Facções ocupam pontos de encontro de bairros no Carnaval de Salvador

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14.02.2018, 08:56:00
Atualizado: 15.02.2018, 00:04:12

Facções ocupam pontos de encontro de bairros no Carnaval de Salvador

Apesar disso, foliões ainda curtem e contam histórias inesquecíveis da folia

Perguntei a meu amigo Bruno, do Horto Florestal: “Onde a galera do seu bairro se encontra no Carnaval?” Sabe de nada. Ao meu amigo André, da Graça, mesma pergunta, mesma falta de resposta. Ok, outro amigo: Eduardo, da Sussuarana. “A turma da Velha se reúne até hoje na antiga Insinuante da Carlos Gomes, do lado da galera da (Sussuarana) Nova.” Ao meu amigo Paulo, de São Caetano: “Eu sempre brinquei com o povo da Formiga ali no Clube de Engenharia”.

Quem não é de Salvador, ou não tem muita intimidade com a cidade, certamente desconhece que Horto e Graça são bairros nobres; Sussuarana e São Caetano, lugares predominantemente pobres. Mas por que só os bairros populares têm esses locais demarcados no circuito?

O cientista social Leonardo Nascimento, professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), ensaia uma resposta.

“As elites lidam com o espaço público de uma maneira diferente (do restante da população), em Salvador. Elas têm medo do espaço público, e não ocupam, porque o local delas é o privado”, inicia ele.

Para Nascimento, isso é uma característica local. “É uma coisa muito marcante e característica de Salvador. Note que no Rio as elites ocupam os espaços da rua. O morador de Laranjeiras (Rio), por exemplo, desce e frequenta as ruas do bairro - anda na rua, faz compras, vai aos bares, aos eventos no bairro. É diferente do morador da Graça, que tipicamente não vai em nenhum tipo de evento na rua. Se bem que nem tem eventos desse tipo, e se tivesse ele não compareceria. A rua, em Salvador, é o espaço do povo, não é das elites. As elites se protegem através de muros, visíveis e invisíveis, inclusive no Carnaval", complementa.

Mas, para além dessa análise causal do fenômeno, há um componente criminal que é relativamente novo: as facções criminosas estão estendendo seus domínios locais para esses pontos de encontro - historicamente demarcados -, ainda que a grande maioria das pessoas que os frequenta hoje não tenha nenhuma relação com a criminalidade.

A explicação é de policiais militares que há muito trabalham no Carnaval, e que garantem que a corporação tem consciência de quais locais cada facção ocupa. À Secretaria da Segurança Pública (SSP) perguntamos se a inteligência da polícia tinha ciência da existência desses pontos de encontro, e se a informação poderia ser divulgada (onde fica cada bairro), mas a assessoria informou que são informações mantidas em sigilo e usadas de forma estratégica. Ou seja, sim, a polícia monitora esses locais.

Áreas dominadas
Um dos PMs, de cabeça, listou alguns dos espaços que os bandos dominam. O Comando da Paz (CP), por exemplo, domina parte da região próxima ao Relógio de São Pedro. Já o Bonde do Maluco (BDM) está presente no São Bento, na Rua Escravo Miguel, em Ondina, também conhecida como Beco da Ribeira (por ser um ponto de encontro histórico de moradores da Cidade Baixa), e na Avenida Oceânica, nas imediações do praticável do SBT - neste caso, a maior parte de Paripe. Ramificação do BDM, o Bonde do Ajeita está na área próxima ao Beco Maria Paz, entre a Carlos Gomes e a Avenida Sete. Já a Katiara marca território na região das Mercês. Em outros pontos também há a presença da Caveira.

Mas devo explicar que foi por acaso, e de última hora, que esse texto transgrediu para o lado baixo astral da festa. Começou quando percebi que, ao perguntar na fanpage do CORREIO “em que ponto do circuito a galera do seu bairro costuma se reunir no Carnaval?”, boa parte das respostas veio sugerindo que estávamos falando em gangues, bandos, quadrilhas.

“Papo de facção não, né, Correio”, foi um dos comentários, seguido de outros cinco sugerindo que a pergunta tinha essa conotação diversa.

Mas, enfim, já que deram a dica, tentemos entender um pouco mais a situação. Perguntei a outros PMs como é a convivência entre os bandos: há pacto de não agressão, já que em muitos casos as quadrilhas parasitam em territórios vizinhos? Para um, sim, há uma espécie de armistício natural: é uma guerra que não interessa a nenhum dos lados. Isso até explica um pouco a redução das brigas entre bairros, na opinião dele. De acordo com outro, não há acordo algum e "se uma passa pelo território da outra, o pau quebra". "Não tem essa", reforça.

Sobre rixas entre bairros, são situações mais antigas. “Sussuarana Velha e Nova tinham rixa com o pessoal da Saramandaia e Pernambués, mas também tinham brigas entre si. Então era assim: tinha confusão entre as Sussuaranas, mas quando vinha a galera de outro bairro, elas se uniam. Mesma coisa Pernambués e Saramandaia. Mas isso era antes dessa história de facção”, comenta um dos PMs.

Há também, segundo outro policial, pontos em que gangues menos organizadas - não necessariamente ligadas a facções - se concentram. “No posto de gasolina em frente ao Othon Palace tem uma concentração de lanceiros (pessoas que cometem furtos) da Cidade Baixa”, exemplifica.

Vamos falar de coisa boa
Mas também tem gente que sempre curtiu o Carnaval nesses pontos, e que inclusive 'representou' na postagem do Facebook. “Não, antes de falarem em facção, já existia pontos dos bairros. Engomadeirenses ficam no Forte e São Bento”, defendeu uma moradora da Engomadeira. Outra internauta reforçou:

“Minha galera se reúne no posto de combustível da Ondina, onde todos se divertem e, graças a Deus, nunca teve nada, até porque nós somos de paz”.

Feita a divisão das águas, uma primeira boa história desses pontos de encontro me conta o professor Rivaldo Sousa, 34 anos, que hoje mora em Portugal, onde faz mestrado em Matemática. Em Salvador, sua quebrada era o Luís Anselmo, de onde ele descia com a galera, todo ano, para o mesmo bate-canal: o Morro do Gato, na transição entre a Barra e a Ondina.

Num desses carnavais, estava ele lá com a turma e avistaram uma criança atordoada. "Havia se perdido da mãe. Um amigo e eu cuidamos dela até que a mãe aparecesse (e apareceu). Depois de um certo tempo, entrei em uma academia e fiz amizade com o instrutor que convidou-me para o seu aniversário". 

Bom, a primeira parte da história já é bacaninha, com o reencontro de mainha e filhinha, e tal. Mas não há nada que não esteja bom que não possa melhorar… "Quando chegamos no aniversário, descobrimos que a mãe do instrutor era a mãe da menina que havia se perdido.
E a menina era a irmã dele". Festa dentro da festa.

Já subiu um pouco o astral, mas vamos pra mais uma. Essa é resenha até hoje entre parentes e amigos do auxiliar de cozinha Ticlas Torres, 27, morador de Alto de Coutos. “A galera se concentrava no Relógio de São Pedro. Daí veio um primo meu que morava no interior. Só veio curtir o Carnaval. E ele estava ficando na casa da minha tia, em outro bairro, não me recordo o nome. E pra ele ir até esse bairro tinha que pegar o ônibus Sete Portas. Daí curtimos o Carnaval, deixei ele no ponto, isso 6h da manhã. Quando foi meio-dia ele me liga falando que o ônibus de sete portas ainda não havia passado. Só passou ônibus de duas portas. Fiquei rindo uns três dias”, relembra ele, citando o primo Fábio Júnior, de Alagoinhas, “menino matuto” que sofre até hoje com a zoeira.

Pra terminar, uma versão carnavalesca e tronxa de Romeu e Julieta, na garganta do universitário Márcio Santos, 33. Morador de Pernambués, tinha avistado uma paquera de Sussuarana no flanco oposto. Diz ele, a richa entre os bairros era das grandes, e meio que todo mundo sabia quem era, ou quem não era, da área. Soube ele, no dia, que o ex da jovem estava no local, sabia do flerte dele com a moça, e o marcou: “Eu vi na hora que parecia que ele tava dizendo pra uns caras: ‘é aquele sacana ali’”. 

Medo? Que nada. “Com a cachaça na cabeça, tomei coragem, e pensei num plano pra se aproximar”, relembra. Pediu a camisa de um primo, amarrou a sua na cabeça e esperou um tempo, até os rivais o esquecerem. Depois, esperou a moça - que ainda não tinha visto ele por lá - ir ao banheiro, e foi ao encontro dela. “Quando me viu, ela deu um pinote, achando que o ex tava atrás. Eu colei nela, disse pra relaxar, dei uns beijinhos e me saí”. Bom, na verdade, não foi um desfecho muito Romeu e Julieta, mas pelo menos não teve morte. “Depois (dos pegas), ela voltou pra galera dela e ficou o resto da noite com o cara (ex-namorado). Mas aí eu já tinha chupado, né, pai?” É, né? Parabéns, campeão!

Confira alguns dos pontos de encontro de bairros (com ou sem domínio das facções) na folia:

  • Alto de Coutos - Relógio de São Pedro
  • Cabula - São Bento
  • Engenho Velho de Brotas - Orixás Center
  • Engomadeira - Forte de São Pedro e São Bento
  • Garcia (final de linha) - Ondina
  • Liberdade - Hotel da Bahia, Campo Grande
  • Luís Anselmo - Morro do Gato
  • Marechal Rondon - Livraria Vozes, Carlos Gomes
  • Paripe - Barra, próximo ao Barra Center
  • Pirajá - Livraria Vozes, do outro lado da rua
  • São Caetano, Capelinha e Fazenda Grande - Clube de Engenharia, Carlos Gomes, e Beco Maria Paz, em frente à Caixa Cultural
  • Sussuarana Velha e Nova - Insinuante, Carlos Gomes
  • Simões Filho - Piedade