Salvador

Homens e negros são a maioria da população de rua de Salvador, diz pesquisa

Negros somam 59,3%; brancos marcam o percentual de 4,3%

Tailane Muniz (tailane.muniz@redebahia.com.br)
Atualizado em 26/04/2017 18:05:48

Se toda a população de rua de Salvador pudesse ser representada por uma única pessoa, com direito a gênero e cor, ela seria um homem negro. É que dados do estudo 'Cartografias dos Desejos e Direitos: Mapeamento e Contagem da População em Situação de Rua na Cidade de Salvador', realizado pelo Projeto Axé, indica que das 22.498 situações observadas, este público atinge uma variável entre 14.513  e 17.357 - sendo a marca mínima e máxima, respectivamente - de indivíduos em situação de rua. 

Destes, 17.515 (77%) são homens, e 13.337 (59,3%) são negros. As mulheres somam 3.211 (14,2%) e os brancos atingem cerca de 4,3%, o que corresponde a 971 pessoas. Já os pardos correspondem a 29,6%, contabilizando 6.657 pessoas. Já os que não foram possíveis de serem categorizados somam 1.533, cerca de 6,8%. Iniciado no final de maio de 2016, o estudo levou nove meses para ficar pronto e foi divulgado na manhã desta quarta-feira (26), durante um Seminário aberto ao público. 

A pesquisa, que teve o apoio da Defensoria Pública do Estado e Secretaria de Promoção Social, Combate à Pobreza (Semps) e Universidade Federal da Bahia (Ufba), considerou todas as faixas etárias e teve a contagem de pessoas realizada em uma semana de agosto de 2016. Os adultos, de 26 a 59 anos, atingido a maioria da população de rua da capital baiana com o percentual de 59,4%, o equivalente a 13.374 pessoas.

Representantes do poder público estiveram presentes no seminário
(Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Em segundo lugar, estão os jovens, com 11,9% - 2.679 pessoas; seguido dos adolescentes, de 12 a 17 anos, com 6,2% - 1.392 indivíduos; os idosos, acima de 60 anos, que atingem a marca de 7,8% - 1.748, além das crianças, de 1 a 11 anos, que chegam a 668 em situação de rua, somando 3% dos observados. Resta ainda as 2.637 pessoas, 11,7%, que não foram possíveis definir. 

Conforme a coordenadora acadêmica do estudo, professora Juliana Prates, da Ufba, o objetivo é apresentar a população de rua à sociedade. Segundo Juliana, a populaçã de rua está associada a diversas questões, além da esfera da pobreza. "Trabalho infantil, questões de gênero, prostituição, então, em um próximo passo, temos que considerar se a única razão é a extrema pobreza", comentou, citando que, a princípio, a pesquisa tem caráter quantitativo. "A partir deste momento, poderemos evoluir para uma segunda fase, que seria a fase qualitativa. Não dá para evoluir sem ter esse desenho", completou. 

O que indica que alguém é uma pessoa em situação de rua, segundo Juliana, não é o simples fato dele dormir alheia. "Saímos dessa esfera."É uma maneira mais simplificada de fazer uma contagem, é realizado assim em vários lugares do mundo. Uma noite, com o maior número de pessoas e se contabiliza quem está dormindo. Mas, para nós, era importante ter um mínimo perfil", pontua. A importância da divulgação do mapeamento é importante para que a população em situação de rua exista para a sociedade, conforme defende a coordenadora nacional do Movimento de População de Rua, Maria Lúcia Santos. 

Alunos do Projeto Axé se apresentaram antes da divulgação da pesquisa
(Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

"Existem ações pontuais para esse público, mas o paleativo não resolve. Essas pessoas não estão nas ruas porque querem, dito isto, o projeto vem para mostrar que a rua tem nome, a rua tem cor, e que nós temos muitos idosos e pessoas com problemas de saúde expostos a essa realidade", salientou ela, que passou 16 anos vivendo nas ruas de Salvador. Natural de Itapetinga, Maria Lúcia acrescentou que o principal objetivo do estudo é trazer à tona números reais, para que estes possam ser revertidos em políticas públicas.

Mapeamento
Para chegar aos números, o Projeto Axé dividiu Salvador em 14 setores, ou roteiros, que foram percorridos por equipes, cada uma composta por três pessoas. Garcia - Barroquinha, Dique do Tororó - Pelourinho, Alto das Pombas - Federação/Ondina, Rio Vermelho - Jardim Armação, Iguatemi - Terminal Rodoviário, Boca do Rio - Nova Brasília, Bonocô - Ladeira dos Bandeirantes, Avenida Contorno - Feira de São Joaquim, Lobato - Penísula de Itapagipe, Santa Luzia - Periperi, Base Naval - Bom Juá, São Rafael - Fazenda Grande, Jardim Santo Inácio - Resgate e Barros Reis - Cidade Nova.

Para evitar repetição na contagem, as equipes tinham cerca de duas horas para percorrer cada roteiro, em uma média de velocidade de 30 km/h. O número mínimo, 14.513, foi calculado a partir dos turnos matutinos de segunda-feira (22 de agosto) e de sexta-feira (26 de agosto) e o número máximo, 17.357,  calculado a partir dos turnos matutinos de segunda-feira (22 de agosto)  e domingo (28 de agostos). De acordo Juliana, o maior desafio foi definir o critério que seria utilizado para saber quem deveria ser contabilizado e o porquê. "O número foi feito com a maior seriedade possível. É um número que se repete, ao menos, a um turno por por dia, e uma vez por semana", garante Juliana.

Então, foi criado o que o Projeto Axé definiu como Grupo Focal - equipe composta por policiais militares; meninos, meninas, pais, mães e educadores do projeto Axé; baleiros; Movimento Sem Teto de Salvador (MSTS), estudantes universitários e conselheiros tutelares. O policial militar, por exemplo, tinha a função de indicar quais eram os locais com maior incidência de gente em situação de rua - o que foi utilizado para a produção do mapa geográfico do projeto. "Há muita realidade nesses dados porque fizemos com o apoio de pessoas que já estiveram lá, que se reconhecem", acrescentou a coordenadora acadêmica. 

Quanto ao critério de definição sobre quem, de fato, é branco, negro ou pardo, o denominador comum foi alcançado por meio de uma espécie de auditoria entre os grupos focais. Juliana disse, ainda, que foram considerados o tempo de permanência e os hábitos dessas pessoas. 

Minha casa, minha rua
Eu uso a rua, fico na rua, mas não sou da rua. A frase é de um ex-menino de rua, segundo o Projeto Axé. Conforme o coordenador de articulação e pesquisa do Projeto Axé, Marcos Cândido, nem todo mundo que está na rua é pobre ou miserável. "A gente precisa parar que todo pobre é igual, que têm os mesmos problemas e questionamentos, porque não é bem assim", comentou. Durante as reuniões com os grupos focais, ex-meninos de rua ressaltaram que há o lado bom de ser alheio ao mundo, de acordo com conteúdo exibido pela Pesquisa. 

Entretanto, Cândito alerta para o fato de que todo mundo tem direitos básicos. "Sabemos que não é uma população homogênea, e que a situação de rua pode ser transitória, mas o fato daquela pessoa estar ali, seja qual for a circunstância, configura a violação de direitos básicos que lhes deveriam ser garantidos pelo poder público", salienta.

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