Concorrência em cursos de licenciatura é cada vez menor na Ufba e na Uneb; situação preocupa

educação
10.10.2014, 07:02:00
Atualizado: 10.10.2014, 07:10:19

Concorrência em cursos de licenciatura é cada vez menor na Ufba e na Uneb; situação preocupa

A queda no interesse pela carreira de professor da educação básica se acentua. Sem valorização, a concorrência pelos cursos de Licenciatura na Ufba e Uneb reduz desde 2010. Escolas têm dificuldade de achar professores em algumas disciplinas
Caroline deixou a licenciatura em Pedagogia.
Cursa Produção Cultural (Foto: Evandro Veiga)

“Quem quer fazer Medicina?”, pergunta o professor de pré-vestibular numa sala de cursinho lotada. Metade dos alunos levanta a mão. “E  Direito?”. Outra multidão responde positivamente. Engenharias, a mesma coisa... Mas, e licenciatura? Silêncio quase mortal no recinto.

“Ave Maria, em nossas turmas, que são grandes, temos dois ou três que querem fazer licenciatura. É muito pouco”, conta a coordenadora pedagógica do pré-vestibular Análise, no Iguatemi, Tânia Maria. “A procura nos cursinhos é mais pelos cursos com grande concorrência, pela dificuldade de aprovação. O pessoal quer mesmo Medicina, Direito, Engenharias”, salienta.

As concorrências entregam o problema: quase ninguém quer ser professor. Falta de valorização,  infraestrutura de trabalho deficiente e até a violência nas escolas são alguns dos motivos da ‘evasão’.  E o futuro não é muito animador.  Basta comparar o número de inscritos  nos cursos de licenciatura do estado para perceber que a procura só cai (ver quadros na  página ao lado).

Formação
Cada vez menos jovens querem ensinar Português, por exemplo. Em 2010, 294 tentaram uma vaga no curso de Letras Vernáculas no campus de Salvador da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) – era como se 9,8 candidatos disputasse cada uma das 30 vagas disponíveis. Mas, cinco anos mais tarde, em 2014, os interessados já eram menos do que a metade: 146, para 27 vagas (o que dá uma concorrência de 5,41 candidatos por vaga).

Para a coordenadora do Colegiado de Letras da Uneb, Maria da Conceição Reis, o futuro que se desenha é de  “escassez de professores, mas principalmente de professores qualificados”. Ainda segundo ela, “o  perfil do aluno que ingressa tem decrescido do ponto de vista da formação”.  

Na Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde cerca de 20 licenciaturas são ofertadas todos os semestres, a tendência é a mesma. Em 2010, o curso de Letras Vernáculas teve 122 inscritos no vestibular para disputar 45 vagas (2,71 candidatos por posto).

Em 2013, já eram 55 inscritos para 36 vagas – o total disponível foi reduzido porque 20% das vagas de todos os cursos da instituição são reservados aos Bacharelados Interdisciplinares. Já em 2014, o número de inscritos saltou para 375, graças à entrada da Ufba no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), em que concorrem estudantes de todo o país com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).  

No entanto, o aumento da demanda não quer dizer que a situação tenha melhorado: no final de setembro, a Ufba divulgou a sétima chamada dos aprovados para matrícula no semestre 2014.2, incluindo dois nomes para o curso de Letras Vernáculas, além de aprovados para Língua Estrangeira Moderna, Língua Estrangeira Moderna ou Clássica e Letras com Inglês ou Espanhol.

Outros cursos, como Engenharia Civil e Direito (diurno), não entraram no edital porque todas as vagas já haviam sido preenchidas. O número de inscritos já mostra a disparidade: Engenharia Civil teve 5.308 candidatos, enquanto Direito teve 5.910.

Fenômeno
Mas a diminuição do interesse pela carreira de professor da educação básica é um fenômeno nacional. Pela prévia do Censo do Ensino Superior de 2013, divulgada no mês passado pelo Ministério da Educação (MEC), o número de matriculados nos cursos de licenciatura em todo o país tem caído nos últimos quatro anos.

Em 2010, eram 90 mil inscritos nos cursos de Letras Vernáculas. Três anos mais tarde, em 2013, eram 78 mil  estudantes nos cursos.

“A escassez de professores é uma tendência que reflete na Bahia. Por outro lado, há estudos que indicam que, mesmo com a redução dos candidatos, temos muitos estudantes nas licenciaturas, porque as vagas são preenchidas”, aponta o professor Penilton Silva Filho, pró-reitor de graduação da Ufba.   Para ele, se todos os aprovados se formassem não haveria falta de professor. “Mas a evasão é grande”, diz.

Desilusão
Uma das desistentes foi a estudante Caroline Araújo, 25 anos. Em 2008, ela começou a estudar Pedagogia na Ufba. No entanto, já no segundo semestre, depois de começar a estagiar em uma escola estadual, se desapontou. “Eu vi a realidade. Não há condições para o profissional trabalhar, seja pela falta de recursos materiais, seja pela falta de suporte adequado nas escolas. Se fosse continuar com Pedagogia, não ia querer trabalhar com licenciatura”, conta ela, que desistiu no quarto semestre. Hoje, Caroline estuda Produção Cultural, também na Ufba.

Caroline não foi a única que perdeu o interesse pela Pedagogia. Na Uneb, um dos cursos de Salvador chegou a perder mais de 80% dos candidatos: de 482 inscritos, em 2010, caiu para 70, em 2014. Na Ufba, a concorrência passou de 3,89 (350 para 90 vagas) para 1,69 (122 para 72 vagas) em 2013.

O estudante Jackson Moreira, 30, também desistiu da licenciatura em Física na Ufba, que começou em 2007. Hoje ele cursa Engenharia Civil na Uneb. “Era o custo-benefício. Física é difícil de concluir. Depois, você se forma e vai trabalhar como professor, que não tem retorno. Quis Engenharia porque queria o salário de engenheiro”, explica. Apesar da desistência de Jackson, os inscritos para Física na Ufba são constantes: eram 90 em 2010 e 89 em 2013.

“Precisamos valorizar os professores, para atrair os jovens, mas também precisamos rever o formato das licenciaturas”, afirma o pró-reitor da Ufba Penilton Silva Filho. Por isso, a partir deste mês, a universidade pretende instalar um fórum de discussão das licenciaturas.

Ainda assim, há outros fatores que podem contribuir para o menor interesse em licenciaturas, segundo o coordenador de Desenvolvimento da Secretaria Estadual da Educação (SEC), Nildon Pitombo. “Temos muitos estudantes migrando para o ensino a distância, porque a universidade aberta tem crescido no Brasil”, ponderou Pitombo.

Matemática e Ciências têm carência de professores
Apesar de assustar o futuro, a escassez de professores da educação básica não é novidade, segundo o coordenador de Desenvolvimento do Ensino Superior da Secretaria Estadual da Educação (SEC), Nildon Pitombo. “Há 13 anos, o MEC (Ministério da Educação) fez um levantamento e indicou para as secretarias que havia carência de professores em áreas importantes, sobretudo nas Ciências Naturais e na Matemática. Hoje, já beiramos a escassez em Geografia, História e Artes”, lista.

Os números confirmam - a concorrência para Química na Ufba, por exemplo, foi de 4,09 candidatos por vaga em 2010. Em 2013, foi de 1,56. Matemática passou de 3,38 para 1,53 no mesmo período. No Brasil, foi a mesma coisa. Pelo Censo do Ensino Superior de 2013, 80.891 estudantes se matricularam nas licenciaturas em Matemática no Brasil. Em 2010, o número era maior: 82.792.

Apesar de tudo, o coordenador de Gestão de Pessoas da Secretaria Municipal de Educação (Smed), Manoel Calazans, diz que a rede municipal ainda não sente os efeitos da escassez de professores de  forma direta. “É um fenômeno nacional, mas acontece muito com as áreas específicas. Como a rede municipal trata prioritariamente do ensino fundamental e infantil, a demanda ainda é atendida”. Mesmo assim, Calazans diz que é necessário investir na valorização do profissional. “O professor se sente desestimulado, porque falta material, faltam condições para trabalhar, fora a violência nas escolas”.

Baixa procura  tem feito categoria envelhecer, aponta sindicato
Como os jovens não querem ingressar na carreira de professor, a categoria tem envelhecido, de acordo com a diretora do Sindicato dos Professores do Estado (Sinpro-BA) Cristina Souto. “Os professores não estão se renovando, porque os jovens chegam  temporariamente. É como um bico enquanto não fazem um mestrado, porque não querem fazer dessa a sua profissão”, afirma.

Segundo ela, os maiores problemas são a baixa remuneração e a falta de prestígio que os profissionais da educação básica têm, hoje. “A gente não tem um plano de carreira. Quem começa a ensinar agora ganha a mesma coisa que alguém que faz isso há 30 anos. Temos todo um trabalho extraclasse pelo qual não somos remunerados, que inclui preparar aula, elaborar prova, corrigir prova, fazer projeto interdisciplinar... Hoje, numa escola particular, o piso salarial não chega a R$ 6 por hora/aula”, ilustra. 

Para a diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado (APLB), Ivana Cabral, a falta de valorização vem desde a universidade. “O trabalho tem que ser com a escola e a universidade, mas parece que essa via nunca vai ser de mão dupla. A carreira de professor não é sustentável”, conclui.  Atualmente, o piso nacional na rede pública é de R$ 1.697.