Paixão e negócio. Na essência, incompatíveis. No esporte cada vez mais profissional de hoje, indissociáveis. A contradição alimenta, e se alimenta, da própria incoerência. Ídolos instantâneos, contratações bombásticas, cifras inacreditáveis e devassa completa da vida dos seus astros. Tal qual os "fenômenos" pop, que nembemse livraram das espinhas e já têm DVDs - no plural mesmo - e até biografia circulando no mercado, os nomes que servem de matéria-prima pra essa indústria chegam ao estrelato cada vez mais cedo.
Se antes, para ser ídolo, um jogador tinha que construir uma trajetória, ganhar títulos, criar identificação com a camisa, hoje, quando os clubes já não têm força para manter suas escalações, torcedores se orgulham de ver, em algum clube megaestelar do planeta futebol, algum craque que simplesmente passou pelo seu time. É quase como o fã que nunca mais lava o lenço com o qual o ídolo, por acaso, enxugou o suor.
Ser ídolo tem cada vez menos a ver com realização. Na era da globalização, o bom é quem aparece mais, e aproveita cada segundo de exposição para transformá-lo em números. Essa distorção cria na mente de atletas, orientados por seus gananciosos empresários, a falsa ideia de sucesso. Não no sentido de "chegar lá", pois o poder aquisitivo e a ostentação desses milionários-prodígios são inegáveis. Mas o sucesso no que se refere a atingir um objetivo.
Pensando sobre isso, me vem à mente a letra de um clássico do baiano Raul Seixas, Ouro de Tolo:
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto “e daí?”
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado.
É essa a reflexão que eu faço, diante de um Ronaldo obeso, que tenta convencer, a si e à torcida, de que ainda sente tesão em entrar em campo, quando por mais de uma vez já desabafou que as dores e o sacrifício para se manter em campo são cada vez mais insuportáveis.
Esse, realmente, conquistou tudo. Enquanto isso, outros, que ainda têm inúmeros desafios à frente para superar, se julgam especiais. Mas, isso também faz parte da magia e do mistério do futebol. Zico não ganhou Copa, Roque Júnior sim.
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