Viva o amor antes que o céu desabe

Viva o amor antes que o céu desabe

Por Rogério Menezes

Apaixonado pela música suave do compositor francês Eric Satie (1866-1925), Plácido Buscapé, 78, faz jus ao nome: é placidíssimo. Quando lhe perguntam como vai a resposta é invariável: - Bem-bem-bem! Dentista aposentado, só sai do aconchegante apartamento do Bairro Peixoto, em Copacabana,  para ir ao médico na rua Jardim Botânico, também na Zona Sul. Vapt-vupt, logo volta para fazer companhia à mulher Zilda – do-lar, 72 – e à gata-vira-lata Dinorah, com h no final, ‘filha’ do casal desde 2002.

[Plácido não aparenta a idade que tem. Não se queixa de nada. Nem do que o preenche nem do que o circunda. Apenas eventual prisão de ventre o incomoda, mas, questão de hora e de lugar, as fezes se libertam e tudo volta bem-bem-bem de sempre].

Nada grave. Doutor Luciano, 39, conhece-o como a palma da mão e não lhe receita medicação alguma. Apenas o aconselha a continuar andando uma hora por dia no calçadão de Copacabana, e a comer mamão-papaia, ameixas secas e a digerir bagaços de laranjas.

[Detalhe: Dr. Luciano Buscapé, gastroenterologista de escol, é filho de Plácido e Zilda e mora em Laranjeiras com o marido, o escritor Tito Thor – gay  superafetado que se jacta de ser o + importante autor brasileiro com menos de 40 anos, tem 35 o ególatra. Mas Luciano ama-o mesmo assim, sem reservas – e está certo, o amor deve ser cego].

A gata Dinorah é o docinho de coco da família Buscapé. Aos primeiros acordes de Eric Satie, salta no colo de Plácido – e ambos passam tardes inteiras nessa platitude sagrada.

Para não dizer que não falei de rusgas do casal, Zilda, ao contrário de Dinorah, não gosta da eterna trilha sonora preferida do marido, e repete: - Que coisa chata ouvir esse tal de Erci Peti. Plácido retruca: - O nome correto é Eric Satie, Zi! Um deus. Não há compositor +  sublime no mundo. [Dinorah, tão amante da música de Satie quando o dono, roça-lhe  as pernas, toda amor].

Zilda prefere sonoridades + românticas, até mesmo velhos boleros. Tranquilo: cada qual comprou vitrola, e cada um, em ambientes  diferentes, ouve as músicas que prefere. Dinorah se aninha nos braços dela quando ouve ‘Sentimental eu sou’, na voz de Altemar Dutra].

Dia 1 de novembro de 2017 o vento mudou o rumo da prosa. Assim do nada, quando Zilda desceu para fazer unhas e cabelo para um chá da tarde na casa de amiga na rua Pompeu Loureiro, no mesmo bairro, Eric Satie passou a tarde tocando para ninguém. Plácido e Dinorah  pararam de respirar, em uníssono.

Dia seguinte, Finados, 16 horas, os corpos de Plácido e Dinorah foram enterrados no mausoléu da família no Cemitério São João Batista. Tiveram velório e sepultamento ao som de Eric Satie.

Zilda, inconformada com a abrupta mudança de rota, ameaçou se jogar na tumba dos amados. [Não carecia pressa. Anteontem, quando a viúva dormia, bala perdida quebrou vidro da janela, lhe invadiu o cérebro, e ali se aquietou até o fim dos tempos].

Mausoléu da família no cemitério São João Batista ganhou nova lápide: [‘Aqui jazem Dinorah, Zilda e Plácido Buscapé. Viva o amor antes que o céu desabe’].