Horacio Nelson Hastenreiter Filho: Dois é muito

Horacio Nelson Hastenreiter Filho: Dois é muito

Mesmo aqueles pouco afeitos ao mundo da Tecnologia da Informação já ouviram falar do bit. O bit é a menor unidade de informação, correspondendo a um entre dois estados possíveis: 0 ou 1. Para representarmos digitalmente a imagem de uma pessoa, com realismo, dando conta de aspectos como profundidade e sombras são necessários alguns milhões dessas unidades informacionais. Cerca de 16,8 milhões apenas para garantir o fotorrealismo das sombras. Se a representação precisa da aparência de um ser humano é tão complexa, o que dizer da sua forma de pensar?

As trajetórias únicas de vida de cada pessoa, aliadas aos seus milhares de genes e bilhões de neurônios determinam condições tão distintas e particulares que nos permitem reconhecer a individualidade de cada um dos habitantes desse planeta, entre os mais de sete bilhões que o povoam atualmente.

A polarização política que tomou conta do país nos últimos anos, no entanto, vem sendo capaz de reduzir toda essa possível diversidade a apenas dois grupos. De um lado, os esquerdistas petistas desenvolvimentistas, também reconhecidos pelo outro grupo como esquerdopatas petralhas de mentalidade parasito-estatizante e, do outro, os conservadores direitistas liberais, identificados, também pelo grupo que os opõem, como coxinhas golpistas socialmente insensíveis.

Pelo estereótipo criado de um grupo em relação ao outro, aqueles que se situam à esquerda são vistos pelos opositores como defensores irrestritos do Partido dos Trabalhadores, dos regimes cubano e venezuelano, do comunismo e inimigos da produtividade. No sentido inverso, a direita é rotulada, invariavelmente, como tucana, americanófila, avessa aos pobres e aos direitos sociais, misógina, homofóbica e racista.

Não há como se negar correlações entre preferências e grupos, entretanto, juntar todas as opiniões na forma de um pacote único, além de um simplismo boçal, impede que avancemos em relação ao que poderia se identificar de denominador comum entre membros que estão nos diferentes lados. Se é mais comum na esquerda, uma maior simpatia com o legado educacional e de saúde do regime castrista, não faltarão, nesse grupo, aqueles que não se sentem confortáveis com a falta de democracia na Ilha. Já, do outro lado, há aqueles que admiram a democracia americana, sem deixar de reconhecer exageros do imperialismo, recriminando o caráter exageradamente ubíquo do seu intervencionismo.

A arrogância, presente em membros dos dois grupos que se situam em polos opostos na preferência política no cenário nacional, antecipa, simplifica e estereotipa a forma de pensar daqueles que se identificam melhor com o grupo oposto. Para esses, o bit, com seus dois estados, é farto em sua capacidade de representar. Unem-se e cabem no singular conjunto daqueles que não podem suportar a forma diferente de pensar do outro, a qual se manifesta, como apenas mais uma forma de intolerância com a diferença, juntando-se à religiosa, futebolística, sexual, racial, dentre tantas outras. A razão que os impele contra os outros é o ódio. O motivo é aquele que tiver mais à mão.

* Horacio Nelson Hastenreiter Filho é professor e diretor da Escola de Administração da Ufba