Três mestres da pintura

Até 15 de outubro próximo os baianos poderão apreciar no Museu da Santa Casa de Misericórdia uma das mais tocantes exposições de arte já exibidas na Bahia, reunindo três grandes mestres da pintura: Prisciliano Silva, Alberto Valença e Mendonça Filho. Trata-se de uma exposição inédita, já que formada exclusivamente por obras de acervos particulares, desconhecidas do grande público. Em outras palavras não haverá a oportunidade de ver de novo. Outras obras dos três artistas podem ser apreciadas em separado, nos museus Costa Pinto e de Arte Moderna da Bahia, porém não são as que compõem a amostra referida.

Se me permitem o devaneio, Mendonça Filho e Prisciliano Silva tem um elo em comum na sua carreira artística, em que pese as diferenças de estilo e temática. O primeiro priorizou as marinhas, o segundo, interiores de claustros e igrejas e retratos de personalidades. Ambos, porém, enveredaram, nos primórdios de suas carreiras, pela caricatura: Mendonça Filho, pai do publicitário Duda Mendonça, chegou a ser agraciado com um prêmio no afamado concurso de cartazes de propaganda da Casa Harley, loja de sapatos finos, em 1919.

Prisciliano, por sua vez, assinava suas caricaturas com o pseudônimo de Baylon. Criou muitas, para capas e matérias ilustradas da revista O Papão, entre 1904 e 1905, propriedade do bacharel Simões Filho que anos depois fundaria o jornal A Tarde. Cito esta história a propósito de um enigmático quadro exibido na exposição do Museu da Santa Casa, de sua autoria, que evidencia os seios belos e firmes de uma mulher e que o artista assinou, por descuido, ou, por pudor, como Baylon, uma assinatura que na época representava o anonimato.

Vale a pena conferir na exposição também um outro quadro de Prisciliano Silva que mostra a Igreja da Sé, com a sua frente virada para o mar e onde ressalta o detalhe, a sensibilidade do artista que não considerou depreciativo e é um componente de sua visão vanguardista, de retratar um tipo humano incomum: um mendigo pedindo esmolas nas escadarias do templo. Obra, esta, de 1913.
Mendonça Filho, as suas obras expostas no Museu da Santa Casa são representativas da fase europeia e baiana, com destaque para as marinhas. “Antes de pertencer a Pancetti já era de Mendonça Filho o mar da Bahia”, lembrou Jorge Amado, certa feita, em entrevista a um jornal baiano. Chama a atenção a tela “Mariscada”, premiada no Festival do 2° Salão de Ala, em 1938 e no concurso promovido pelo jornal O Imparcial. Outra marinha exibida é a tela “Mar Grande” que Juarez Paraíso, em 1995, assim definiu: “Com o corte inusitado, a iluminação dramática das nuvens, puro pretexto para o exercício da abstração, para a construção da pintura com recursos plásticos”.

De Alberto Valença a exposição do Museu da Santa Casa de Misericórdia, oferece ao público dez telas, duas de seu olhar europeu, na Praça da Concôrdia em Paris e de uma paisagem das muitas que retratou na Bretanha, mais de trinta, expostas no seu retorno ao Brasil em 1928. A sua última marinha, datada de 1973, é outra das telas da exposição, inacabada. O artista já tinha às vistas comprometidas pela catarata, mas, nem por isso deixou de imprimir o seu estilo.

Outros quadros de Valença nos revelam imagens lúdicas de praias e sítios que se modificaram ao longo do tempo. Podemos nos deleitar, no traço do artista, com o Largo da Quitanda, como era em 1950, no seu “Casario de Itaparica”; com a Praia do Bogari antes da existência da Cabana do Bogari; a Igreja de Santo Antônio vista do Porto da Barra e ainda com a bela Marinha da praia de Ondina.