César Romero

Cesar Romero: Alianças e vivências

Atualizado em 10/07/2016 15:46:30

Existem milhões de pintores, escultores, desenhistas, gravadores, performers, fotógrafos e outros afins, todos são artistas? Não. Podem pintar, esculpir, desenhar, gravar, trabalhar com performances, fotografar, mas não atingem  aquilo que caracteriza um artista: ser um inventor de linguagem, converter armadilhas do olhar num produto sensível e novo, iconografias originais, ideário pessoal e intransferível, articular novas equações do ver, criar na lógica e no justificável.

O conceito de artista e  arte tem variado ao longo dos séculos e nas diferentes culturas, um assunto controverso e variável. Marcel Duchamp um gênio da arte, um dos homens mais inteligentes em sua época, num descuido afirmou: “Arte é tudo aquilo que chamo Arte”. Nessa arrogância imprecisa, Duchamp colocou-se acima do bem e do mal e isso repercute até hoje. Os alunos das escolas de Belas Artes do Brasil repetem esse bordão na tentativa de convencer as pessoas, que suas produções são legítimas. Na desinformação total sobre arte, acham que uma frase errática, convence. Muita ingenuidade.

Ter habilidade, reproduzir a natureza não é matéria para um criador.

Rubem Valentim (1922 – 1991) (foto) não tinha habilidade para o desenho, fazia seus trabalhos com régua, compasso, num papel milimetrado para desenhos gráficos, assim essa malha quadriculada lhe facilitava traçar os apontamentos para suas pinturas e esculturas. Valentim trabalhava um lado do papel, dobrava-o no meio, copiava o desenhado e depois passava a equação para a tela e protótipos para escultura. Podem-se ver claramente nos trabalhos de Valentim, que um lado da tela é igual ao outro. Por vezes, o artista modificava alguns vetores e buscava outro sentido e outra direção. Essa dificuldade de Valentim para o desenho linear deu ao artista o caminho geométrico e sua inteligência visual transformou a falta de habilidade em grande poder de invenção.

Foi um dos responsáveis pela mudança do código de arte brasileiro e um dos criadores do construtivismo brasileiro. Por vezes, as habilidades, quando não bem dirigidas, prejudicam mais que ajudam.

O artista em essência é um alquimista que transmuta a matéria e altera a natureza das coisas na busca do essencial, de uma diferente verdade, outras aparências. Tem a si mesmo como referência, atualizando a cada espaço do tempo a sua própria natureza. O talento é inato, pode ser aprimorado nas experiências do fazer, no aculturamento e no jogo do acerto e erro. Todo grande artista tem convicção absoluta de sua linguagem. O tempo em sua eternidade consagra ou desfaz enganos.

Cabe também ao artista reinventar seu próprio caminho e voltar a algumas fases que ache não concluída ou carente de acréscimos. Assim fez Picasso, Matisse, Goya, Braque, Bacon entre tantos. Muitos na história da arte escreveram sobre seu próprio trabalho, justificando ou esclarecendo seu fazer. Michelangelo, Da Vinci, Cèzanne, Picasso, Matisse, Jasper Johns, Velásquez, Dufy, Warhol e muitos outros. Todos defendiam suas produções e eles, como ninguém, compreendiam sua própria obra.

O destino do artista sempre será a ocorrência, e as pontes de acesso entre pessoalidade e pluralismo contemporâneo. Propor enigmas e decifrá-los em minúcias, qualidade da linguagem, ideações transmutadas, nível de conhecimento e inteligência visual são cúmplices do criador.

A criação de um idioleto – linguagem específica de um artista criador – uma digital, requer reflexões, coerência no pensar e fazer, lucidez sem contaminação, paciência, contemplação e análise de comparação, esquema de organização, avaliação das consequências e expansão planejada. Não é fácil criar uma digital, num mundo globalizado, repleto de informações. Mondrian é Mondrian de perto, de longe, onde esteja no mundo.

O trabalho do artista quando finalizado é um elo entre ele e o outro, faz a aliança, um ato ou efeito, um pacto, um ajuste com a comunidade, demarcando possibilidades expressivas.

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