Flávia Azevedo: Danilo Gentili e o estupro remoto

Flávia Azevedo: Danilo Gentili e o estupro remoto

O macho recebe uma correspondência. Abre o envelope. Cobre, com as mãos, algumas letras da parava "deputada", fantasiando que seja uma "puta", a remetente. Em seguida, rasga o papel enviado pela "puta". Todos os pequenos pedaços são colocados dentro da calça, esfregados no pau, no saco, nos pentelhos.

Na sequência, o macho junta as partes de papel (e fala do cheiro que eles levam), coloca num envelope e manda de volta para a remetente com a recomendação de que enfie tudo na bunda. Que deve estar bem aberta, ele ressalta. Parece a cena de um psicopata, num filme qualquer. Mas, não. É, apenas, a forma que uma pessoa pública responde a uma notificação. E ele mesmo divulgou esse jeito que escolheu para "dar uma lição" na mulher que ousou incomodar. E ele tem orgulho disso.

Há muitas coisas ali. Uma mulher não pode ser deputada. Que ousadia ter esse poder! É puta, isso sim. E ser puta é indigno, na opinião dele. O pau dele é uma arma cujo cheiro, impregnado nas folhas de papel, é ameaçador. "Cheire meu pau, chupe meu pau, vou enfiar na sua bunda". É isso que ele quer dizer. Um estupro remoto, um macho resolvendo as coisas do jeitinho que aprendeu a fazer quando, do outro lado, está uma mulher. Usando a sua "arma pau" pra dominar, subjugar, humilhar a fêmea. Um "estupro educativo".

Fantasia grotesca. Usual. Comum. Doente. Danilo Gentili é, apenas, isso. Mais do mesmo. Nenhuma novidade. Há pencas de Danilos por aí. Não são polêmicos, não são corajosos. São apenas sintomas com pernas e braços, são a nossa doença explícita, aceita, naturalizada. A violência deles num mundo que ainda diz que feminismo é "mimimi". Nada especial. É mais um macho que transforma qualquer embate, com qualquer fêmea, em questão de gênero.

Basta ser uma mulher do outro lado para que picas, sacos e adjetivos sexuais entrem em cena. Basta ser uma mulher para que todas a questões da sexualidade mal resolvida desse tipo de machinho tomem a dianteira, guiem as palavras, os atos, conduzam espetáculos vexaminosos como esse que podemos ver no vídeo tão comentado, nesta semana.

Assim como o cara que grava a transa com a moça e divulga na internet, Danilo não entende que a vergonha é dele. É ele quem se humilha, se degrada, expõe a fraqueza imensa do macho que não entendeu nada. Ainda. E já era tempo. Danilo segue, como tantos, tropeçando no próprio pau, pensando com a cabeça de baixo, sendo essa coisa amorfa e vazia que não interessa a ninguém.

A deputada não tem medo do seu pau. Nem a puta tem medo do seu pau. Pau não mete mais medo, pau não é mais poder. Somos putas, deputadas, mães, eletricistas, presidentas, pilotas de avião e continuaremos sendo a porra toda que a gente quiser. Não tem mais volta, não importa quantas melecas você coma atrás da porta do seu quarto. Não importa quantas unhas você destrua entre os dentes. Não importa quantas punhetas você bata pensando na mulher que você odeia. Não importa quantos quilos de papel você esfregue no seu pau, no seu saco, na sua impotência transformada em ódio. Acabou. A vergonha é sua que não consegue ser, sequer, um adversário à nossa altura. Como merecemos. Alguém que, minimamente, consiga se expressar usando o cérebro em vez do órgão genital.

* Flavia Azevedo é produtora e mãe de Leo