01.02.2012 | Atualizado em 01.02.2012 - 06:32
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Era junho de 1990 e fazia um calor danado na Sardenha, uma tranquila ilha italiana no Mediterrâneo. Naquela tarde, havia policiais por toda tarde em Cagliari, uma cidade de menos de 200 mil habitantes. As forças de seguranças estavam de olho nos torcedores ingleses e holandeses – as duas seleções se enfrentariam à noite, ali, pela Copa do Mundo. A tragédia de Heysel – estádio belga onde morreram 39 torcedores após um ataque de hooligans do Liverpool que disputava a final da Copa dos Campeões da Europa de 1985 com a Juventus – ainda assombrava o futebol.
Os clubes ingleses haviam sido banidos das competições europeias por seis anos. A Copa do Mundo na Itália era a volta dos torcedores ingleses – todos vistos como potenciais hooligans – aos estádios europeus. As autoridades italianas barraram a venda de bebidas nos estádios; em algumas cidades, proibiram o comércio em locais próximos; em Cagliari, vetaram a venda na cidade toda por três dias – da véspera ao dia seguinte de Inglaterra x Holanda, chamado na Itália de o clássico dos hooligans, o encontro de duas torcidas de vândalos bêbados.
Os torcedores ingleses em Cagliari misturavam uísque – que trouxeram de casa – com cerveja sem álcool gelada. Cantavam, faziam barulho, tiravam as camisas. Os holandeses jogavam steinhager e outras biritas nos copos gigantes de cerveja sem álcool. Havia muita gente bêbada no estádio de Cagliari – até mais do que se o comércio de cerveja estivesse liberado. O jogo, chatíssimo, terminou em 0x0. Não houve brigas nem confusão. Nem lá nem na Copa inteira. E nem no Mundial seguinte nos Estados Unidos onde a cerveja era consumida com gosto antes, durante e depois dos jogos. Os registros de tumultos nos estádios vêm caindo em toda a Europa, desde a década de 80, quando foram tomadas medidas contra os hooligans de todos os tipos, vândalos e marginais disfarçados de torcedores.
As bebidas alcoólicas podem ser potenciais combustíveis para a violência, mas a experiência europeia mostra que a segurança nos estádios é garantida pela organização do público e pelo banimento – e, nos casos mais graves, prisão – dos torcedores bandidos. Hoje, com as medidas repressivas, os conflitos entre hooligans na Inglaterra e em outros países da Europa ocorrem longe dos estádios. Aqui mesmo no Brasil, com a vigilância sistemática das torcidas organizadas e outras medidas, o fenômeno se repete: as brigas estão cada vez mais longe do campo de jogo. Tem lógica: o futebol e a cerveja são inocentes. Se não existissem, essa gente arranjaria outra rivalidade e outro combustível para sua violência.
A Fifa preocupa-se apenas com o grande negócio da Copa do Mundo e a cerveja Budweiser é sua patrocinadora. Mas não tenham dúvida de que, se tivesse qualquer indicação de que a birita fosse responsável por conflitos e violências durante seu espetáculo, a Fifa iria trocar a Budweiser por outro interessado. Vamos admitir: cerveja combina com futebol. O Brasil tem coisas mais importantes para se preocupar do que venda de cerveja nos estádios.
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