Pior PIB per capita do país, cidade baiana sofre com seca e chuva

bahia
16.12.2017, 05:00:00
Atualizado: 17.12.2017, 18:17:56

Pior PIB per capita do país, cidade baiana sofre com seca e chuva

Numa das poucas vezes que choveu em 8 anos, Novo Triunfo registrou enchente
Novo Triunfo, no Nordeste baiano, tem a pior relação entre riqueza gerada e população (Foto: Reprodução/Facebook)

Uma cidade marcada pela agricultura familiar e pela cultura rural. Apesar de a situação não ser das melhores, os moradores de Novo Triunfo, município do Nordeste baiano que detém o título de pior PIB per capita do Brasil, dizem que costumavam viver bem. Porém, as boas descrições são de outros tempos. Há oito anos, a cidade sofre com a estiagem prolongada.

Com a mudança na paisagem, muitos moradores migraram para outros lugares em busca de novas condições de vida, enquanto outros têm que se sustentar apenas com o auxílio do Bolsa Família. Resultado disso: na quinta-feira (15), o município apareceu no último lugar de um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que relaciona a riqueza produzida pela cidade e o tamanho da população. Considerando o índice, é a mais pobre entre as 5.570 cidades do Brasil.

As principais culturas dos moradores de Novo Triunfo eram o feijão e o milho. Apesar de o dinheiro não ser muito, era suficiente para sustentar boa parte das famílias. Com o agravamento da seca na região, muitos deles migraram para cidades como São Paulo e Campinas (SP) para conseguir outras formas de sustento.  Alguns, no entanto, não se adaptaram a outras atividades e hoje têm vivem somente com o auxílio federal.

Há dois anos, a prefeitura vem construindo barragens para acumular a água das chuvas, que depois seria usada na irrigação durante os períodos de seca. Porém, segundo o secretário de Finanças do município, Joilson Carvalho de Matos, até agora não choveu na região o suficiente para encher os reservatórios. Ele reforçou que muitos tiveram que abandonar suas casas por causa da seca. Em setembro deste ano, a cidade teve estado de emergência decretado devido à estiagem.

“Muitas pessoas que buscam melhores condições de vida têm se mudado. A administração não tem conseguido atender às necessidades do município”, disse o secretário ao CORREIO.

Oito ou oitenta
Se a seca em Novo Triunfo já era motivo de preocupação, a chuva que atingiu a cidade em março deste ano, e que deveria ajudar a melhorar, piorou a situação do município. 

Chuva deixou parte da cidade destruída em março deste ano
Chuva deixou parte da cidade destruída em março deste ano (Foto: José Mário Varjão/Divulgação)
Chuva deixou parte da cidade destruída em março deste ano
Chuva deixou parte da cidade destruída em março deste ano (Foto: José Mário Varjão/Divulgação)

A cidade não estava preparada para receber as fortes chuvas, que deixaram casas alagadas e causaram problemas no calçamento. Segundo a secretária municipal de Assistência Social, Neilza de Santana Oliveira, as pessoas afetadas pelo temporal recebem hoje cestas básicas e auxílio com o pagamento de aluguel, das contas de água e de luz.

No final das contas, a quantidade de água até ajudou a melhorar um pouco a situação do campo, mas não chegou a encher as barragens e a crise hídrica permanece. Quanto à crise financeira, essa também piorou após a chuva. 

Os dez menores PIBs per capita do Brasil, segundo o IBGE (Arte: CORREIO Gráficos)

Sem a ajuda dos governos estadual e federal, parte da verba da cidade teve que ser utilizada para arcar com os custos da reconstrução de vias e outros equipamentos públicos. 

Com isso, a prefeitura, que antes empregava 800 pessoas, sendo 400 concursadas e 400 contratadas, teve que demitir 300 funcionários, que tinham sido admitidos com o objetivo de auxiliar financeiramente as famílias da cidade.

De acordo com o secretário municipal da Administração, Edcarlos Virgínio, uma reunião será marcada com o Governo do Estado e as secretarias da cidade para pensar formas de melhorar a situação de Novo Triunfo. 

“Está complicado. A notícia [do PIB per capita] saiu hoje. Vamos nos reunir para pensar em soluções”, comentou Virgínio.

Permanência
Diferente do que muitos fazem, a comerciante e enfermeira Carina Reis, 31 anos, não pensa e sair de Novo Triunfo. “Nasci e me criei nessa cidade de pessoas acolhedoras. Espero continuar morando e trabalhando aqui nas mesmas funções que exerço”, comenta. 

Segundo ela, apesar dos problemas causados pela chuva, a cidade já está reconstruída e está melhor do que no período chuvoso.

A pesquisa do IBGE foi realizada em 2015, mas divulgada só nesta quinta (14). Novo Triunfo gerou apenas R$ 3.369,79 de riqueza por habitante no ano da pesquisa. O PIB per capita brasileiro (ou seja, a média nacional) no mesmo ano foi de R$ 29,3 mil.

*Beatriz Oliveira é integrante da 12ª turma do Correio de Futuro.