégio de regime aberto.
Enigmas à parte, cabe aqui uma pergunta: Era Variedades de fato uma revista?


Na minha opinião sim, a começar pelo nome, que se reporta à ideia de temas variados reunidos numa só publicação. Sua linha editorial tratava de filosofia, literatura, anedotas, resumo de viagens; ou seja, todas as referências de uma prateleira de assuntos, o conceito de magazine que os americanos popularizaram no final do século XIX. Então, por que a dúvida? Variedades delimitava um propósito editorial e um estilo de publicação, mas ao mesmo tempo deixava patente o receio de não ser compreendida, senão por que o subtítulo de “Ou ensaios de Literatura”?


Naquele tempo não existia um padrão gráfico determinante para estabelecer se uma publicação era jornal ou periódico, ou revista. A máquina impressora era em ambos os casos um prelo de madeira com prensa pela força motriz; o formato de páginas era entre 18 e 22 cm de largura por 10 a 14 cm de altura; a diagramação era semelhante e um e outro careciam de recursos gráficos visuais, nem mesmo as vinhetas ou molduras que seriam popularizadas somente a partir da década de 30. O número de páginas também não era determinante. Jornais costumavam ter quatro páginas, mas havia exceções como a do jornal de Hipólito da Costa, o Correio Braziliense, com mais de uma centena de folhas.


A propósito, tenho a impressão de que Hipólito da Costa, que também era maçon, pensou originalmente em fazer uma revista e não um jornal, quatro anos antes do surgimento de Variedades. E sabem por quê? Registrou o seu impresso como Correio Braziliense. Ou Armazém Literário. Eis aqui de novo o condicional “Ou”. Hipólito da Costa na prática fez o Correio, mas enxergou o Armazém que vem a ser justamente o magazine, conceito de prateleira de assuntos. Se não levou adiante é porque seus interesses estavam voltados para uma ação política que acabou determinando o perfil temático de samba de uma nota só.

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