César Romero

Cesar Romero: Nobreza e cor

Faleceu semana passada a artista visual Iedamaria (foto), aos 84 anos, deixando um legado muito especial a arte brasileira. Elegante, austera, levava consigo o orgulho de ser afrodescendente. Era uma discreta militante da causa, especialmente em entrevistas e palestras que fazia. Morreu sozinha no apartamento em que morava na Pituba. Neste outono Iedamaria não mais pintará e ainda nunca mais. Deixa uma marca vinda dos seus gestos e suas cores. É doloroso o irreversível, a ausência eterna e mais a decomposição dos sistemas. Qual o destino da consciência após a morte? A dialética se encerra na morte. Resta sua obra feita de muita sudação, empenho, vontade e persistência. Agora que há um silêncio solene em seu corpo, preservar sua memória é imprescindível, para que não padeça do descaso que tem acontecido com nossos artistas falecidos que deram a nossa terra tão elevada contribuição cultural. Entre eles os modernistas históricos Carlos Bastos e Genaro de Carvalho, Emma Valle, Willes, Cardoso e Silva, Helio Basto, Louco, Carlo Barbosa, Helio Oliveira, Calasans Neto, Agnaldo dos Santos, Mestre Didi, Ivonete Dias, Luiz Jasmim, José Maria de Souza, Pedroso, João Alves, Cincinho, Henrique Oswald, Adan Firnekeis, Hansen Bahia, Udo Knoff e tantos outros.

Iedamaria nasceu em Salvador, em 1932, estudou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Ainda frequentando o curso, obteve menção honrosa no VI Salão Baiano de Belas Artes em 1656. Quatro anos depois realizou sua primeira individual na Biblioteca Pública de Salvador. Seguiu apresentando suas pinturas em várias cidades brasileiras. Inicialmente seus trabalhos revelavam as fachadas do casario colonial de Salvador e as embarcações fundeadas no mar da Bahia com colorido brando e bem ajustado. Trabalhava texturas com grande sabedoria. Iedamaria era filha única, perdeu os pais ainda cedo e tinha poucas lembranças da infância. Em 1962 cursa gravura na Escolinha de Arte do Brasil no Rio de Janeiro fundada pelo artista plástico Augusto Rodrigues, Lucia Valentim, que foi esposa de Rubem Valentim, e a americana Margareth Spencer, em 1948. A Escolinha foi responsável pela formação de diversos artistas brasileiros. Terminou seu aprendizado na Bahia com Henrique Oswald, que, entusiasmado com suas gravuras, envia uma delas para o Festival de Artes de Ouro Preto (MG) onde é premiada. Seguiram-se vários prêmios que a encorajaram a pesquisar profundamente as técnicas de impressão. Iedamaria se firmou na gravura água tinta e água forte - gravuras em metal - insistia em pesquisas, quando à época a maioria dos gravadores baianos se ocupavam da xilogravura.

Sempre se dedicou a Escola de Belas Artes que tinha por ela grande respeito e lhe dava respaldo. Desenvolveu nos anos 50 e 60 vasta produção de paisagens e marinhas, buscando gradualmente a síntese até chegar a sugestões geométricas e cor. A cor sempre foi para ela um elemento essencial. Era sua forma mais imediata de comunicação. Foi aos Estados Unidos para na Universidade de Illinois fazer mestrado, ficando por lá de 1978 a 1980. Aprimorou seu inglês e fez muitas amizades que preservou até sua finitude. Realizou exposições.

Voltou ao Brasil em 1982 e passa a abordar novos temas, em especial as relações interétnicas. Suas últimas produções estavam ligadas a natureza-morta , quando trabalhava mesas de café da manhã, almoço e jantar com refinado bom gosto, dando ênfase aos azuis das porcelanas, contrastando com a variedade dos alimentos postos à disposição de possíveis comensais e flores de matizes plurais. Tudo extremamente bem feito, bem pensado, não improvisava. Era notável sua perspectiva e a disposição dos elementos à mesa. Iedamaria sempre teve zelo pela carreira , tanto como professora de arte , quanto artista visual. Tinha garra, obstinação.

A morte leva a vida. Na vida se faz arte, a morte não leva a arte feita, realizada. Esta permanece.

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