Calendário 2018: Senta que lá vem retrocesso

Calendário 2018: Senta que lá vem retrocesso

Demorou, mas o calendário de 2018 para o futebol brasileiro foi divulgado pela Confederação Brasileira de Futebol na sexta-feira (29/9) e, com isso, as definições da palavra “planejamento” foram atualizadas mais uma vez em nosso país. Faltando três meses para acabar a temporada, os clubes agora sabem como projetar o próximo ano, que será recheado de competições de janeiro a dezembro – inclusive com a Copa do Mundo na Rússia.

A CBF atrasou a publicação do calendário por causa de pressão das federações, que não aceitavam a redução dos estaduais em virtude das poucas datas disponíveis no primeiro semestre. Como dependem das entidades locais para se manter no poder, Marco Polo Del Nero e seus asseclas não querem bater de frente com eles. O impasse foi resolvido preservando a quantidade de datas e, com isso, os estaduais começarão no dia 17 de janeiro.

Tudo bem que é ano de Copa do Mundo, o que faz com que as competições que os clubes participam terão que sofrer alterações numa temporada atípica. Porém, se contava com o bom senso no Brasil. Abriu-se uma enorme brecha para o retrocesso na organização do futebol brasileiro, que irá causar saturação do produto, desinteresse do torcedor e desgastes dos atletas – esses, inclusive, terão apenas duas semanas de pré-temporada. Um absurdo.

Outra aberração é que o Campeonato Brasileiro, que começará no dia 15 de abril, irá parar dois dias antes do início da Copa da Rússia. Ou seja, os atletas de clubes nacionais que serão convocados para o Mundial desfalcarão suas equipes por até oito rodadas, desvalorizando a principal competição do país às vésperas do evento esportivo mais importante do planeta. Um tiro no pé, que vem precedido de uma dose cavalar de partidas entre janeiro e abril. O Bahia, por exemplo, se chegar às finais do Campeonato Baiano e da Copa do Nordeste, fará aproximadamente 25 partidas em menos de 90 dias, além das oitavas de final da Copa do Brasil. O Vitória, por começar o ano ainda nas primeiras fases da copa nacional, se percorrer o mesmo caminho do tricolor, pode chegar a 31 jogos antes do início do Brasileirão.

Em 2018, além da Copa do Mundo, o calendário terá 10 Datas Fifa e, pasmem, nenhuma competição no Brasil será paralisada. Os estaduais e o Campeonato Brasileiro ocorrerão normalmente, como se nada estivesse acontecendo entre as seleções mundiais. Enquanto as principais ligas do planeta darão uma pausa para preservar suas competições e valorizar seus selecionados, nossos torcedores continuarão assistindo torneios esvaziados e sem seus principais atletas – sem contar que esses jogadores chegarão a um possível Mundial com desgastes físicos acima do normal. O receio de perder a Copa por problemas musculares pode até fazer com que essas estrelas tirem o pé do acelerador e comecem a se poupar durante finais de estaduais e fases importantes da Copa do Brasil e Libertadores.

É importante lembrar que a CBF passará por eleições em 2018, e manter o bom relacionamento com as federações é fundamental. Enquanto isso, quem sofre com o calendário sobrecarregado são os profissionais que vão para o campo. Cabe aos jogadores, treinadores e dirigentes (por que não?) tentar mudar este cenário, para o bem deles próprios. O futebol brasileiro sofrerá uma desvalorização cavalar na próxima temporada, e já sabemos disso três meses antes dela começar.

*Elton Serra é jornalista e escreve aos domingos