Variedades

Repórter da TV Bahia, Wanda é uma amazonense que ama Salvador

Acostumada ao universo da axé music e membro do Movimento Negro Unificado, ela leva a postura alerta para o Rede Bahia Revista

Atualizado em 30/12/2012 12:37:21

Claudia Pedreira
claudia.pedreira@redebahia.com.br

Amazonense do tipo que torce pelo Boi Caprichoso e se delicia com tacacá, com o tempo a jornalista Wanda Chase, 62 anos, foi se transformando em um símbolo de baianidade. Algo natural, já que o público se acostumou a vê-la na telinha da TV Bahia, fazendo reportagens, comentando novidades da axé music no programa Rede Bahia Revista e apresentando flashes do Carnaval.  

Íntima da cultura local e orgulhosa da cor da pele, a repórter conquistou a cidadania do maior centro urbano da diáspora africana, recebendo título na Câmara Municipal de Salvador, em 2002.

Daqui a um mês, a jornalista completa 24 anos de morada na terrinha. “Eu já gostava da Bahia de longe, quando escutava a música Dora, de Dorival Caymmi, pois Dora é o nome da minha mãe”, narra ela, que também imaginava como seria bom passar uma tarde em Itapuã, como sugeria a canção de Vinicius de Moraes.

Além das histórias de Jorge Amado, que encantavam Wanda, a afinidade dela com Salvador se estreitou depois de uma visita à capital baiana, em plena folia de Momo - com o aviso de que era da igreja batista e, por isso, não iria pular o Carnaval. Na Ladeira de São Bento, recebeu um apito de um índio do Apaches do Tororó. Aí Wanda, que já era ligada à cultura soteropolitana, se rendeu à simpatia local.


Formatura em Comunicação Social ao lado dos pais, a dona de casa Dora e o mecânico Cipriano; Wanda Chase recebe o título de soteropolitana
na Câmara Municipal de Salvador, em 2002


Conselhos
Depois de trabalhar na TV Cultura do Amazonas, no jornal A Cidade e na rádio Jornal, em Recife, e  na TV Paraíba, Wanda foi indicada para ingressar na Rede Bahia. O então diretor de jornalismo Carlos Libório topou trazer a moça.  Na Globo Nordeste ela já tinha se aproximado de Neguinho do Samba, criador do samba-reggae, e de João Jorge, diretor do bloco Olodum, do qual ela seria depois assessora e conselheira.

Quando fez a mudança para Salvador, Wanda foi se aproximando mais da cultura baiana, frequentando shows e festivais, andando atrás de eventos do Badauê. Era repórter de polícia, mas vivia sugerindo pautas musicais, até  se especializar no gênero axé.

“Quando divulgo um artista, gosto de conhecer os pais dele, acabo me agregando”, fala, citando como exemplo a amizade com a família de Compadre Washington e com a mãe de Carlinhos Brown.

O seu envolvimento vai além. Dá uma de conselheira quando entrevista artistas e nota que as letras das músicas deles são politicamente incorretas: “Quando o programa termina, converso com eles. Falo com os compositores, pergunto como é que podem escrever aquelas coisas, questiono: ‘Você não tem mãe, não tem irmã? Pensou no que escreveu?’. A música é um elemento de transformação. A gente deve ser responsável”.

Raízes

Wanda nasceu em Manaus, no dia 19 de novembro, em um bairro chamado Praça 14. “A Praça 14 significa para Manaus o que a Liberdade significa para Salvador”, diz, para explicar que ali pulsa a maior concentração negra da cidade, numa junção de descendentes de maranhenses e de povos vindos de Barbados, país na porção oriental das Caraíbas (Caribe), colonizado por ingleses.

Veio de lá o sobrenome Chase de Wanda - na verdade, do seu avô Charles Chase. “Ele era um negro elegante, que dizia para mim e meus três irmãos: ‘Vocês são negros, têm que estudar mais’”, conta. Eles estudavam em uma rigorosa escola batista americana, para onde a pequena Wanda seguia com os cabelos esticados por vaselina em um coque apertado, de onde não escapulia nem um fiozinho de cabelo.

Vovô Charles reunia os netinhos a cada vez que encontrava um texto, um livro, uma notícia sobre a luta pela igualdade racial. Os garotos adoravam saber sobre personagens inspiradores e passaram a chamar os cachorros da casa com nomes como o do ator Sidney Poitier e o do boxeador Muhammad Ali. Sobre o desportista, Wanda recorda-se que, ainda menina, leu uma entrevista exemplar em uma revista, na qual o campeão dizia que era bonito e poderoso, exatamente por ser negro.

Depois que se formou na Faculdade de Comunicação Social, em 1974, e saiu de Manaus “independentíssima”, para trabalhar como jornalista no Nordeste, Wanda assumiu o cabelo black power. Ingressou no Movimento Negro Unificado, tornando-se uma líder.

Hoje, no apartamento onde mora há dois meses, na Federação, pertinho da Rede Bahia, a admiração  por símbolos da negritude transparece em detalhes da decoração, como um pôster em preto e branco, que estampa as figuras de Malcom X e  Marthin Luther King, e esculturas de Angola, onde fez duas reportagens.   

Wanda cita Preconceito de Cor e a Mulher Mulata na Literatura Brasileira, de Teófilo de Queiroz Júnior, como um de seus livros preferidos. Diz que não fica omissa se testemunha algum ato que vá contra a igualdade entre seus irmãos.
“É difícil encontrar neguinho que nunca sofreu preconceito. Por isso, não digo que sou afrodescendente, assumo logo que sou negra”, milita.

A jornalista, que no cotidiano trabalha com Bambam, cinegrafista, e Paulino, auxiliar, guarda no seu quarto uma quantidade impressionante de troféus. Entre eles, aponta, com orgulho, o Maria Felipa 2009, da Comissão de Defesa dos Direitos de Mulher.

Apaixonada
Solteira, mas do tipo que  diz amar se apaixonar, Wanda conheceu o grande amor da sua  vida há 30 anos. Com ele não teve filhos, mas revela que se realiza totalmente como tia de Tito, o publicitário Carlito, filho da irmã Telma.  Ela fala com carinho e respeito de “mamãe”, “papai”, “vovó” e “vovô”, e não abre mão daquele “tu”, pronome pessoal na segunda pessoa, restinho do sotaque que guarda do Amazonas. Também não abre mão das lembranças de brincadeiras no quintal da casa com pé de tucumã e cupuaçu, e das travessias por igarapés.

Hoje, provavelmente, Wanda está curtindo uma semana de recesso do trabalho, com a família de Manaus. “Sempre que posso, viajo pra lá. Nas férias, me jogo nos dois jardins de mamãe”, diz, saudosa de Dora, que morreu há quatro anos. Cipriano, o pai mecânico que comprou a borracharia onde trabalhava, morreu há 16 anos. “Nós vamos nos encontrar na glória”, crê.
Mas ir à capital amazonense também significa a possibilidade de se orgulhar das impressionantes construções desenvolvidas por ancestrais barbadianos, como o Teatro Amazonas e a alfândega.

Fé e balangandãs
A igreja batista é um pilar de nascença de Wanda Chase. Por meio de sua religião, ela aprendeu o valor de  ajudar os carentes, trabalhando em mutirão, carregando tijolo em obras, indo a presídios. “Não fumo, não bebo, não sou da noite, só vou a trabalho. Não sou de festa de largo”, fala.

Mesmo sendo soteropolitana de coração, Wanda segue chamando muriçoca de carapanã e dizendo que alguém retado é passado na casca do alho. Mas torce pelo time do Bahia e, vaidosa, adora muitas pulseiras e brincos, feito uma baiana legítima: “Gosto de balangandãs”.

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