Salvador

Ação de policiais militares leva medo aos moradores do Alto do Coqueirinho

Os moradores compareceram em peso ao enterro dos jovens, mortos numa blitz da PM. Depois, voltaram a protestar e acusar policiais de ações violentas

Atualizado em 06/10/2010 10:40:02

Bruno Menezes, Felipe Campos e Léo Barsan

São 22h no Alto do Coqueirinho e os moradores avisam: é hora de entrar em casa e trancar as portas. Isso porque o terror na comunidade, antes imposto apenas pelas disputas do tráfico, agora também chega  de viatura, denuncia a comunidade. O toque de recolher e a violência que assola a região também era retratado pelas músicas do grupo BKS (Blacks, ou negros, em inglês).


“A comunidade está sofrendo, é muita humilhação. Jovem da periferia é visto como ladrão”. As frases faziam parte de uma das últimas composições de André de Jesus Cardoso, 21 anos, um dos líderes do grupo, morto na madrugada de segunda-feira ao lado do companheiro da banda, Tiago Santos Silva, 20.
Os jovens, segundo a polícia, teriam furado uma blitz e acabaram mortos em confronto.  Parentes e amigos da comunidade, no entanto, negam a versão da polícia e dizem que os jovens foram executados.

A morte da dupla abalou não só o BKS, mas toda a comunidade, que na tarde de segunda-feira protestou contra a violência em frente à sede da 12ª Delegacia de Polícia, em Itapuã. E deu coragem para que moradores denunciassem as agressões sofridas por policiais dentro de casa. Ontem, pelo menos 400 integrantes da comunidade protestaram contra as ações de policiais militares na região.

“Eles entram em sua casa, quebram tudo, mexem nas panelas. Chegam a reclamar até do cheiro da comida. E já avisaram: se virem qualquer um em atitude suspeita, vai pro saco, como eles dizem”, explica uma moradora, que, por medo de represálias, pede para não ser identificada.  

A assistente social Ana Cristine, 40, reforça a tese dos exageros na comunidade nas investidas policiais. “Estamos reprimidos, com medo. Vivemos coagidos há muito tempo. É comum a Rondesp chegar na comunidade e agredir os moradores. Invadem as casas sem perguntar quem é, se as pessoas são de bem”.

O ritmo acelerado de assassinatos na região, segundo o presidente do Conselho Comunitário do Alto do Coqueirinho, Reinaldo Costa, preocupa a todos os moradores. “Em pouco mais de um mês, foram nove mortes.


"Estamos reprimidos, com medo. Vivemos coagidos", disse Ana que trabalha na região

Confiamos no papel das polícias Civil e Militar. Temos muito respeito pelas instituições, mas algum grupo dentro dessas forças está exterminando nossos jovens. Estamos aqui para reivindicar a mudança desse quadro. São mais duas vidas que se vão. Queremos explicações e providências da Secretaria de Segurança Pública para que esses maus policiais sejam apresentados e expulsos. Exigimos justiça”, protesta o líder comunitário.

Os jovens foram enterrados na manhã de ontem, no Cemitério Municipal de Itapuã. Durante a cerimônia, o pai de André, Adilson Sousa Santos, reiterou a suspeita de que os PMs confundiram Tiago com o autor da morte do engenheiro mecânico Heder Rodrigues, 49 anos, assassinado dia 2.

“Eles (os policiais) confundiram Tiago por causa de uma tatuagem no braço. Quando cheguei no Hospital Roberto Santos, fui abordado por um policial. Ele perguntou se Tiago era branco ou preto, porque eles estavam mesmo atrás do mais escuro”, denuncia.

PROTESTO 
Após o enterro, a comunidade fez novo protesto em frente à 12ª Delegacia, em Itapuã. Os moradores bloquearam, por uma hora, a avenida Otávio Mangabeira nos dois sentidos.  Durante o protesto, os manifestantes foram informados de que três moradores foram detidos quando voltavam para casa.

O trio foi revistado e teve seus pertences apreendidos por policiais civis, que seriam lotados na Delegacia de Furtos e Roubos. “Nos pegaram sob a alegação de roubo e levaram  duas correntes e três celulares. Queremos nossos bens de volta. Não sou criminoso”, afirma Marcos Antônio Pereira dos Santos, 27 anos, um dos detidos.

Marcos contou que ficou em poder dos policiais por aproximadamente 20 minutos. Após ser solto, ele seguiu com o presidente do Conselho Comunitário para a delegacia de Itapuã, onde registrou queixa contra a abordagem sofrida e pedindo a devolução dos pertences apreendidos.

O líder comunitário Reginaldo Costa garantiu que enviará hoje um ofício à Secretaria de Segurança Pública e ao Ministério Público exigindo proteção da vida, a devolução das correntes e dos telefones, além de pedir ao secretário César Nunes mais rigor nas apurações das ações da polícia na comunidade.

Jovens tinham grupo de rap
Um sonho de ser reconhecido pela música e pela dança. Inspirado nas batidas e nos movimentos de gueto, esse jovens da periferia baiana encontraram no gênero americano do hip hop um meio de traduzir em letras e no comportamento a realidade de sua comunidade.

Crescendo em meio à violência e ao tráfico de drogas  do Alto do Coqueirinho, o grupo de jovens entre 10 e 21 anos resolveu se juntar para formar uma equipe que cantava rap e dançava em apresentações. O BKS, diminutivo de “Blacks” - negros em inglês - surgiu da ideia de André Cardoso, um dos integrantes mortos pela polícia na madrugada de anteontem .

Determinado em ser um cantor de sucesso, André foi reunindo amigos interessados na música e na dança, como Tiago Santos, dançarino do grupo também morto no mesmo dia. Com certa popularidade local, o grupo se apresentava em casas de show e já tinha até um fã-clube.

Existem diversas comunidades de orkut referentes ao grupo e aos integrantes. Eles ainda têm uma página no Myspace onde contam um pouco da história do conjunto.

Segundo a página, André era um rapaz que passou por muitas dificuldades, chegando ao ponto de desistir do grupo. “Mas ele realmente tem um sonho e já estava muito apegado ao seu trabalho, então enfrentou muitas pessoas que só o criticavam, como sua mãe que dizia que não ia levar a nada”, contava na internet.

Já Tiago, conhecido no grupo como 1000º Grau (sic), já foi lutador de boxe e era dono de uma barbearia no local. Ele se interessou pelo grupo e inclusive entrou em aulas de dança para aprimorar seus passos.

O BKS estava atualmente concorrendo a um concurso de bandas de hip-hop, e sonhava em participar do programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo. Até um clipe foi feito, com a música Juliana, onde, assim como os astros do rap americano, eles ostentavam carros, correntes de prata e mulheres.
Os integrantes remanescentes ainda não decidiram se vão seguir em frente após a perda dos dois integrantes.

“Estamos todos chocados e sem entender porque fariam isso com eles. Vão fazer falta e deixar muita saudade. Só não podemos deixar o sonho morrer”, garante um dos dançarinos do grupo.

Esposa de Tiago, grávida de três meses, também não sabe que rumo dará à própria vida. “Ele morreu quando completamos quatro anos juntos e 15 dias casados. E agora quando meu filho nascer? Ele vai perguntar quem é o pai e eu vou ter que responder: a polícia o matou. É mais um que vai crescer revoltado”.

PM: apuração será concluída em 40 dias
A PM informou que, em 40 dias, o inquérito policial militar deve estar concluído. Procurado pelo CORREIO, o secretário de Segurança Pública, César Nunes, afirmou que o caso está sendo apurado como qualquer outra denúncia. Mesmo com a repercussão e o protesto dos moradores fechando uma via importantíssima da cidade, o secretário garante que não há motivos para medidas extraordinárias.

“Temos as duas versões. Não adianta especulação agora. Para aqueles que presenciaram, por favor, que entrem em contato. A perícia também será feita e, com certeza, se for comprovado o excesso de força, vamos agir”, garante Nunes.

Moradores temem ‘lista da morte’
Além de André e Tiago, de acordo com Costa, fazem parte da lista dos moradores mortos na comunidade Ivan, Alexandre, Marcone, Douglas, Tiago, Flávio de Jesus e Jeferson Luís Teixeira Santos.


Na comunidade, os moradores também contam que, na ações da polícia, os PMs teriam informado sobre a existência de uma lista com pelo menos 30 nomes de pessoas que estariam marcadas para morrer.

“Eles mesmos (os policiais) já falaram dessa lista de morte. Ainda disseram: avisem às mães que os filhos delas não voltam mais para casa. A ordem agora é  ‘se correr, vai pro saco’. A gente fecha as portas de casa mais cedo por medo da polícia e não de ladrões”, garante um morador que não quis se identificar, temendo represálias.

“Os policiais passam na comunidade e tiram fotos nossas. Para quê? Só pode ser para nos acusar de algo ou nos matar logo”, denuncia um jovem.

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