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Em tempos de grandes projetos, anúncios de investimentos, promessas de emprego com a vinda da Copa de 2014, uma nova realidade começa a ser construída e, para tanto, antigas referências e costumes que atravessaram gerações são, pouco a pouco, dizimados diante de olhos perplexos, ou nem tanto.
A mudança que se processa paulatinamente, sobretudo nas estruturas concretas, transforma também o modo de viver do baiano. A demolição da Fonte Nova, é claro, soterrou de vez o xaréu, o mijo pelos corredores, os bondes de torcidas organizadas invadindo território rival. Até mesmo o churrasquinho de gato na porta do estádio foi detonado. É contra a Vigilância Sanitária.
No lugar das manifestações acima, estarão assentos numerados - cada um no seu quadrado -, lanchonetes esterilizadas (será?), sanitários limpos - essa eu vou querer ver. Abertura de portões no segundo tempo? Esqueça. O torcedor da nova arena terá que se acostumar a ver o jogo como quem assiste a um espetáculo - ainda que poucos jogos hoje em dia possam ser classificados assim.
Um avanço de civilidade, não resta dúvida. Mas, do ponto de vista cultural, um atentado à baianidade. E não falo só de Copa. A “pasteurização” dos espaços públicos, em Salvador, está em curso e parece irreversível. As barracas de praia já não existem. Em seus lugares, toldos de lona com cerveja no isopor e baianas de acarajé, nada mais, serão instalados.
O baiano, que ia à praia para “bater o baba” e depois “comer água”, procura agora novo sentido para o lazer à beira-mar. Quero ver como vai ser no Reveillon. As barracas, principal alternativa aos caríssimos hotéis e os megasshows dos clubes, serão substituídas pelo quê? A modernidade, a adequação aos padrões sanitários e tudo o mais que possa justificar essa transformação, alcança ainda outro espaço característico da baianidade: as feiras populares. São Joaquim vai ganhar novos boxes, mais higiênicos.
O Mercado do Peixe, no Rio Vermelho, já mudou, com suas tendas de lona gigantescas. Quemse acostumou a amanhecer por ali, petiscando maravilhas que só parecem possíveis de serem feitas em cozinhas de boteco, festeja a reabertura do lugar.
É certo que higiene, organização e limpeza são necessários, da mesma forma que quemfaz o ambiente desse ou daquele lugar são seus frequentadores, mas é impossível não pensar que, com toda essa padronização, a Bahia perde um pouco da sua espontaneidade e, por que não dizer, da sua identidade.
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