Salvador

Filho de policial civil é suspeito de morte de Kelly Cyclone

Vítima da personagem que criou, jovem foi morta a tiros em Lauro de Freitas

Atualizado em 19/07/2011 09:06:00

Bruno Villa, Anderson Sotero
e Adriana Planzo | CORREIO
mais@correio24horas.com.br

Aos 8 anos, Kelly Sales Silva era uma menina escabreada, dessas que não gostam de sair de casa e preferem passar o dia com as  bonecas. Aos 20 anos, rebatizada Kelly Cyclone, aparece em seu perfil no orkut empunhando pistolas. No início da adolescência, era tão acanhada que parentes a chamavam de bicho do mato. Aos 21, é conduzida à delegacia por participar de uma festa regada a cocaína na Boca do Rio.

Se para familiares a tímida Kelly Silva só existia na memória, ontem foi o dia deles se despedirem de Kelly Cyclone, famosa pelos namoros com traficantes e participação em festas de pagode.

A mesma tragédia que marcou sua vida, lhe deu fama e fascinou  jovens admiradores. Na madrugada de ontem, Kelly foi vítima da personagem que criou, morta a tiros e facada em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, após sair da festa de pagode Salvador Fest.

Seu corpo foi encontrado no centro da cidade, com um short e uma camisa da Seleção Argentina, sua preferida. “Ela colecionava camisas de futebol. Admirava a raça dos argentinos”, contou o  pai, o comerciante Antônio Silva, 55 anos.

Infância
Kelly passou a infância do bairro de Itinga, em Lauro de Freitas. Se na rua soltava poucas palavras e tinha dificuldade de se relacionar com outras pessoas, dentro de casa se sentia mais segura e era a palhaça da família.

“Até completar 13 anos, ela era um bicho do mato, tinha vergonha das pessoas. Mas dentro de casa sempre foi palhaça. Gostava de chamar o nome da gente arrotando”, lembrou Rosiele Sales Silva, irmã da vítima.


Da expressão inocente na adolescência até a fase desinibida do corpão tatuado, Kelly Doçura namorou com traficantes, virou referência para jovens da periferia, atração em show de pagode e figura conhecida da polícia - terminou sendo executada com dois tiros pelas costas

Kelly vivia uma infância comum. Morava com os pais, casados há 30 anos, e frequentava escolas particulares em Lauro de Freitas - a Sonho do Vovô, Sesi e Nossa Senhora de Fátima. “Ela sempre estudou. Era uma boa menina”, contou Antônio. 

Metamorfose
Quando o assunto é qual acontecimento na vida da menina a levou a se envolver com traficantes, familiares discordam. Para Rosiele, o principal motivo foi a separação de Antônio e da mãe, a comerciante Maria Aparecida Silva, há sete anos. “Depois que nossos pais se separaram, a vida da gente virou de cabeça para baixo. A gente ficou revoltada”, disse.

Para outra irmã, Carla Sales Silva, 25, o motivo foi o suicídio do seu primeiro namorado, Anderson, à época com 17 anos, de quem estava grávida. A morte do primeiro amor e a separação dos pais aconteceram na mesma época. “Kelly estava com 16 anos e seis meses de gravidez e só falava em se matar”. A família chegou a encontrar veneno de rato no quarto. À época, ela morava com a irmã e o cunhado no Engenho Velho de Brotas.

O trauma fazia com que Kelly tivesse visões de que estava jogando o filho, hoje com 5 anos, pela janela.  A adolescente reservada passou a frequentar festas e a sair bastante. Nesta época, ganhou seu primeiro apelido - Kelly Doçura.

Em entrevista ao CORREIO em 25 de fevereiro do ano passado, após ser detida e liberada por participar de uma festa regada a cocaína na Boca do Rio, ela explicou a origem do apelido. “Eu namorava com Bombado Doçura, percussionista do Saiddy Bamba”. Depois o músico criou a banda O Báck, que compôs a canção Lobo Mau.



Bandidos ligados ao traficante Mão, outro suspeito, trocaram tiros com polícia

Cyclone
Com o fim do namoro, Kelly, já conhecida como Kelly Cyclone, por só usar roupas da marca, começou a se envolver com traficantes e a registrar em seu corpo, com 20 tatuagens,  a história de sua vida. No punho direito, ela tatuou o nome de Sidnei Ferreira, traficante do Garcia morto há quatro anos. As armas que apareceu segurando no orkut eram do namorado.

Em entrevista ao CORREIO, ela falou sobre o namoro e negou ser uma das chefes do tráfico . “Sidnei foi o amor da minha vida. Nunca me meti nas coisas dele”. No cocuruto, ela levava o nome de outro amor, o assaltante Hugo, morto em uma briga. No quadril, tatuou um resumo do que foi sua trajetória. Escreveu: “Vida Loka”.

Kelly morava em Vila de Abrantes, na casa dada pelopai. “Todo mês  mandava R$ 300 para ela”, diz Antônio.  O pai sabia que Kelly, que seria candidata a vereadora de Salvador ano que vem, se envolvia com criminosos. “Falava para ela sair dessa. Mas era metida a maluquinha, me chamava de careta”. 

Filho de policial civil é suspeito de morte
Existem duas versões para a morte de Kelly. Na primeira, contada pela família, o motivo é passional. A jovem teria sido assassinada por um rapaz de prenome Gustavo, que a ameaçou por ela ter recusado seu pedido de namoro. O rapaz é filho de um policial civil conhecido como Braga, que mora em Lauro de Freitas.

Já moradores do centro do município apontam como algoz Wellington Nunes, o Mão, traficante da localidade de Casinhas, no final de linha. O crime estaria relacionado com a disputa do tráfico - Kelly foi ex-namorada do traficante Toni Rogério, o Tonny, que, mesmo preso na 23ª Delegacia, em Lauro, continua no controle das bocas da Rua 4, na comunidade de Vila Praiana.

Kelly foi assassinada na Rua Roneialdo de Brito, no centro de Lauro de Freitas, com camisa da seleção argentina que costumava usar. O local estava bastante movimentado por causa dos bares. Testemunhas contaram que, por volta de 1h, um carro de cor escura parou próximo ao prédio da Previdência Social. Instantes depois, Kelly desceu correndo e sangrando na região abdominal - posteriormente foi constatado pela perícia uma lesão provocada por facada.

Em seguida, um homem disparou duas vezes de dentro do veículo, atingindo Kelly nas costas, que ainda cambaleia por dois metros antes de morrer em praça pública.

A última vez que Kelly  foi vista com vida por familiares foi na edição de domingo do Salvador Fest, no Parque de Exposições. Acompanhada pela irmã e três amigas, Kelly chegou na apresentação da banda Pixote. Ela se sentiu mal e queria ir embora, mas a irmã pediu para que ficasse. “Parecia até que ela estava sentido que algo de ruim ia acontecer”, contou. Kelly cedeu aos apelos e, durante o show de A Bronkka, ela foi carregada nos ombros de um amigo.

Segundo familiares, no final do evento, Kelly recebeu uma ligação de Gustavo, que a aguardava na entrada do Parque de Exposições. A irmã chegou a pedir para Kelly não ir, mas a jovem disse que logo retornava. Horas depois, parentes e amigos receberam a notícia de que Kelly estava morta no centro de Lauro de Freitas.

RIXA
A segunda versão liga o crime à briga por controle do tráfico de drogas. Moradores do centro de Lauro apontam o traficante Mão como um dos envolvidos na execução. Kelly Cyclone teria sido morta porque foi ex de  Tonni, rival de Mão. No entanto, a delegada Cristiane Santos de Oliveira, da 23ª Delegacia, que presidiu o levantamento cadavérico, descarta essa possibilidade.

De acordo com ela, Mão e três comparsas assaltaram um posto de combustível na estrada do Coco e, durante fuga num Fox vermelho, trocaram tiros com a Polícia Militar, por volta das 3h.

Segundo a delegada, o assalto ao posto aconteceu por volta das 19h. Os bandidos levaram mais de R$ 600 em dinheiro, além de uísque e a chave de um Honda Civic de uma mulher que calibrava o pneu no posto.

Um policial militar que estava no Hospital Menandro de Farias estranhou a movimentação no posto e acionou uma guarnição do Serviço de Inteligência da Polícia Militar que passou a seguir o veículo e montar campana.

Os bandidos perceberam a presença dos policiais na Rua 2, em Vila Praiana, e fugiram. Abandonaram o veículo e continuaram a fuga a pé. No confronto, logo depois, a polícia prendeu Cláudio Gama dos Santos e uma adolescente de 17 anos. No Fox foram encontrados 70 dolões de maconha, certa quantidade de cocaína e crack, além de relógios, celulares roubados, além de uma máquina de cartão de crédito. (Por Bruno Wendel e Adriana Planzo)

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