Eleitores esperam 12h e denunciam venda de lugar em fila da biometria

salvador
12.01.2018, 17:30:00
Atualizado: 12.01.2018, 19:04:50
(Marina Silva/CORREIO)

Eleitores esperam 12h e denunciam venda de lugar em fila da biometria

TRE informou que não recebeu denúncia

Não é novidade que as filas para recadastramento da biometria têm reunido milhares de pessoas, de segunda-feira a sábado, na sede do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), no Centro Administrativo da Bahia, na Paralela, em Salvador. Para tentar escapar da espera de horas, alguns eleitores conseguiram comprar um lugar na fila de prioridade para realizar o procedimento. O valor? R$ 10. 

A denúncia foi feita ao CORREIO pelo estudante Vitor Ribeiro, 21 anos, que passou 12 horas aguardando, nesta quinta-feira (11) - quando mais de três mil pessoas formaram uma fila quilométrica que por pouco não chegou à Avenida Paralela. De acordo com o estudante, um segurança do TRE negociou um lugar na fila de prioridade. O prazo para a biometria termina dia 31 de janeiro e, conforme o TRE, cerca de 60% dos eleitores estão biometrizados.

"Era mais ou menos 14h quando o rapaz que estava atrás de mim disse que sairia para pegar uma informação. Do nada, duas horas depois, ele voltou com o título pronto, indicando o segurança que poderia ajudar a gente. Ele disse: 'é aquele ali, eu paguei R$ 10 para ele fazer um lanche'", relatou Vitor, afirmando que o funcionário estava fardado.

Àquela altura, há sete horas na fila, o estudante confessou que ficou tentado a ir atrás do homem e pagar para ser atendido. "Eu já estava cansado, pensei mesmo. Mas acho que não fui, porque tento ser certinho com as coisas. Muita gente acabou indo e, em dado momento, ele [o segurança] percebeu que aquilo já estava sendo muito comentado, então parou", pontuou Vitor, que recadastrou a biometria por volta de 19h.

Procurado pelo CORREIO, o TRE informou que não tem conhecimento de nenhuma denúncia acerca da conduta de servidores e colaboradores ligados ao órgão. De acordo com a pasta, todas as denúncias que chegarem, por meios legais e disponibilizados à população, serão devidamente apuradas. 

Ainda conforme o TRE, a Seção de Segurança Institucional do órgão, em Salvador, é formada por 12 agentes de segurança [servidores federais concursados] e 41 vigilantes terceirizados, que desempenham suas funções sob a supervisão dos agentes concursados. "Em caso de observância de práticas de atos ilícitos por parte de qualquer servidor, deverá ser aberto processo administrativo disciplinar, nos termos da Lei 8.112/90", completa a nota.

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Revolta
"É uma coisa muito absurda. Uma falta de respeito enorme com todos os eleitores que passaram horas ali esperando. Muita gente chegava, olhava o tamanho da fila e desistia de cara. Eu tive até sorte, quando cheguei tinha mais de mil pessoas na minha frente, mas eu tinha que ficar, não podia correr o risco de não fazer", salientou Vitor, que vai precisar estar com o título regularizado para fazer um intercâmbio. 

Trabalhando no local todos os dias há pelo menos uma semana, o ambulante Edeilton Souza Santos, 30, afirmou ter presenciado negociação entre um segurança e um eleitor no final da tarde de terça-feira (9). "Vi quando um dos seguranças pegou R$ 50 na mão de uma pessoa que estava na fila, mas aí muita gente acabou vendo. Todo mundo começou a vaiar e foi o maior tumulto. Ele acabou devolvendo [o dinheiro]", disse à reportagem.

O CORREIO esteve na sede no TRE, na manhã desta sexta-feira (12). No local, filas e eleitores resignados. 

(Foto: Marina Silva/ARQUIVO CORREIO)

Tem de tudo
Para atender aos milhares de eleitores que deixaram a biometria para os últimos dias, há um comércio disposto a agradar a todos os gostos - e bolsos. Há quem desiste no meio do caminho e vende o próprio lugar na fila. Há oferta de água, jaca e até purê de aipim com carne de sol. E há, ainda, o aluguel das cadeiras-salvadoras-da-pátria.

Promoção de água é o que não falta. Tem de R$ 1, R$ 2 e três por R$ 5. A jaca fica por R$ 3. A cadeira, o eleitor aluga por R$ 5 - e pode aproveitar pelo tempo que permanecer no TRE. Já o lugar na fila, esse depende muito da distância das seções de atendimento - o que alguns dos eleitores não veem com maus olhos.

A estudante Priscila Azevedo, por exemplo, acha legítimo o direito de vender o próprio lugar - desde que você o tenha garantido, literalmente, com o próprio suor. "Uma coisa é segurança vender prioridade, outra coisa é a pessoa dormir na fila, passar sol e chuva. Se ela acha por bem desistir e vender, tudo bem. Se achar quem compre, ótimo. Se eu tivesse, super pagaria", afirmou ela, aos risos.

Pela segunda vez, em duas semana, tentando realizar o procedimento, a estudante disse que viu muita gente comprar lugar na fila. "Já vi o povo comprar por R$ 20, R$ 30 e até R$ 50. Senti foi muita inveja. Trouxe o dinheiro do aluguel da cadeira e da água, porque a minha sempre acaba", contou ela, que chegou à sede do TRE às 7h, nesta sexta-feira. Otimista, ela esperava sair de lá até 13h, mas só conseguiu o atendimento 14h30. 

O pedreiro José Carlos Miranda, 45, também ficou em alerta com o anúncio de lugares na fila. "O cara estava lá em cima, pedindo R$ 50. Mas eu prefiro esperar de graça mesmo, é muito dinheiro. Trouxe meu banquinho já pra não gastar com aluguel de cadeira, nem nada", contou ele, que chegou ao local por volta de 5h.

Felizardos
José Carlos foi atendido por volta de meio-dia. "Tô muito feliz. De repente a fila começou a andar rápido e deu tudo certo. Posso me considerar um felizardo, né?", indagou ao CORREIO, por telefone. Se for considerar as 12 horas de espera do estudante Vitor Ribeiro, nesta quinta-feira, José pode, sim, se considerar um felizardo.

Assim como a técnica em enfermagem Givanilda Machado, 37, que chegou por volta de 5h10, nesta sexta-feira, e passou sete horas na fila. "Tive sorte, graças a Deus. Achei que fosse esperar até umas 13h30. Quando cheguei, tinha muito mais de mil pessoas na minha frente. É assustador", disse, aliviada.

Ela não viu e nem ouviu falar do comércio de lugares na fila. Segundo Givanilda, a incidência de gente poderia ter sido evitada com planejamento por parte do TRE. "Eles poderiam ter disponibilizados colégios estaduais, isso facilitaria para todo mundo", disse.

 Em nota enviada ao CORREIO, o Superior Tribunal Eleitoral (TSE) informou que com o grande número de pessoas nos locais de atendimento, o sistema de biometria apresentou algumas falhas no funcionamento, que, de acordo com o órgão, já foram resolvidas. 

"Desde o início desta semana, uma força tarefa formada por 15 técnicos da área de Tecnologia da Informação da Corte trabalharam de forma ininterrupta para sanar as eventuais falhas. Com isso, desde a tarde de quarta-feira (10), o sistema voltou a funcionar normalmente, permitindo maior rapidez no atendimento aos eleitores", diz a nota. 

O TSE afirmou que a expectativa é de que 75 milhões de brasileiros sejam identificados por meio das impressões digitais em todo o país nas eleições deste ano. O eleitorado atual é de 146.512.279 no total.