Victor Uchôa: O legado que sobrou da Olimpíada

Victor Uchôa: O legado que sobrou da Olimpíada

No meio de tantas maracutaias, denúncias, grampos e delações, ninguém deu muita atenção a uma decisão relacionada ao esporte que foi tomada esta semana pela Câmara dos Deputados, cujos membros foram eleitos por nós, aparentemente, somente para negociar interesses próprios.

Na noite de quarta-feira, com 219 votos a favor, 75 contrários e 4 abstenções, os parlamentares aprovaram a Medida Provisória que cria a Autoridade de Governança do Legado Olímpico (Aglo), que funcionará até junho de 2019.

Se o Google não estiver enganado, os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro terminaram no dia 21 de agosto do ano passado. Daí, vejamos: quase um ano depois, o governo cria um órgão só para administrar os equipamentos e o dinheiro que ficaram da Olimpíada e da Paralimpíada. 

Este órgão vai precisar de mais dois anos para fazer sabe-se lá o que com o tal legado. E este mesmo órgão terá 65 cargos comissionados e mais 30 funções de confiança para abrigar, claro, indicados pelos políticos, consumindo milhões e milhões dos cofres de um país em crise econômica. Eles não tem um pingo de vergonha. 

Do ponto de vista de como esta Aglo vai atuar, um detalhe é bastante sugestivo: o órgão não tem obrigação de realizar licitação para definir, por exemplo, qual empresa vai ficar responsável por um equipamento construído para a Olimpíada.

Calejado que anda ultimamente, caro leitor ou bela leitora, você provavelmente já sabe que é assim que se costuram as mutretas: um endinheirado esperto vem de lá, molha a mão dos políticos, fica com a gestão de uma dessas arenas sem nenhum processo licitatório e depois, quando estiver lucrando com arenas erguidas com dinheiro público, segue molhando a mão dos políticos para manter o esquema. É cíclico.  

Nessa votação da Câmara, há de se reparar o seguinte: de 513 deputados e deputadas, somente 298 participaram. Ou seja, 215 parlamentares pagos com nosso dinheiro estavam fazendo coisa melhor – talvez jantando com o presidente (?) Michel Temer. Vai saber.

Agora, a Medida Provisória vai para o Senado, onde também deve ser aprovada. Este é o legado olímpico que nos sobrou.

Vesgo expresso
A via expressa que vai ligar a Avenida Paralela ao estádio Barradão, em Canabrava, ainda não tem data para ser inaugurada. O governo do estado garante que será “este ano”, então basta olhar para o calendário que veremos quão vaga é tal afirmação.

A única coisa definida (a menos que mudem de ideia) é que a via será batizada como Avenida Mário Sérgio, em homenagem ao ex-jogador e ex-treinador rubro-negro, morto na tragédia aérea da Chapecoense, no ano passado. Nada mais justo.

Quem viu Mário Sérgio jogar bate pé que seu talento e sua inventividade transbordavam. Mais ainda: não se submetia a dirigentes que só faziam atrapalhar – ainda há muitos, inclusive no Vitória.  

Ao batizar uma avenida, o “vesgo” Mário Sergio mais uma vez antevê a jogada, mesmo já estando fora de campo (e de plano). Até que cheguem os carros, a via expressa é toda dele.  

Victor Uchôa é jornalista e escreve aos sábados.