Salvador

Famílias alegam inocência de mortos no Cabula: "eles protegiam a gente. Temos medo é da polícia"

Operação da PM aconteceu em Cosme de Farias um dia após 12 serem mortos no Cabula

Clarissa Pacheco e Laura Fernandes (mais@correio24horas.com.br)
Atualizado em 08/02/2015 10:54:37

Famílias uniram-se pela dor no Cemitério Quinta dos Lázaros, a partir das 14h30 do sábado (7), quando foram enterradas seis das 12 vítimas da operação policial comandada pela Rondesp no Cabula, na madrugada de sexta-feira. Dezenas de amigos, vizinhos e parentes estiveram presentes no sepultamento de Natanael de Jesus Costa, 17 anos, Vitor Nascimento, 20, Everson Pereira dos Santos, 26, Caíque Basto dos Santos, 16, Jeferson Rangel e Agenor Vitalino, 19.

Familiares das vítimas disseram que foram ameaçadas no bairro por policiais - que apontaram armas para os ônibus que saíram do fim de linha da Engomadeira para o enterro - e garantiram que havia policiais à paisana no cemitério.

“Eles estão botando medo, enfrentando a gente com armas. Os meninos protegiam a gente. A gente tem medo é da polícia”, disse uma mulher que mora no bairro há 59 anos, pedindo anonimato. “É uma injustiça. Eles têm que pagar. É tudo mentira o que estão dizendo”, bradou uma tia de Natanael que não quis se identificar, ao defender que o confronto alegado pela polícia não existiu.

“Todo mundo gostava do meu filho... Ele era inocente! Agora vou criar os dois irmãos sozinha e trabalhar sozinha, porque era ele quem me ajudava”, lamentava, aos berros, a costureira Marina Lima de Oliveira, 56 anos. Avó de Natanael, ela o criou como filho junto com os dois irmãos.

Seis das 12 pessoas que morreram na ação da Rondesp foram enterradas na tarde de ontem no cemitério das Quintas dos Lázaros, em Salvador (Foto: Marina Silva)

Ela contou que o garoto  ajudava na entrega das costuras, defendeu que era um menino estudioso e que sonhava em ser jogador de futebol, tendo feito até um teste na Espanha para entrar no Barcelona. Um vizinho de Everson reforçou a versão defendida com unanimidade entre os presentes no cemitério de que “não houve troca de tiro”.

“Foi uma execução. Eles se renderam e foram mortos sem defesa. Como foi troca de tiro se os meninos tinham marcas de tortura? Braços quebrados, olhos afundados e tiro na nuca?”, disse.

“Nós só queríamos que a polícia fizesse o papel dela. São despreparados. Nossa comunidade tem pessoas trabalhadoras”, clamou uma tia de Vitor. Em nota, a PM informou que o caso será alvo de uma apuração. “Até o momento, não há indícios de irregularidade cometida pelos policiais militares”, disse a PM, reafirmando que policiais  foram  recebidos a tiros no local. 

Duas novas mortes após confronto com Rondesp no Cosme de Farias
Um dia depois que 12 homens morreram em ação da Rondesp Central, da Polícia Militar, no Cabula, outras duas pessoas foram mortas e uma terceira ficou ferida na noite da última sexta-feira em confronto com policiais da Rondesp Atlântico, na localidade do Barral, no bairro de Cosme de Farias, em Salvador.

De acordo com a Polícia Militar, os policiais da Rondesp faziam rondas de rotina na rua Wenceslau Galo, quando foram recebidos a tiros por Rafael de Oliveira Cerqueira, de 19 anos, Alexsandro Pinheiro dos Santos Lima, 20, e Denilson Campos dos Santos, 22.

“Os policiais revidaram atingindo os três elementos que foram socorridos para o HGE (Hospital Geral do Estado)”, diz a PM, em nota. De acordo com informações do posto da Polícia Civil do HGE, onde o caso foi registrado, Rafael – alvejado no tórax, barriga e membros inferiores – já chegou à unidade sem vida, por volta das 21h de sexta-feira.

Denilson foi baleado no tórax, membros inferiores e abdômen, passou por cirurgia, mas morreu no sábado (7), às 9h15. Apenas Alexsandro estava vivo, mas o estado de saúde era   considerado grave. Ele foi atingido no braço esquerdo, no tórax e na barriga.

Drogas  

Segundo a polícia, os três são traficantes. Com eles, foram encontrados um rádio amador, 32 papelotes de cocaína, 21 balas de maconha, além de três revólveres calibre 38, um deles com numeração raspada.

As armas foram encaminhas ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso junto com a Corregedoria da PM.  Segundo o boletim de ocorrência, todas as armas tinham tiros deflagrados. Ontem, o policiamento  foi reforçado nas imediações de Cosme de Farias. Quatro viaturas ficaram paradas na altura do Largo dos Paranhos, em Brotas – da 26ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Brotas) e 58ª CIPM (Vila Laura/Cosme de Farias) além de unidades da Rondesp.

DHPP busca testemunhas de confronto no Cabula

O diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado Jorge Figueiredo, que investiga as mortes ocorridas no Cabula, informou que pretende concluir o  inquérito sobre o caso em até 30 dias, sendo que esse prazo pode ser prorrogado.

“A partir de segunda-feira vamos ouvir  policiais que participaram do suporte na operação. Estamos também tentando localizar pessoas que tenham presenciado a ação”, disse. Ele  informou que parte dos mortos tem histórico criminal.

Um total de  24 armas foi encaminhado para perícia: 9 usadas pelos policiais (metralhadoras e pistolas) além de outras 16 que foram apreendidas no local (12 revólveres calibre 38, uma pistola ponto 40, uma pistola ponto 45 e uma espingarda).

Ontem, a Justiça converteu de prisão em flagrante para preventiva as custódias de  Arão de Paula Santos, Elenilson Santana da Conceição e Luan Lucas Ferreira de Oliveira, que foram detidos na ação da PM. 

Polícia reforça monitoramento na região da Vila Moisés, no Cabula

No dia seguinte à operação policial na localidade de Vila Moisés, no Cabula, que terminou com 12 mortos e quatro feridos, entre eles um sargento da Polícia Militar, Dick Rocha de Jesus, o bairro amanheceu ontem com policiamento reforçado.

Viaturas da polícia militar fizeram comboios de patrulhamento na manhã de ontem na região da Vila Moisés
(Foto: Arisson Marinho)

Em meio ao tráfego intenso de viaturas das operações Gêmeos, Apolo e da própria Rondesp, o comércio abriu normalmente e a população foi à rua.  Somente na Estrada das Barreiras, próximo ao local onde as pessoas foram mortas em uma suposta troca de tiros com policiais, viaturas da Operação Apolo, da Polícia Militar, andavam em comboio – seis veículos juntos.

Mais à frente, na Rua Direta da Engomadeira,  oito viaturas paradas estavam no local pela manhã. Do lado de fora, pelo menos 20 policiais fortemente armados mantinham os olhos atentos à movimentação.

Morador do Cabula e dono de uma loja na Estrada das Barreiras, nas imediações de onde o grupo foi morto, um comerciante, que não quis se identificar, disse que o clima na região ontem era tranquilo, se comparado à véspera.

“Ontem (sexta) eu fechei  o meu comércio mais cedo, 12h30. O normal é fechar 18h ou  18h30. Foi mais por precaução, porque o pessoal estava bem apreensivo, o clima estava bem tenso. Mas hoje (ontem) está melhor, espero que continue assim”.

Outra comerciante contou que notou uma presença mais forte da polícia, mais do que acontece normalmente. “Por enquanto, está tranquilo, tem bastante policiamento. Ontem (sexta), quando soube, eu nem abri a loja”, contou a dona de outro estabelecimento.

Apesar de expressar o clima de tranquilidade, ela também preferiu falar sob anonimato. O mesmo foi dito por uma moradora da região, que aproveitou para fazer compras.

De acordo com o major José Luís Santos, comandante da 48ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/ Sussuarana), responsável pelo policiamento na região, o reforço na segurança será por tempo indeterminado. “Começou, na verdade, ontem (sexta-feira) à noite. Hoje, está sendo reforçado em função de algumas  informações que recebemos, mas vai continuar por tempo indeterminado”.

O major  não informou quantos policiais fazem parte do reforço na área, por questões estratégicas. Mas houve reforço de guarnições do Batalhão de Choque, operações Apolo e Gêmeos, Rondesp e 23ª CIPM/Tancredo Neves.

Identificado corpo de mais um dos mortos em confronto

O Instituto de Identificação Pedro Mello, do Departamento de Polícia Técnica da Bahia (DPT), conseguiu identificar os corpos de sete   pessoas que morreram na operação policial comandada pela Rondesp, na madrugada de sexta-feira, no Cabula.

A ação deixou 12 mortos, todos suspeitos de integrar um grupo que planejava estourar um caixa eletrônico na região. Ontem, o sétimo corpo identificado foi o de  João Luiz Pereira Rodrigues, de 21 anos.

De acordo com o major José Luís Santos, comandante da 48ª Companhia Independente da PM (CIPM/ Sussuarana), no local onde os homens foram mortos pela polícia,  não  houve informações de  novas ocorrências, nem de represálias, até a tarde de ontem.

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