Vamos falar sobre divisão de base?

Vamos falar sobre divisão de base?

As divisões de base sempre foram as galinhas dos ovos de ouro dos clubes baianos. Historicamente, muitos jogadores formados nas categorias inferiores de Bahia e Vitória se tornaram a solução dos problemas financeiros da dupla. Talvez, por isso, torcedores dos dois lados tratam com carinho e exigência os garotos das canteiras tricolores e rubro-negras.

O principal objetivo da base é a formação de novos atletas. Lógico que o futebol é uma enorme peneira de pequenos buracos, onde poucos jogadores conseguem um lugar ao sol. O mercado, porém, força os clubes baianos a buscarem alternativas para qualificar seus elencos nas disputas das grandes competições. Neste caso, a formação também está atrelada, de certa forma, à conquista de títulos por parte dos garotos. Não basta ser bom: é preciso ser vencedor.

É bem verdade que temos grandes exemplos de times que não conquistaram títulos, mas que revelaram talentos mundiais. O Vitória de Dida, Vampeta, Paulo Isidoro e Alex Alves, semifinalista da Copa São Paulo de 1993, é uma boa referência. O Bahia, porém, foi finalista da Copinha em 2011 e não conseguiu emplacar ninguém no profissional do tricolor – talvez Madson, mas essa é uma longa discussão.

O segundo exemplo, dentro de um futebol moderno e muito mais competitivo, é a tendência dos últimos anos no Brasil. Ser competitivo desde as categorias de base conta ponto no currículo. É preciso mostrar potencial técnico, tático e também psicológico para sobreviver no mercado. Espírito vencedor é fundamental.

O Vitória, que viveu um ano de 2017 ruim no profissional, se reestruturou nas divisões de base. Talvez o único legado de Sinval Vieira em sua rápida passagem pelo rubro-negro foi recomeçar a sua “fábrica de talentos” praticamente do zero. Ainda levará tempo para o torcedor perceber garotos brilhando na equipe principal, mas os resultados nas categorias inferiores estão ajudando a formar uma mentalidade vencedora na meninada. O Leão conquistou praticamente tudo o que era possível em nível estadual, deixando seu maior rival no retrovisor.

O Bahia viveu temporada inversa. Qualificando cada vez mais o futebol profissional, tornando-se até referência no Brasil, o tricolor não teve o mesmo sucesso na base. Ainda não é possível mensurar se a canalização das energias na equipe principal fez com que as camadas inferiores perdessem força ao longo dos últimos anos, mas é fato que o clube não vive seus melhores momentos quando se fala na garotada. E as vendas de Jean, Rômulo e Juninho Capixaba, crias do Fazendão, não servem para atenuar um fracasso, já que ambos pertencem a uma geração que foi forjada longe da atual administração da base. O Bahia fracassou nas principais competições que disputou em 2017, e isso é algo que já parece bem claro para o presidente Guilherme Bellintani.

Ganhar ou perder faz parte do jogo. Nas divisões de base, a derrota também pode trazer lições para os atletas. Por muitas vezes é até necessária. Porém, elas também precisam servir de lição para os dirigentes. De que forma essas derrotas acontecem? Os atletas estão sendo bem preparados em todos os níveis? Existe um modelo de administração definido? A base é parte da macrogestão do futebol ou é tratada com um apêndice que, vez ou outra, pode ser lucrativa? São perguntas que precisam ser respondidas pelos nossos cartolas.

Elton Serra é jornalista e escreve aos domingos.