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Colunistas

 

Nelson Cadena


Nelson Cadena: Rua João Ninguém

30.12.2011 | Atualizado em 30.12.2011 - 05:38

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Se tem uma coisa que eu morro de medo é um dia virar nome de rua, não desejo esse desgosto a nenhum ser humano, nem mesmo ao melhor inimigo (sempre achei errado falar em pior inimigo, afinal, se é o pior é um desafeto menor). Devaneios à parte, retomo o assunto. Morro de curiosidade de saber de quem foi a infeliz ideia de trocar a numeração das ruas, como é em muitos países do mundo, a lógica de rua um, rua dois, rua três ... rua noventa e nove e assim por diante, por nomes de pessoas, santos católicos, fatos e personagens.


Será que esse "gênio" da humanidade não parou para pensar que um dia as cidades se tornariam metrópoles e que o número de ruas se multiplicaria e com elas a necessidade de arranjar, às vezes improvisar, "homenageados" para nominar avenidas, ruas, becos...  E fora isso instalar em nosso cérebro um chip de memória contendo o nome e referência de cada um deles. Senão, qual é a graça da homenagem, se o cidadão comum não identifica o cidadão incomum?
Veja você aonde nós chegamos: uma cidade como Salvador, com dez mil cidadãos em média nominando ruas, trinta mil em São Paulo, para citar um outro exemplo, mau exemplo eu queria dizer. Dez mil pobres coitados em nossa amada Soterópolis que um dia, por mérito ou não, receberam o prêmio de serem "lembrados" para sempre, os seus nomes grafados numa placa indicativa da rua.

E lá fica "fulano de tal" pelo resto da vida, conhecido apenas do carteiro e de duas gerações da família, no máximo e referência dos moradores do local e da vizinhança que lembram do dito cujo na hora de fazer o cadastro na loja, mas não têm a menor ideia (e nem querem ter) de quem se trata: um médico, um cientista, um engenheiro, um pai de santo, um jornalista...  Fulano de tal deve ter sido um bom sujeito. E daí?


Placas de ruas com nomes de pessoas, na minha opinião, servem apenas para sustentar estudos sociológicos e nada mais do que isso. No sentido de que podemos entender melhor o processo excludente de nossa sociedade, confirmando outros indicadores já conhecidos e divulgados. Saber, por exemplo: quantas mulheres a nossa sociedade machista elevou à categoria de representar uma rua e qual a proporção em relação aos homens? E quantos negros e mulatos em relação aos brancos? Essa conta deve ser de humilhar. Tentei lembrar ruas com nome de mulheres e os dedos das mãos bastaram.


Tudo bem, para o leite derramado não tem remédio. Mas bem que podíamos tornar menos burra, no sentido literal da palavra, a nominação das ruas, colocando um verbete de quinze a vinte palavras, que seja, informando quem é o cidadão homenageado. Alguma coisa do tipo, para citar o exemplo de uma rua da Federação, ali no fundo da Faculdade de Engenharia: "Rua Camilo Torrend. 1875-1961. Padre Jesuíta, naturalista, botânico francês que estudou a nossa flora e descobriu as propriedades das águas medicinais de Dias D’ Avila". E assim por diante.


O custo disso seria a confecção e troca das placas de ruas já existentes, alguma pesquisa nos livros de Atas da Câmara e consulta aos jornais e aos livros de história; a contrapartida é que estaríamos resgatando a memória de nossa cidade e a dignidade dessas pessoas, hoje esquecidas na letra morta e às vezes desbotada de uma placa.

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