A conversa de bêbado deu cadeia

A conversa de bêbado deu cadeia

Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da Facom/Ufba

Assim como os bilionários são absolutamente incapazes de imaginar como deve ser a vida de uma pessoa pobre, desempregada, ou que receba apenas um salário mínimo para sustentar uma família, nós, os financeiramente mortais, jamais conseguiríamos imaginar como são os detalhes, as rotinas e as coisas que povoam a vida e a imaginação das pessoas muito ricas. O excesso de dinheiro embaralha a cabeça de quem quer que seja e conduz quem o tem a um universo moral, comportamental, sexual e ético absurdamente fora da nossa capacidade de compreensão. O dinheiro, para além da consciência da posse da riqueza em si, deve dar ao seu dono sentimentos de poder e onipotência de uma ordem tal que a ultrapassagem de qualquer fronteira, de qualquer limite, é obviamente normal e desapercebida.
 
Vejamos o caso Joesley Batista. Chegou a um ponto em que não importava apenas ter muitos milhões. Era preciso transformá-los em poder não apenas econômico, mas político, para, assim, ver a multiplicação de milhões em bilhões no átimo de uma ligação telefônica. Comprar bois, aves, fazendas, empresas, marcas de luxo, aviões, iates, mansões pelo mundo, Tony Ramos, Fátima Bernardes e até Roberto Carlos e Karl Lagerfeld era muito pouco. Era preciso comprar muito mais gente. E assim foi brincando de menino rico, comprando milhares de deputados de todos os partidos políticos e todos os candidatos a todos os cargos importantes no país com chance de ganhar eleições, não importando legendas e muito menos projetos políticos.
 
PEIXE - Certo de que comprar gente era pouco, Joesley resolveu ir ainda mais fundo brincando de Deus. Autonomeou-se “a joia da coroa” diante da colossal crise política e econômica brasileira e enfiou na cabeça que, tendo cometido todo o tipo de atrocidade que cometeu para ter os bilhões que tinha, era preciso mais: atribuiu-se a missão de fechar a tampa do caixão (expressão dele) da República. Decidiu que, de uma tacada só, ele, o cavaleiro do apocalipse, iria destruir literalmente a p#### toda. Como, segundo ele, os Odebrecht já haviam moído o Poder Legislativo, caberia a ele e a Ricardinho, o Saud, seu executivo braço direito e agora também preso ao seu lado, moer o Executivo, gravando Michel Temer, e o Judiciário, fisgando alguns ministros do Supremo com a boca na botija. 
 
Diante da mania de grandeza e da mosca azul que pica 11 entre cada 10 bilionários, o fim que se prevê para Joesley Batista não poderia ser mais melancólico. Como no ditado popular segundo o qual o peixe morre pela própria boca, assim foi com o até então todo poderoso dono da Friboi. Morreu duplamente pela boca. Primeiro, ingerindo, madrugada adentro, ao lado de Saud, copos e copos de bebida alcoólica. Depois, cometendo um desses atos falhos que Freud explica, mesmo, muito bem. Numa conversa de bêbados, como ele mesmo definiu ao tentar desdizer o que disse embriagado, Joesley conseguiu a proeza de produzir provas robustas contra ele mesmo, fazendo, por engano, uma autogravação do diálogo com Saud sobre coisas impublicáveis. Não à toa, introduziu o novo mandamento dos tempos digitais: quem com áudio fere, com áudio é ferido. É a primeira auto delação involuntária de que se tem notícia na história da Justiça brasileira. 
 
De uma levada só, Joesley conseguiu anular todos os benefícios que havia conseguido com sua delação, já então homologada pelo Ministério Público: foi preso, fortaleceu a linha de defesa de Temer, atraiu para si a unanimidade do desprezo moral nacional e ainda colocou em xeque o próprio casamento, dado o teor das conversas sobre sexo e seus fetiches com outras mulheres. Os movimentos feministas então, estão aplaudindo de pé, pois vá ser machista, grosseiro e misógino assim lá nos quintos dos abatedouros de Goiás.