Salvador

Baleia Azul: temor chega aos pais e às escolas baianas

Corpo de estudante desaparecida desde a segunda-feira (17) em Juazeiro foi encontrado no Rio São Francisco

Amanda Palma, Saulo Miguez e Vinicius Gericó* (redacao@correio24horas.com.br)
Atualizado em 21/04/2017 07:08:42

São quase dois meses cumprindo tarefas, quase sempre escondidas dos pais, e que podem resultar em morte. O assunto suicídio veio à tona recentemente por dois motivos: o ‘jogo’ mortal russo Baleia Azul, que estabelece desafios, cujo resultado é pôr  fim à própria vida, e a série  13 Reasons Why (Os 13 Porquês), da Netflix, que trata de bullying e suicídio. No Brasil, mais de 10 casos de tentativas de suicídio entre adolescentes já estão em investigação e o temor chegou aos pais e às escolas. 

Um dos casos mais recentes aconteceu na Bahia. No início da tarde de ontem, o corpo da adolescente Ana Vitória Sena de Oliveira, 16 anos, foi encontrado no Rio São Francisco, na cidade de Petrolina (PE). Segundo a polícia, há a suspeita de que Ana Vitória, que morava em Juazeiro, no norte baiano, e estava desaparecida desde a última segunda-feira (17), tenha cometido suicídio.

Segundo a polícia, não há sinais aparentes de violência. A garota deixou uma carta de despedida aos pais e ao namorado, em que diz “neste momento estou pulando da ponte”. No celular dela, os familiares encontraram o ‘jogo’. Outra adolescente, de 17 anos, fez uma inscrição no pulso com a palavra “Fim”, na cidade de São Félix, no Recôncavo Baiano, e foi internada em um hospital da cidade.

O ‘jogo’ Baleia Azul começou na Rússia e o boato de que suicídios estariam relacionados a ele chegou ao Brasil este ano. Junto com ele, a suspeita de que as tentativas aqui também estariam relacionadas ao jogo. Diante do viral, a Polícia Federal, em Pernambuco, emitiu um comunicado para alertar pais e responsáveis sobre os riscos.

 

(Ilustração: Morgana Miranda/CORREIO)

Indução
Os jovens se interessam pelo Baleia Azul na tentativa de superar desafios propostos e vencer “momentos” de tristeza, como relatam vídeos publicados na internet. Entre as tarefas proposta pelo ‘jogo’ estão assistir filmes de terror de madrugada e fazer cortes em diversas partes do corpo. Ao final, o participante é convocado a cometer o suicídio.

Embora venha sendo chamado de jogo, o que o Baleia Azul faz, no final das tarefas - induzir a um suicídio - é considerado crime pelo Código Penal Brasileiro. O artigo 122 determina que “induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça” é crime. A pena, de reclusão de dois a seis anos - se o suicídio se consumar - ou de um a três anos - se resultar em lesão corporal grave -dobra se a vítima for menor de 18 anos. 

Escolas
Em Salvador, algumas escolas já se mobilizam para prevenir as consequências dos desafios. O Colégio Salesiano divulgou um informe para a comunidade escolar destacando os problemas que podem ser causados pelo jogo e também pela série 13 Reasons Why.

Segundo a psicóloga do colégio, Cynthia Tanajura, as pessoas mais próximas de possíveis alvos (crianças e adolescentes) devem entender que elas já estão doentes e por isso se envolvem.

“Quando o jogo e a série provocam esses tipos de atitudes nos jovens é porque eles já estão adoecidos. Então, é preciso estar atento a quem são esses jovens que poderiam despertar para isso e por que despertariam. O jovem saudável não se abala. Ele acha bizarro, idiota esse tipo de jogo, mas não se envolve”, explica.

Por isso, Cynthia recomenda que os pais estejam atentos às mudanças de comportamento e que procurem a escola caso percebam algo de anormal. “A gente orienta que eles monitorem os meninos, peçam para ver os celulares, assistam as coisas juntos. Quanto à série, recomendo que os menores não devem ver, porque eles ainda não têm discernimento de compreender”, diz.

Mesmo que o adolescente não fale sobre o assunto, é importante que exista o diálogo. “Escute o que ele já sabe, questione, é importante falar a verdade, explicar que é um jogo perigoso”, explica.

Trabalho conjunto
A orientadora educacional do Colégio Mendel, de Vilas do Atlântico, Trissiane Carvalho, diz que a instituição reuniu três professores para falar com os estudantes do ensino médio sobre como eles estão vendo esse movimento gerado em torno do Baleia Azul. “Os professores de Filosofia, Sociologia e Redação usaram horários da manhã para conversar com os estudantes”, afirma.

Segundo ela, o resultado foi animador e a escola já estuda a possibilidade de levar um especialista para tratar dos riscos que o mau uso da internet pode trazer. “Queremos falar não apena do Baleia Azul, mas de outros riscos que esses jovens podem se meter”, diz. Além disso, deverá ser realizado ainda um trabalho junto com os pais dos estudantes.

De acordo com a Secretaria Municipal de Educação (SMED), estão sendo discutidas medidas que visem conscientizar alunos, professores e pais. Segundo a subsecretária de Educação, Rafaela Pondé, nos próximos dias devem ser emitidos documentos na rede. “O assunto é muito recente e, por enquanto, ele está sendo discutido internamente. Precisamos ficar atentos e utilizar o ambiente escolar como um espaço de conscientização”.

A preocupação também está presente na rede estadual, onde está sendo preparado um material para ser distribuído entre as escolas. O comunicado alerta para a importância do diálogo. “Fomos pegos de surpresa com toda essa movimentação. Estamos elaborando um comunicado para as escolas, na perspectiva de que seja feito esse diálogo”, explica o coordenador de Educação Ambiental e Saúde, Fábio Barbosa.

Números
Para ele, os casos recentes refletem os dados do aumento do número de suicídios. Segundo o DataSus, nos últimos 20 anos, houve um aumento do número de suicídios no estado, em todas as faixas etárias - no geral, mais de 154%. A juventude (15 a 29) abocanha a maior parcela do total bruto: 30,3% dos 6.089 registrados no estado de 1996 a 2015.

Quando observamos o aumento, foi de 144% em 20 anos. Quando separamos, o crescimento foi de 107% no caso dos de 15 a 19 anos e 156,75% na faixa dos 20 a 29 anos. Essa faixa etária também é que a mais comete suicídio.

De acordo com o Ministério da Saúde, a taxa de suicídio no Brasil está bem abaixo da de outros países da América do Sul. Em 2014, foram registrados 10.653 óbitos por suicídio no Sistema de Informação de Mortalidade, taxa média de 5,2 por 100 mil habitantes, praticamente metade da média mundial (11,4 por 100 mil). Na Argentina, a taxa é de 10,3 por 100 mil habitantes; Bolívia (12,2), Equador (9,2), Uruguai (12,1) e Chile (12,2). A OMS define como meta global até 2020 a redução da taxa de suicídio em 10%.

Onde buscar ajuda gratuita?
Hospital Juliano Moreira (Narandiba) Emergência com atendimento psiquiátrico funciona 24 horas.
Hospital Mário Leal (IAPI)  Também conta com emergência 24 horas para atendimento psiquiátrico.
5º Centro de Saúde (Avenida Centenário)  Emergência com atendimento psiquiátrico funciona 24 horas.
Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (Neps)  É vinculado ao Centro de Informações Antiveneno (Ciave) e funciona no Hospital Geral Roberto Santos. Oferece atendimento ambulatorial.
Centros de Atenção Psicossocial (Caps)  A rede Caps está presente na capital e no interior e também oferece tratamento ambulatorial.

 

Centro de Valorização da Vida (CVV)  Além do serviço 

presencial, em Nazaré,    atende pelo 141 ou pelo site www.cvv.org.br.

*Com a colaboração de Gil Santos e Thais Borges

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