A bola contra a loucura

A bola contra a loucura

Talvez você lembre de Aylan Kurdi. O mundo inteiro o conheceu caído de bruços, rosto quase enterrado na areia e o pequeno corpo sem vida, antes dos 4 anos de idade.   

Há exatos dois anos, a imagem daquela criança morta numa praia turca fez o mundo abrir os olhos para a guerra civil da Síria, um conflito iniciado em 2011. Naquele momento, surgiu a esperança de que a imagem de Aylan Kurdi pudesse dar freio à bestialidade. Triste engano.
 

(Nilufer Demir/AFP)

A guerra seguiu e, hoje, já se contam cerca de 500 mil mortos e mais de 5 milhões de refugiados pelo mundo. Agora, é o futebol – veja só – que aponta um caminho para a bandeira branca.

Esta semana, nenhuma imagem esportiva foi tão forte quanto as que se seguiram ao gol do atacante Omar al-Soma contra o Irã, aos 47 do segundo tempo de uma partida pelas eliminatórias da Ásia.

Era o gol do empate em 2x2, que levou a seleção síria à repescagem asiática na disputa por uma vaga na Copa 2018. Ninguém sabe se a Síria vai ao Mundial, mas só o fato de manter o sonho vivo já é alguma felicidade para uma nação tomada por uma guerra que soterra qualquer fantasia.

Quando a bola entra, o narrador berra fora do tom, os reservas invadem o campo, a comissão técnica idem, bandeiras tremulam nervosas, o capitão bate no peito, um auxiliar técnico chora e al-Soma, o autor do gol, é esmagado por uma massa humana que parece estar ali para provar que, contrariando a lógica, há um país vivo sob os escombros.

Nestas eliminatórias, a seleção da Síria, que nunca disputou uma Copa do Mundo, foi proibida pela Fifa de jogar em seu território conflagrado. O time então teve que buscar abrigo, assim como os milhões de refugiados da guerra. Tentou-se Omã, Catar, Líbano e Macau, mas as populações locais não aceitaram – qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Por fim, os sírios fincaram pé na Malásia, onde não perderam pra ninguém.

Há exatos dois anos, quando a foto do pequeno Aylan Kurdi rodou as redes, escrevi neste espaço sobre Mohammed Jaddou, jovem que era capitão do time sub-17 da Síria, mas também fugiu da guerra depois que o ônibus da seleção sofreu dois atentados à bomba. Pagou traficantes de seres humanos, quase morreu no Mar Mediterrâneo num bote superlotado, ficou preso na Itália e foi parar na Alemanha.

Então, Jaddou era tido como a grande promessa do futebol asiático. Hoje, aos 19 anos, atua na base do Arminia Bielefeld, da segunda divisão germânica, mas nem pensa em seleção, pois sabe que, após sua história correr o mundo, ele foi banido pela ditadura de Bashar al-Assad, um homem acusado de crimes de guerra contra o povo do seu próprio país.

Sem chance de ir à Copa, Jaddou não deixa de torcer para que a seleção Síria lá esteja, por um motivo simples: ele sabe que, hoje, somente a bola pode interromper, ao menos por 90 minutos, a matança na sua terra natal.

É que a bola sempre corre mais que os homens.  

Victor Uchôa é jornalista e escreve aos sábados.