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Colunistas

 

Nelson Cadena


Nelson Cadena: Papai Noel melhor do que eu? Aonde

16.12.2011 | Atualizado em 16.12.2011 - 04:39

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Encontrei o meu amigo Rodolfo tomando uma cervejinha, fim de tarde, lá no Solar do Unhão, incomodado com a vida por motivo fútil, pelo menos era o que eu achava até decifrar o seu estado de espírito. Ouvi o desabafo: Cadena, não aguento mais ouvir falar em Papai Noel, vim aqui para olhar o mar, essa lua nova bonita daqui a pouco refletida no píer, quero ver as estrelas e estou topando qualquer negócio para ficar longe do shopping, dos corais da praça, dos comerciais da TV, quero distância de Papai Noel. Estou de um jeito que não aguento ver ninguém de vermelho, ainda bem que essa sua camisa não tem rubi na estampa.


Tentei contemporizar, entender a bronca do Rodolfo com o Santa Claus, já estava buscando as palavras para explicar de meu jeito o simbolismo do bom velhinho, mas meu amigo continuou a desabafar: Eu sou um sujeito invejoso, confesso, mas me diga uma coisa: você que é da mídia e observador qualificado, o que esse tal de Papai Noel é melhor do que eu para ter esse cartaz todo? O cara tem uma bunda enorme, é obeso, para não dizer barrigudo, e ainda usa barba e bigode que lhe tomam toda a boca; qual é a mulher que se arrisca a beijar ali? Já eu, repare no figurino: esbelto, simpático, malho todo dia, cara limpa.


Mas, Rodolfo, tentei interromper, você está sendo radical demais, Papai Noel é uma lenda e faz parte do imaginário do Natal de bilhões de crianças e de adultos que um dia foram crianças, deitei a falar, não me deixou continuar o raciocínio: Repare bem Cadena, o cara veio lá dos cafundó do judas, sem nenhum preconceito com nacionalidade, mas sendo realista; usa uma roupa ridícula, não me diga que você acha bonito vermelho do chapéu à meia? E ainda é analfabeto, só sabe falar Ho, Ho, Ho; pelo amor de Deus! Eu pelo menos sei dizer Há, Há, Há e outras cositas e se tomar a saideira agora falo a gramática toda aqui na sua frente. Papai Noel pode ter esse cartaz todo para vocês da mídia, mas sou mais eu.


Ouvi calado para não aumentar a aflição do meu amigo, claro que discordando desse seu sentimento antissocial, tentei mais uma vez relativizar, me interrompeu de novo: Cadena eu trabalho de sol a lua, de domingo a domingo, dou um duro danado. E Papai Noel? O cara trabalha um mês por ano, descansa onze, férias de janeiro a novembro e fui bonzinho ao dizer que trabalha porque lá no shopping finge que labuta, fica entalado com aquela bunda enorme numa cadeira, sentado o dia inteiro, na maior folga. Pelo amor de Deus.


Chega! interrompi o meu amigo de um jeito mais exaltado, não suportando mais o discurso enfadonho, chato e politicamente incorreto contra o Papai Noel e a sua representação lúdica no Natal. Afinal, eu adoro o velhinho. Em nome da amizade, aliviei o tom, mas coloquei um ponto final na história. Rodolfo, repare, Papai Noel é melhor do que eu e você, sim. Sabe por quê? Enquanto a gente enfrenta todo dia e toda hora esse trânsito dos infernos, ele singra os céus no seu trenó e ri lá de cima e não é mais de alegria como antigamente, acredite. É de nós.

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