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Colunistas

 

Nelson Cadena


Nelson Cadena: O bombardeio da Bahia

11.11.2011 | Atualizado em 11.11.2011 - 04:17

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A dois meses do centenário de um dos episódios mais nebulosos da história da Bahia, o bombardeio de Salvador ocorrido em 10 de janeiro de 1912 por ordem do General Sotero de Menezes, aquartelado no Forte de São Marcelo, cabe aqui a lembrança do evento, para que os ares leves do Verão e a vontade de apenas curtir praia, axé e sol, não deixem o episódio passar em branco. Afinal trata-se de um assunto que até hoje, tanto tempo transcorrido, a história trata com receio e escrúpulo e uma prova material disso é não se ter nenhum registro sobre o episódio no Palácio do Rio Branco, em meio a uma dezena de placas informativas sobre outros acontecimentos menores que ali ocorreram.


O bombardeio da Bahia, talvez pelas circunstâncias vergonhosas em que se deu, motivos torpes, interesses pessoais de grupos políticos representando interesses das elites, é uma página da história cujas tintas ainda não secaram, prontas para serem revisitadas por estudantes, pesquisadores, artistas, e recriadas no seu devido contexto, através de peças de teatro, filmes, especiais de televisão, livros talvez.  Os baianos merecem saber que um dia alguém teve o topete de fazer uma intervenção federal e promover um banho de fogo e sangue; soldados do Exército de um lado, policiais militares estaduais, do outro. Eles, as elites, entraram com os recursos, o povo baiano entrou com os mortos, a maioria fardados, pobres coitados.


O balanço do bombardeio da Bahia, fora os mortos e feridos que isso é detalhe para quem promoveu o evento, foi o de muitos sobrados incendiados na Rua Chile, alguns literalmente destruídos.  Mas, o dano maior, sem dúvida, foi a perda das coleções de jornais antigos, um acervo nunca recuperado, assim como a de milhares de livros da Biblioteca Pública, incluindo raridades bibliográficas, que funcionava dentro do Palácio dos Governadores.  A Rua Chile era o equivalente em importância a Tancredo Neves de hoje. É como se aviões sobrevoassem a avenida e jogassem bombas sobre esses prédios bonitos que a gente admira. É um exercício de imaginação, apenas, mas cabe essa projeção de imagem ao menos para despertar indignação, ainda que cem anos tenham apagado as feridas.


Tudo que diz respeito ao bombardeio da Bahia é mal explicado, nebuloso, adrede distorcido para salvaguardar honras. De quem? A mídia nesse episódio foi cúmplice e leviana. Os jornais seabristas diziam com todas as letras para o povo baiano que os boatos sobre um suposto bombardeio, que outros jornais já noticiavam, eram apenas boatos. Quem morava no centro da cidade e se escondeu embaixo da cama e trancou portas para não tomar um tiro, ouvia e cheirava o boato. Balas de canhões têm um cheiro forte e fazem aquele barulho! Mas quem morava distante, nas imediações de Nazaré, Barra, Rio Vermelho, acreditava nessa mídia comprometida e inescrupulosa. Cara de pau. Depois teria de admitir que o boato era fato e explicar de seu jeito os acontecimentos, justificar mortos e danos materiais e por isso na conta do adversário.


O bombardeio da Bahia não teve a sua catarse, aquele exercício de expiação que todos os povos do mundo praticam para libertar os fantasmas dos excessos cometidos. Está mais do que na hora! Almas penadas aguardam por isso.

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