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Fotógrafo baiano revela cultura de tribos do Quênia

O baiano Robério Braga registrou aspectos culturais das tribos quenianas Maasai, Pokot e Samburu, a partir de seus adornos

Camila Jasmin (camila.jasmin@redebahia.com.br)
Atualizado em 12/02/2014 15:47:57

  • (Robério Braga/Divulgação )
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Fotografia, em seu sentido lato, é a arte de escrever com luz. E a luz, inevitavelmente, cria sombra. O jogo entre claro e escuro, portanto, é intrínseco à foto. Mas poucos exploram tão bem essa máxima quanto o baiano Robério Braga, 42 anos, que faz em Salvador a estreia nacional da exposição Luz Negra, amanhã, no Museu Carlos Costa Pinto, na Vitória. A mostra segue em cartaz até 30 de março.

A mostra reúne 20 fotografias em preto e branco, realizadas durante viagens de Robério ao Quênia, nos anos  2011 e 2012, e revelam aspectos culturais de três tribos: Maasai, Pokot e Samburu. “Eu estava inquieto, procurando um assunto diferente, uma imagem que impactasse. E, quando fui ao Quênia, descobri essas tribos, com esses adornos que chamam a atenção, com formas e texturas diferentes do que a gente está acostumado no dia a dia da Bahia, porque é uma África oriental, muito mais influenciada pelo mundo árabe e pela Índia”, pontua. 

Foi justamente o encanto provocado por essas tribos e seus adornos que o inspirou a arriscar experimentações artísticas. “Esse mundo imagético novo me fez buscar um olhar diferente também na fotografia, e comecei a testar uma subexposição luminosa: você capta menos luz do que precisaria. É quase como se fosse um defeito, mas um defeito proposital”.

Silhuetas
Robério explica que a baixa incidência de luz gera esse efeito de silhueta nos corpos negros. Já os adornos, originalmente em cores vibrantes, justamente por isso se sobressaem naturalmente.

À primeira vista, o efeito dá a impressão de que as fotos foram modificadas digitalmente, em algum programa de edição de imagem – suspeita imediatamente refutada pelo artista.

Ou podem confundir-se com um quadro – o que, para Robério, é um elogio e tanto. “Na verdade, eu queria ser pintor. Sempre tento fazer com que as minhas fotos tenham uma carga de contraste e de luz, com uma imagética diferente e forte. Justamente porque encaro todas como se fossem um quadro” afirma ele, que é neto do pintor expressionista Mendonça Filho (1895-1964). “É como se eu pintasse com a luz”, brinca.

Para o curador da mostra, Diógenes Moura, renomado escritor e fotógrafo pernambucano, existe mesmo uma referência à pintura, de certa forma, uma vez que as fotos ultrapassam o documental e flertam abertamente com a arte. “Esse jogo de claro e escuro dá uma sofisticação e o resultado final é muito instigante. Não apenas pela beleza de cada imagem, mas, sobretudo, pela representação, o significado, e por se tratar de uma protocélula da nossa ancestralidade e raízes”, observa ele, que esteve à frente da Curadoria de Fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo por 15 anos.

E é o domínio do artista no controle da luz que possibilita uma maior interação do público com sua obra. “A fotografia em preto e branco, imediatamente, leva o pensamento para a descoberta de que cor tem ali dentro. E há um silêncio muito grande; você olha, respira e pode ficar diante daquelas imagens, tentando entender e localizar uma ideia não apenas fotográfica, mas que ligue toda uma linha do tempo ancestral”, defende Moura.

O argumento é partilhado pelo próprio Robério, que propõe esse momento contemplativo para tornar o público também protagonista. “Você tem lacunas ali; o escuro é muito presente, isso ajuda a criar um mistério, o não revelar totalmente, e deixa espaço para que o espectador crie a sua própria história. Então, dá vazão à imaginação. Eu conto um pedaço e você conta outro”.

Adornos
O fotógrafo deixou de lado o indivíduo. “As fotos revelam um povo, uma cultura. Então, permitem imaginar um mundo inteiro”. Com o olhar livre, Robério focou nos adornos; eles, sim, um mundo rico em significados e códigos passados de geração em geração, que identificam quem é quem em cada tribo – se se trata de um guerreiro, por exemplo, ou de uma mulher casada.

A prática é intrínseca a essas tribos, onde os adornos são mais que enfeites para festas e rituais. Eles são usados no dia a dia como  elementos de significação social. “Os adornos são o âmago da cultura, mas eles tiveram que ser adaptados ao longo dos anos”, afirma  Robério, exemplificando que algumas plantas e sementes já não existem mais, assim como certas práticas foram proibidas, como caçar animais selvagens.

“Muda-se o significante, que são os materiais, mas não o significado. Os adornos continuam importantíssimos nessa questão da localização do indivíduo na sociedade”, explica Robério. “Tudo isso se preserva, mas se adaptando. Talvez, se eles não tivessem maleabilidade, teriam perdido muito dos traços de sua cultura”, completa.

Bastidores
Parte das fotos já veio a público numa exposição prévia em 2012, no Rio de Janeiro, na Galeria 18. Mas a mostra completa, com as 20 imagens em formato grande, variando entre 1,5m x 1m e 1m x 1m, serão exibidas pela primeira vez. E com direito a muitos extras.

O acervo traz fotos antigas, de domínio público, das tribos no final do século 19 e início do 20. E uma série, em formato polaroide, com o making of das fotos tiradas por Robério, todas coloridas. “Elas compõem para o melhor entendimento da exposição”, explica o curador. “A montagem tem também esse olhar de tentar transpor a pessoa para esse outro mundo”, completa o artista.

Em sintonia com a proposta, a exposição conta com cânticos tribais originais, gravados pelo próprio Robério Braga, com alguns dos personagens retratados. E ainda apresenta alguns dos seus adornos e objetos. 

“A exposição tem uma linha, e fiquei muito feliz de ter mantido isso. Cada foto tem uma particularidade, mas todas elas pertencem a um mesmo olhar; o meu olhar”, endossa ele, que também é diretor de fotografia, trabalha com cinema e tem passagens por grandes agências de publicidade.

Após Salvador, Luz Negra desembarca no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, em maio. Depois, viaja para Portugal, em setembro e outubro, onde ganha exposição na Fundação D. Luis I, no Centro Cultural de Cascais.

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