Orquestra alemã celebra a obra de Walter Smetak em concerto no TCA

Vida
04.07.2017, 07:50:00
Atualizado: 04.07.2017, 08:11:22

Orquestra alemã celebra a obra de Walter Smetak em concerto no TCA

Apresentação integra o projeto Reinventando Smetak, que inclui exibição de documentário e bate-papo gratuito nesta terça (4)

Construir instrumentos musicais com materiais inusitados como tubo de PVC, isopor e cabaça foi apenas uma das inúmeras facetas de Walter Smetak (1913-1984), violoncelista, compositor, escultor e escritor suíço que morou na Bahia por mais de 30 anos, até o fim de sua vida. Consagrado como um dos grandes nomes da música experimental brasileira, o multiartista, que era conhecido por seu lado inventivo, tem sua obra revisitada no projeto Reinventando Smetak, que acontece nesta terça (4) e quarta (5), em dois espaços de Salvador.

A programação começa com a exibição do documentário O Alquimista do Som (1978), no Goethe-Institut, no Corredor da Vitória, seguido de bate-papo gratuito com o diretor Walter Lima e músicos influenciados pelo trabalho de Smetak (confira detalhes no final da matéria). Já na quarta (5), às 19h, será realizado o concerto da orquestra alemã Ensemble Modern, no Teatro Castro Alves, no Campo Grande, com ingressos a preços populares (R$ 4 | R$ 2).

Orquestra Ensemble Modern, da Alemanha, realiza concerto inspirado na obra e nos instrumentos do músico suíço Walter Smetak (1913-1984), radicado na Bahia por mais de 30 anos (Foto: Kai Bienert/Divulgação)


Ápice do projeto, a apresentação única que chega a Salvador já passou por Berlim e Frankfurt, na Alemanha, pelo Rio  e segue para São Paulo dia 12. A  Ensemble Modern interpreta peças inéditas criadas por compositores contemporâneos que têm como inspiração a obra de Smetak. A apresentação utiliza réplicas e instrumentos originais do artista, batizados de plásticas sonoras, que podem ser vistos em exposição permanente do Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho.

“O grande legado de Smetak é, a meu ver, a contribuição para a abertura e sempre reabertura da ideia de música e do que ela pode ser. As plásticas sonoras são isso: ruptura e continuidade, a um só tempo, de uma concepção tradicional de instrumento musical”, acredita o compositor baiano Paulo Rios Filho, 32 anos, que integra o quarteto de compositores convidados para o projeto e assina a música Volvere.

Ao lado de Paulo, estão a australiana Liza Lim e os brasileiros Arthur Kampela e Daniel Moreira, radicados nos Estados Unidos e na Alemanha, respectivamente. Juntos, os três fizeram uma residência artística no Goethe-Institut, em julho do ano passado, para mergulhar no universo do homenageado. Dessa forma, suas composições traduzem as pesquisas microtonais de Smetak, inspiradas pelo espiritualismo da teosofia e pela improvisação em grupo.

“Smetak nos revigora com sua visão de que instrumentos musicais contêm poderes cósmicos, trazendo conceitos indígenas e orientais para uma prática de arte contemporânea no Ocidente”, reflete Liza Lim, 50. “Instrumentos não são apenas objetos inertes e fazer arte não é algo decorativo ou apenas entretenimento: são ferramentas para nos mostrar nossa interconexão essencial com todas as coisas”, completa.

Criativo
Em cooperação com o Goethe-Institut, o Reinventando Smetak é um projeto do Programa Artistas-em-Berlim do Deutscher Akademischer Austauschdienst (DAAD), maior organização alemã no campo de intercâmbio acadêmico. Patrocinado pela Fundação Cultural Federal da Alemanha, o projeto busca trazer à tona o legado de Smetak, definido pela Ensemble Modern, em seu site, como “uma das figuras esquecidas da história da música da Europa”.

Instrumentos do universo Smetak usam materiais como bambu, cabaça e plástico
(Foto: Jorg Baumann/Divulgação)


“O trabalho da Ensemble Modern é maravilhoso e traz Smetak a um lugar de visibilidade internacional, num diálogo inédito - com instrumentos tradicionais - em obras compostas por quatro excelentes compositores especialmente para essa formação. Genial!”, comemora o filho caçula de Smetak, o músico Uibitu Smetak, 46 anos, que participa hoje do bate-papo no Goethe-Institut.

Um dos compositores convidados, Arthur Kampela ressalta que sua obra chamada Tak…Tak-Tak..., responsável por abrir o concerto, dialoga com a estética smetakiana em diferentes momentos. Seja quando toca os borés - que são instrumentos de sopro de influência indígena, feitos de madeira ou tubos de PVC com cabaças amplificando suas pontas-, seja quando toca o cretino, instrumento de sopro de som similar a um trompete que é feito com um tubo de plástico ligado a um funil e soprado na extremidade oposta por um bocal de trompete.

“Sabiamente, com a encomenda das obras e a presença do Ensemble Modern, o projeto ganha forma dinâmica, pois expõe o ‘Ethos smetakiano’ enquanto repensado e prolongado no ‘liquidificador criativo’ de cada compositor. Só assim a visibilidade dos instrumentos de Smetak vem à tona repotencializada, pois se confronta e dialoga com algumas das novas tendências estéticas da música contemporânea”, destaca  Kampela.

O compositor Paulo Rios Filho reforça que essa é uma homenagem “a partir da mente criativa de quatro sujeitos que, dessa forma, passam a reinventar a figura do Smetak, a partir de seus próprios filtros”. “Poderia ser ‘redescobrindo’, ‘revisitando’ Smetak. Isso também seria ótimo. O importante é preservar, divulgar e desenvolver sua obra tão interessante e importante para a cultura brasileira”, finaliza.

Improvisação em grupo era uma das características da obra de Smetak (à direita)
(Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)


Projeto inclui exibição de filme e bate-papo
O projeto Reinventando Smetak mergulha na obra do homenageado não só através da música. A programação começa hoje, às 19h, no Goethe-Institut, com a exibição do documentário O Alquimista do Som (1978), do cineasta Walter Lima, e inclui um bate-papo com participação do próprio diretor e de músicos influenciados pela obra de Walter Smetak.

São eles o compositor, escritor e professor Paulo Costa Lima, membro da Academia Brasileira de Música e da Academia de Letras da Bahia; o músico Uibitu Smetak; o músico e pesquisador Bira Reis; e o músico, cantor e compositor Tuzé de Abreu. O evento gratuito é mediado pela coreógrafa, diretora e vice-diretora da Escola de Dança da Ufba, Carmen Paternostro.

“Acredito que minha participação deverá ser basicamente de depoimentos e inferências de modo a tentar clarear não apenas as informações sobre o homem Smetak e sua obra, mas as possibilidades de realizações de trabalhos a partir deles. Smetak certa vez disse, seriamente, a um grupo de compositores: ‘Eu estou 50 anos na frente’”, conta Tuzé.

Uibitu, por outro lado, vai levantar questões sobre a espiritualidade de Smetak, tão presente em sua obra e na vida do caçula. “Trago minha experiência de filho, não de discípulo, pois ele partiu cedo, tivemos só 13 anos juntos. Mas foi tempo suficiente para ter muito dele em mim. A imagem paterna de Smetak é muito forte para todos nós, filhos”, conta Uibitu.

Nascido em Zurique, na Suíça, Walter Smetak chegou ao Brasil no final da década de 1930 e foi convidado pelo compositor alemão Hans- Joachim Koellreutter (1915- 2005), já nos anos 50, para integrar os seminários Livres de Música que deram origem à Escola de Música da Ufba.

Na Bahia, iniciou as pesquisas microtonais inspiradas pela teosofia, construiu 150 instrumentos musicais, suas “plásticas sonoras”, escreveu três peças de teatro e mais de 30 livros. Precursor da contracultura, teve disco produzido por Caetano Veloso e chegou a influenciar o movimento da Tropicália.

“O projeto Reinventando Smetak tem grande relevância porque procura levar adiante uma das mais interessantes, férteis e originais fontes de propostas novas para o desenvolvimento da arte sonora”, elogia Tuzé. “Smetak é um vulcão que entrou em erupção, para nossa sorte, aqui na Bahia”, completa.