Pai na adolescência, Wallace já foi vendedor e vai lançar documentário

e.c. vitória
13.09.2017, 04:57:00
Atualizado: 13.09.2017, 06:47:28
Wallace e o filho, Lucas, que nasceu quando o jogador tinha apenas 17 anos (Maurícia da Matta/ EC Vitória)

Pai na adolescência, Wallace já foi vendedor e vai lançar documentário

Conheça a história de vida do zagueiro Wallace, capitão do Vitória

“Minha vida é bem normal. É muito devagar, não tem nada de interessante”. O resumo de Wallace sobre sua própria história de vida é um fiasco. O zagueiro do Vitória contraria todos os estereótipos que atribuídos a jogadores de futebol. Anda com uma mochila carregada de livros, tem pavor a seguir modinhas e, ainda por cima, tem “espírito de velho”, como ele mesmo diz. Pai na adolescência, Wallace ralou para chegar no auge da carreira, trabalhou como vendedor de roupas para completar e renda e, agora, se prepara para lançar um documentário. Senta que vai ter textão.

Nascido em Conceição do Coité, a 211km de Salvador, Wallace, 29 anos, aprendeu cedo a se virar sozinho – e mostrou ser bom nisso. Quando tinha 11 anos, chegou à Toca do Leão para realizar o sonho de ser jogador profissional. Mas foi seis anos depois que ele teve sua maior prova de fogo. Com 17 anos, Wallace começou a namorar com Géssica. Os dois eram virgens quando resolveram ter a primeira noite de amor, que gera frutos até hoje. Ou melhor, fruto: Lucas, de 12 anos.

“Foi um período bem difícil. Ela engravidou na nossa primeira vez, os dois ainda eram virgens. E nessa época (2005) o Vitória estava rebaixado, com seis meses de salário atrasado. Eu decidi trabalhar como vendedor de roupas. Treinava pela manhã e no começo da noite saía com minha esposa pelos bairros para vender roupas que trazíamos do interior. Ficamos assim uns dois anos para complementar a renda. Na época eu ganhava menos de um salário mínimo. Minha renda era uns R$ 350, além dos vales, que dava R$ 150. Tinha que me manter com isso, montar enxoval da criança, fralda, pré-natal”, lembra.

O talento que tem com os pés, ele admite que não tinha como vendedor. “Eu era péssimo! Eu sou péssimo em vendas até hoje. Já levei vários calotes por ser péssimo cobrador. Minha sorte foi ter amigos, como Anderson Martins, Tiago Neiva, Neto Coruja e David Luiz. Mas eu não vejo isso como sofrimento, de forma nenhuma. Foi uma experiência bem legal até”.

Lucas não foi planejado, e Wallace admite isso sem problema. “Ninguém planeja ter filho com 17 anos. É impossível que alguém com sua sanidade mental em ordem planeje tão cedo. Criar filho é muito difícil. Não posso dizer que foi acidente, porque tinha camisinha, anticoncepcional, tudo. Não usamos porque não acreditamos que aconteceria com a gente. Era pra ser. Talvez Lucas tenha me feito amadurecer muito cedo. Eu já tinha espírito de velho, nem adiantou ser pai cedo (risos). Era uma criança cuidando de outra. E eu aprendi a gostar de criança por causa dele, porque eu detestava”, brinca o zagueiro que resume seu sentimento em relação ao seu jeitão ranzinza. “Por exemplo, Carnaval, show, eu não aguento. Meu melhor camarote é o sofá. Eu acho que nasci velho. Comecei a ser ranzinza com 10 anos”, ri ao contar.

Lucas, 12 anos, e Davi, 2 anos, são filhos do zagueiro Wallace (Foto: Arquivo Pessoal)

O paizão, que tem uma estante de mais de 150 livros em casa, estimula o filho mais velho a buscar informações sobre drogas e sexo na adolescência. “Somos quase irmãos. Eu tenho 29 anos e meu filho tem 12. Chega a ser estranho. E ele tem 1,78m, acham que é meu irmão. A gente briga muito, é normal por ser adolescente, mas somos parceiros”, completa Wallace, que também é pai de Davi, de dois anos.

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Wallace anda com revistas e livros na mochila (Foto:Maurícia da Matta/EC Vitória)

CDF DA TOCA
Desde muito cedo, Wallace mostrou gostos diferentes da maioria dos atletas. Enquanto os outros moleques passavam o tempo brincando ou jogando conversa fora, ele jogava xadrez e iniciava a paixão por livros, que dura até hoje. Ao abrir a mochila, mostrou que carrega um exemplar da revista Piauí, além de quatro livros: Programação Neurolinguística, Os Axiomas de Zurique, Crítica da Razão Pura e A Lei - Por que a Esquerda Não Funciona?.

Ironicamente, o gosto pela leitura surgiu graças ao futebol. “Quando eu era da base do Vitória, tinha um espaço com mais de mil livros, além de tabuleiros de xadrez, e eu criei muito gosto. Engraçado que a literatura entrou na minha vida por acaso. Eu pegava três ônibus para ir e voltar de Plataforma para o Barradão, aí um amigo me falou para eu pegar esse tempo inútil e ler alguma coisa. Eu tinha 15, 16 anos”, revela. “Aí ele me deu o livro ‘O homem que matou Getúlio’, do Jô (Soares). Gostei do primeiro capítulo, do segundo, e não parei mais. Era um livro muito bom, falava de anarquia. Jô inseria ícones da história nesses romances dele, só que eu não sabia bem quem era quem na época. Comecei a ler e entender quem era Al Capone, Mata Hari. Me apaixonei, é viciante”, conta ele, que engatou O Xangô de Baker Street, também de Jô Soares, e Carandiru, de Drauzio Varella.

O CDF de hoje, que não era bom aluno na época da escola, também se aventurou por livros de filosofia, história e economia. “Só não gosto de auto-ajuda. Tenho pavor. Uma vez encontrei escritores de auto-ajuda e, sem saber quem eles eram, dei uma paulada”, lembra, aos risos.

Wallace faz planos para o futuro e será autor de documentário (Foto: Maurícia da Matta/EC Vitória)

DOCUMENTÁRIO
Hoje, Wallace sonha em lançar o documentário “Pendurando Chuteiras”, que vai narrar a dificuldade de lidar com a aposentadoria no futebol. O projeto ainda não tem data para ser lançado.

“Sofri uma lesão e fiquei sem norte, aí tive esse estalo. Eu não sabia se ia voltar a jogar. Quero lançar o quanto antes. Vamos contar a história de uma pessoal real, acompanhar o dia a dia dela, mostrar como os jogadores não sabem lidar com o pós carreira. O primeiro mês aposentado é ótimo. No terceiro, o cara já surta. Você passa de herói a uma pessoa qualquer. A vida, de frenética, para a ser um marasmo. O cara pira”, explica.

Com seus livros e sonhos, Wallace quer mudar o pensamento preconceituoso de que jogador é tudo igual. “Infelizmente jogador de futebol tem que ser ignorante ou fingir que é. A própria torcida tende a usar isso contra o atleta no primeiro momento ruim. Estão acostumados com esse cenário de jogador que pouco se importa com o que acontece a sua volta. Sofro muito preconceito por ter esse meu jeito. As pessoas já acham que você só quer aparecer”, desabafa.

O zagueiro mantém um sonho: ter um diploma. Com segundo grau completo, ele começou a cursar Educação Física, mas trancou quando foi jogar na Turquia, em janeiro. Pretende concluir o curso e, quem sabe, fazer psicologia.