Óleo de peroba é artigo de luxo para os cartolas

Óleo de peroba é artigo de luxo para os cartolas

Se cinismo fosse crime, não faltariam condenados no Fifagate, escândalo de corrupção envolvendo cartolas da Fifa e de confederações de diversos países, incluindo o Brasil. Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, considera uma “covardia” a delação do dono da empresa de marketing esportivo Traffic, J. Hawilla, que disse anteontem em seu último depoimento na Suprema Corte do Brooklyn, em Nova York, ter pago cerca de US$ 10 milhões somente ao ex-dirigente.

Além disso, o acordo de corrupção feito com Ricardo Teixeira exigia que a Seleção Brasileira levasse os principais jogadores para os torneios. Mas o advogado do ex-presidente da CBF, Michel Assef Filho, em entrevista ao Estadão, bradou que “Ricardo nega veementemente as acusações”.

O mesmo fez a CBF lá em 2015, quando o jornalista Jamil Chade denunciou o esquema na convocação dos jogadores da Seleção. Em comunicado consternado, o posicionamento da confederação foi de repudiar “com veemência, tais insinuações maliciosas”. Ainda afirmou que a matéria era “ridícula e infantil” e fruto de uma “necessidade do jornalista Jamil Chade de buscar a notícia fácil, que gera escândalos”. Acho que o jogo virou, não é mesmo?

Já Kleber Leite, dono da empresa de marketing esportivo Klefer, também delatado por Hawilla, foi mais além. Chamou os áudios em que foi gravado de “atentado à democracia” em entrevista ao UOL Esporte. Talvez, para ele, democrático mesmo seja pagar US$ 900 mil  em propina para José Maria Marin, também ex-presidente da CBF, que o dedurou a J. Hawilla pelo calote no pagamento do montante.

E se você pensa que o descaramento dessa corja para por aí, é porque não viu o sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2018. O atual presidente da CBF foi o único presidente de uma confederação do esporte a não estar presente no evento que aconteceu na última sexta-feira, em Moscou, na Rússia.

Todo mundo sabe que se colocar os pés fora das fronteiras brasileiras, Del Nero pode ser preso pelo FBI pelas acusações de corrupção na Justiça americana. Porém, ele alegou que não foi para poder continuar seu trabalho na CBF. Alguma dúvida que depois dessa ele ganha a foto de funcionário do mês? 

Em outubro, por sinal, o mandatário ironizou ao ser questionado sobre a ausência nas viagens da Seleção. “Está tão bom comigo aqui e o Brasil ganhando, estou pensando se devo ir (à Copa do Mundo). Se eu for e o Brasil perder, vão dizer que sou pé-frio”. 

Se já não nos bastasse ver o nosso futebol envolvido nessa lama de roubalheira e descobrir os valores impensáveis que movimentam essa corrupção, temos que aguentar a cara de pau dessas pessoas. Eles, que se fartaram de dinheiro de propina, agora riem da nossa cara subestimando a nossa inteligência com argumentos pífios. Não se esforçam nem para nos engambelar. A tranquilidade na impunidade é tão grande que basta negar “veementemente” aqui e ali está tudo certo.

O mínimo que deveriam ter, para além da punição criminal, que eu espero que não tarde a chegar, era alguma vergonha nas já enrugadas faces. Mas aí é pedir demais de cartolas que suprimiram de seus dicionários palavras como honestidade, dignidade e consciência.  

Miro Palma é subeditor de Esporte e escreve às quartas-feiras