'De Um Tudo' traz Fernando Guerreiro de volta ao teatro

Vida
09.05.2017, 02:00:00

'De Um Tudo' traz Fernando Guerreiro de volta ao teatro

Diretor de comédias como 'A Bofetada' retorna ao gênero em peça que ironiza elementos da baianidade
Yacoce Simões assina direção musical e Gerônimo compõe a trilha, além de atuar
(Fotos: Rafael Ramos/divulgação)

Depois de cinco anos sem dirigir espetáculos - o último foi 'O Sumiço da Santa' -, Fernando Guerreiro, 55 anos, está de volta ao teatro, com a montagem 'De Um Tudo - Recital Cômico-Musical de Baianês', que estreia nesta quarta-feira (9) na Caixa Cultural, onde segue até o dia 30.

“Eu sentia que havia um ‘buraco’ e os grandes espetáculos de humor haviam sumido do mercado. O último que me chamou a atenção foi o de João Sanches (Egotrip). Mas não se veem muitas comédias. Tem é muito stand up. E essas comédias estão precisando voltar”, defende o diretor, conhecido principalmente por montagens como 'A Bofetada' e 'Os Cafajestes'.

O afastamento de Guerreiro da direção aconteceu por causa de sua dedicação exclusiva à presidência da Fundação Gregório de Mattos, ligada à Prefeitura de Salvador. O diretor continua na FGM, mas dessa vez conseguiu conciliar o cargo com a carreira artística.

Ana Mametto canta e atua também como atriz na peça que estreia amanhã na Caixa Cultural

Baianês
Estão no elenco do espetáculo os atores Alexandre Moreira, Denise Correia, Diogo Lopes Filho e José Carlos Júnior. As surpresas são Ana Mametto e Gerônimo, que, além de cantarem, participam do espetáculo como atores. O texto, livremente inspirado na coloquialidade no Dicionário de Baianês, de Nivaldo Lariú, é de Alan Miranda e Daniel Arcades. Arcades venceu o Prêmio Braskem de Teatro deste ano como melhor autor, por 'Rebola'.

Guerreiro diz que a peça resgata o universo das festas de largo da Bahia, a começar pelo cenário, que é uma barraca onde as pessoas se encontram para bater papo. “Quando pensei nesta montagem, sempre pensei num musical que tivesse também uma ‘conversa de baianos’. Aí, veio a ideia do bar, que é muito mais uma barraca. É um resgate daquelas barracas das festas de largo, que foram eliminadas e viraram essas coisas de plástico horrorosas. As barracas antigas tinham umas pinturas naifs. As pessoas sentavam ali e jogavam conversa fora”, lembra o diretor.

Diogo Lopes Filho já trabalhou com Guerreiro em outras montagens, como em Camila Baker

O ator Diogo Lopes Filho também defende que o público baiano irá se reconhecer no espetáculo: “Nos olhamos e nos identificamos com nosso linguajar, nossa maneira de ser. É uma baianidade construída a partir de Jorge Amado, Caribé, Caymmi e também de todos nós. O que será visto em cena é o que vemos em todos lugares. Só colocamos uma lente de aumento para este universo do baianês”.

Além de participar como ator, Gerônimo compõe a trilha sonora original, que inclui rock, samba-reggae, samba de roda, arrocha... “Há uma diversidade de ritmos, mas tudo tem a cara da Bahia na peça. É notoriamente alegre, mas, claro, com reflexão. Pensamos muito sobre o comportamento do baiano, sobre coisas que não costumamos observar”, pontua Gerônimo.

Cultura popular
Guerreiro diz por que convidou o compositor para integrar o elenco e para criar as canções da peça: “Eu queria alguém que conhecesse a cultura popular. Gerônimo, além de ser um artista, é um contador de histórias incrível. É um debochado e, se não for assim, não pode trabalhar comigo”, diz, rindo.

O diretor ressalta que, embora aborde a baianidade, tema já exaustivamente tratado em espetáculos locais, De um Tudo trata o tema com originalidade e, sobretudo, ironia. “É tudo muito irônico, um deboche. A gente fala sobre a preguiça, sobre o atendimento dos prestadores de serviço, sobre o sincretismo do baiano. Por exemplo, dizem que o baiano tem fé em tudo: é verdade?”, questiona.

Gerônimo observa que as piadas da peça referem-se também a questões sociais e econômicas, mas raramente há uma referência direta à política. “Já estamos num sistema político tão engraçado que, se formos fazer piada com isso, vai virar humor negro. Vai fazer as pessoas sofrerem em vez de rir”, opina.

O clima divertido é defendido por Guerreiro, que não vê o atual momento político brasileiro propício para o pessimismo na arte. “Eu não faço coisa ‘pra baixo’, embora eu goste de questionar a realidade. Se eu fizer algo pessimista num momento como este, neguinho vai me degolar na porta do teatro”, brinca o diretor.

Guerreiro e a comédia
O baiano Fernando Guerreiro começou no teatro, em 1977,  no  Gamboa, com Eduardo Cabus. Em 1979, estreou seu primeiro espetáculo como diretor: Um Pacote Muito Louco, baseado no russo Anton Tchekhov (1860-1904). “Na época, tinha muitos planos econômicos e a gente brincava com isso”, recorda-se.

Fernando Guerreiro retorna ao teatro depois de cinco anos sem dirigir (Foto: Tayse Argôlo)

De lá pra cá, segundo o próprio Guerreiro (que se chama, na verdade, Fernando Ferreira de Carvalho), foram aproximadamente 70 espetáculos nestes 40 anos de carreira. Embora já tenha encenado montagens de diversos gêneros, foi na comédia que Guerreiro se consagrou: “Eu não planejei, mas elas acabaram virando minha marca”.

Entre seus espetáculos cômicos está o clássico 'A Bofetada', que estreou em 1988 e até hoje ganha novas montagens. Atualmente, está em cartaz no Teatro Eva Herz. “A Bofetada lançou uma posição meio revolucionária. Ela vem junto com a história do axé, brincando com a overdose de festas e de alegria na Bahia. Colocava uma lente de aumento na baianidade”, diz.

Guerreiro reconhece que, dos anos 80 até hoje, a comédia passou por mudanças necessárias: “Não se pode mais brincar com certos temas e isso é importante, porque não podemos reforçar determinados estereótipos. Não podemos, por exemplo, reforçar a cultura escravagista”.

O realizador não vê o atual momento da comédia baiana com muito otimismo: “Tem uma galera boa chegando, mas nada me encantou. Uma das coisas boas é Sulivã Bispo (do canal Frases de Mainha, no YouTube)", citou.