Panelaço e ato de 15 de março tiram sono do PT e põem governo em alerta

Panelaço e ato de 15 de março tiram sono do PT e põem governo em alerta

No momento em que o governo Dilma enfrenta a sua pior crise política, os partidos de oposição decidiram aderir à manifestação

Para boa parte dos brasileiros, o panelaço durante o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff sequer foi ouvido. Muitos souberam do protesto do domingo apenas na manhã de ontem, pela imprensa ou por meio das redes sociais. Mas o barulho tirou o sono no quartel-general do PT e deixou os gabinetes do Palácio do Planalto em estado de alerta, sobretudo pela proximidade com a manifestação nacional contra o governo marcada para 15 de março.

Panelaço e ato de 15 de março tiram sono do PT e põem governo em alerta
(Foto: Agência Brasil/Arquivo)

Ainda na madrugada de ontem, a direção nacional do PT entrou em campo para tentar minimizar a orquestra de panelas, vaias, xingamentos e buzinas realizada em pelo meno 12 capitais do país.

Entre elas, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília e Curitiba, onde o movimento teve maior proporção. Em nota, os petistas classificaram o ato como “orquestração com viés golpista” praticada pela alta classe média e financiada por “partidos de oposição”.

As declarações do PT foram feitas pelo secretário nacional de Comunicação do partido, José Américo Dias, e pelo vice-presidente, Alberto Cantalice. O texto foi publicado no site oficial da legenda por volta de 1h da madrugada, cerca de quatro horas após o pronunciamento de Dilma pelo Dia Internacional da Mulher, quando ela falou sobre ajuste fiscal e pediu compreensão e paciência dos brasileiros.

Cartaz em canteiro de obras da Avenida Paulista convoca população para ato contra Dilma no domingo
(Foto: J. Duran Machfee/Estadão Conteúdo)

Pela manhã, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, afirmou que o “panelaço” ocorreu em cidades e em bairros onde a petista perdeu as eleições “por uma grande diferença” e, em defesa da petista, disse que não há “terceiro turno” eleitoral.

“A primeira regra do sistema democrático é reconhecer o resultado das urnas. Só tem dois turnos, não tem terceiro turno. Nós vencemos pela quarta vez (as eleições)”, declarou Mercadante.

Gravidade

Mesmo com o discurso minimizador de lideranças do governo e do PT, membros do partido consideraram  o movimento “grave”. A avaliação de petistas é que o grupo contrário ao governo de Dilma já tem mobilização forte e organizada - a partir de São Paulo - e ganhou outras capitais. 

Panelaço e vaias em capitais tensionaram governo e petistas
(Foto: Marcelo D Sants/Estadão Conteúdo)

Para piorar, o movimento deixou a elite, conquistou as classes médias e pode chegar a outros setores, principalmente de eleitores petistas. Membros da cúpula do partido acharam ainda um erro atribuir a culpa à burguesia, ligar o protesto à oposição e ainda repetir o discurso de que os atos contra o governo, cada vez mais fortes, são um terceiro turno da eleição que reconduziu Dilma ao Planalto.

O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) afirmou que a reação ao pronunciamento da presidente demonstra a tensão existente no ambiente político. Para ele, a tarefa da legenda é tentar reverter o “processo de envenenamento” existente, marcado por um conteúdo “agressivo e irracional”.

Termômetro

Contudo, o temor da direção petista e do alto escalão do Planalto tem relação com o próximo domingo. Pela internet, comunidades e grupos antipetistas organizam, desde fevereiro, um movimento nacional para pedir o impeachment de Dilma. Mesmo com dificuldade em levar a cabo processo igual ao que destituiu Fernando Collor (PTB) em 1992, a tensão, que já existia, cresceu bastante após o panelaço.

Motivo há de sobra. Segundo a empresa de monitoramento Bites, pelo Twitter, os internautas comentaram mais o discurso presidencial da noite de domingo do que a lista de políticos da Lava Jato divulgada pelo Supremo Tribunal Federal na sexta-feira.

Na manhã de ontem, a empresa contabilizou 320 milhões de impressões contra a presidente e 286 milhões a favor.  O Scup, que também faz monitoramento das redes sociais, divulgou ontem balanço semelhante: entre a noite de domingo e o meio-dia da segunda-feira, 59,3% dos posts da rede eram negativos à presidente, que contou com 40,7% de apoio.

Depois do domingo na posição de vidraça, a presidente assumiu o papel de pedra. Na cerimônia de sanção à lei que torna o feminicídio crime hediondo, Dilma encampou o discurso antecipado por Mercadante e endossado por outros líderes petistas. 

Disse defender o direito de qualquer cidadão de se manifestar, mas afirmou que os protestos não podem ser violentos e que um “terceiro turno” não é motivo para pedido de impeachment, “a não ser que se queira uma ruptura democrática”. Pelo sim, pelo não, Dilma cumpriu seu roteiro para momentos de crise. Hoje, se reúne com o ex-presidente  Lula em São Paulo, em busca de saídas.

Partidos de oposição aderem ao ‘Fora, Dilma’

No momento em que o governo Dilma Rousseff enfrenta a sua pior crise política, os partidos de oposição decidiram aderir à manifestação marcada para o próximo domingo contra Dilma Rousseff. Uma das bandeiras dos manifestantes é o impeachment da presidente.

PSDB, DEM, PPS e Solidariedade, as principais legendas de oposição, vão dar suporte formal e informal aos atos programados para todo o país. “O Solidariedade participará com bandeiras, camisetas e três carros de som”, disse o deputado federal Paulinho da Força, que defende o impeachment.

A adesão formal ao impeachment foi pautada nos comandos do PSB, PSDB e PPS. Nos três casos, optou-se por apoiar os atos sem defender a proposta. “O PSDB não tem o impeachment em sua plataforma, mas isso é algo que pode acontecer. Estive com pessoas que integram três grupos: Vem pra Rua, Brasil Livre e Onda Azul. São movimentos com visões diferentes, mas há um denominador comum de que o discurso deve ser mais amplo do que só o ‘Fora, Dilma’. O protesto é contra o rumo do atual governo”, afirma o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).