Eu não consigo ouvir Ivan Lins sem imaginar um corno. E não estou falando do artista nem de seu repertório, nada a ver. É que conheci a sua música e me familiarizei com ela numa circunstância um tanto inusitada que aqui vou narrar e já posso imaginar pela sua risada de canto de boca, estou vendo, que você leitor vai apreciar. Não vai dizer para mim que não foi pelo título, o apelo de corno, que você começou a degustar esta crônica. Conta outra. A história se passa lá no Rio de Janeiro, bairro de Santa Teresa, na casa de um amigo que foi meu amigo até o dia em que dormi com a mulher dele e aí, não entendi até hoje, começou a me olhar de um jeito diferente, me evitar nos corredores e num momento de desabafo sugerir: por favor, não leve a mal, vá embora de minha casa, se é que está me entendendo. É claro que eu não estava entendendo.
Rafael era casado com Graça e tinha um filho de 2 anos chamado Arthur, troquei os nomes para não constranger, imagine esta crônica caindo na web! Não era uma linda mulher, mas era uma garota desejada por todos os que como eu vagávamos pelo mundo com uma mochila nas costas, década de 70, hippies por convicção; hóspedes de várias nacionalidades que enchíamos a casa e a paciência e a boa vontade do Rafael que só não enchia a gente de porrada graças à terapia Ivan Lins que lhe aliviava o chifre. Sempre imaginei que no dia do juízo final Rafael teria um lugar assegurado entre os santos e resignados homens cornos que passaram por este planeta Terra.
Todo dia, como na música de Chico, ela fazia tudo sempre igual, sacudia o marido “às seis horas da manhã, um sorriso pontual e o beijava com a boca de hortelã”. No entardecer dizia que “o estava esperando para o jantar e o beijava com a boca de café”. “Dizia que estava muito louca para beijar e beijava com a boca de paixão”. Nesse seu cotidiano, todo dia ela fazia tudo sempre igual: logo que Rafael se distraia, Graça seduzia um dos convidados da casa com um olhar de canto de olho, levava-o para o quarto, deixava a porta apenas encostada para o maridão saber o que estava se passando lá dentro. Fazia parte do acordo de casais, de total liberdade; Rita Lee já explicou isso direito: “Amor é isso, sexo é aquilo”.
Todo dia, Graça gemia, fazia tudo sempre igual, um barulho da zorra, sinalizando para toda a galera da casa o clima lá nos aposentos. Rafael incomodado e enlouquecido com a situação, a testa coçando, corria para colocar um disco de Ivan Lins na radiola, a todo volume, e assim abafar os gritos de sua mulher. Ouvíamos Graça : Ai, Ai, Ai; Ouvíamos ao mesmo tempo Rafael na sua ladainha de playback: “Oh, Madalena/ O que é meu não se divide/Nem tão pouco se admite/quem de nosso amor duvide”. E lá ia Ivan Lins como pano de fundo da situação, a vizinhança toda já desconfiando do gosto musical do dono da casa: “Até a lua/se arrisca num palpite/Que o nosso amor existe/Forte ou fraco/Alegre ou triste”. No intervalo entre uma e outra faixa do LP, Graça de novo: Ai, Ai, Ai!
Até que um dia deu no Jornal Nacional que a policia faria uma batida numa certa casa de Santa Teresa, adivinhem qual, onde tinha se hospedado uma americana presa no aeroporto com um papelote contendo 200 pingos de LSD. Não esperamos o Cid Moreira dar o boa noite e já estávamos ladeira baixo, sem saber o que fazer, onde pernoitar. Aguardamos algumas horas, intermináveis pela ansiedade, a lua já se insinuando e nada de viaturas na área. Até que, cheios de coragem, na ponta dos pés, lá pelas tantas da madrugada, adentramos na casa, por um anexo dos fundos, para conferir a situação, apreensivos e cheios de dúvidas. De repente, ouvimos Ivan Lins, lá ele, Rafael em playback, em voz alta: “Quando o nosso amor desperta/Logo o sol se desespera/E se esconde lá na serra”. Respiramos fundo, alivio. Ivan Lins era o sinal inequívoco de que na casa estava tudo em ordem.
Comente esta notícia
Ocultar comentários
Comentar notícia | Cadastre-se