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Aos 70 anos, João Ubaldo ainda adora uma polêmica e não dá bola para críticos

De férias desde o dia 6 em Itaparica, vencedor do Prêmio Camões de Literatura completa 70 anos hoje

23.01.2011 | Atualizado em 23.01.2011 - 12:47

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Franco Caldas Fuchs | Redação CORREIO
franco.fuchs@redebahia.com.br


Com sua voz grave, o homem que completa hoje 70 anos gosta de repetir a seguinte frase: “Adoro rotina”. De férias desde o dia 6 em Itaparica, ilha onde nasceu, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro acorda diariamente às 4h30.

Depois que o vencedor do Prêmio Camões de Literatura se certifica de que uma matilha de cães vadios já passou pela região do Forte de Itaparica, ele deixa a casa que pertenceu a seu avô Ubaldo Osório Pimentel (1883-1974), por volta das 5h, e caminha até o Mercado do Peixe: toma café, lê jornal e passa as horas seguintes se encontrando com velhos amigos.

Um deles é o empresário Beto Ferreira, 44, companheiro de pescarias, que estava com ele quando o CORREIO chegou a sua casa, na Rua do Canal, na manhã da última terça.  Bem-humorado, Ubaldo nem parecia estar em seu inferno astral, como observou a  mulher, Berenice, 62, com quem é casado há 32 anos.

A conversa começa debaixo de uma mangueira em seu quintal, um de seus cantos preferidos em toda a Ilha.  “Só aviso que, durante a entrevista, pode ser que caia uma manga na cabeça de alguém! Mas, sem problema. As mangas costumavam pesar 1 quilo e agora elas só tem 700 gramas!”, avisa o autor de O Sorriso do Lagarto.


No quintal de casa, ele ataca “a meredinha da manhã” com a sua mulher, Berenice, a filha Chica e as amigas Marli e Virgínia

Jornalistas e bichos 
Diferente de outros mestres como Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, Ubaldo não foge de entrevistas. Porém, nos últimos dias, ao receber ligações da imprensa do país todo por conta dos seus 70 anos, ele pensava em  não falar  com mais ninguém. “Mas, como sou jornalista por formação, tenho pena de atrapalhar a pauta dos outros e fico sensível”, diz o ex-editor-chefe da Tribuna da Bahia.

Haja saco para ouvir as mesmas perguntas: “Ainda mora em Itaparica? Como era seu pai”, diz, acendendo um cigarro. Pior foi  uma  repórter que chegou atrasada para entrevistá-lo  e ainda  culpou o ferry boat. “Ela começou assim: então, o senhor é escritor? A vontade era dizer: não, sou gigolô da sua mãe!”.

Ser mal interpretado é outra coisa que lhe irrita. “Só dá merda quando o cara coloca nas palavras dele o que eu falo!”. Ele lembra tanto de episódios mais sérios, quanto de  deslizes menores que já o deixaram louco. “Uma vez eu falava sobre um tipo de lesma que era canibal - sempre fui metido a pesquisar sobre bichos - e o repórter escreveu que minha lesma era antropófoga! Como se fosse sinônimo!”.

Polêmicas 
O papo sobre a lesma  lhe  faz lembrar do seu velho papagaio. O bicho, vivo até hoje,  é conhecido de Saturnino, fotógrafo do CORREIO, que anos atrás ganhou dele uma bicada no dedo.  A muito custo, Ubaldo doou o louro a um vizinho, pois tinha dificuldade pra viajar com ele sem ter licença do Ibama. Mas, se fosse para ter  um bicho de novo, garante: teria outro papagaio.

Ou um jegue. “É que não suporto ver bicho morrendo! E jegue dura  50 anos. Papagaio chega a 80, fica até careca”, diz o escritor, que se lembra de um papagaio de um terreiro e o imita cantando “acofá! acofá!”, para riso geral.

A menção ao jegue -  que é personagem de uma história curta do livro Já Podeis da Pátria Filhos - leva à pergunta se ele é a favor ou contra a proibição do uso desses animais na Lavagem do Bonfim. João Ubaldo aprecia a participação deles, mas desde que sejam oferecidas condições mínimas a esses bichos “sagrados”. Afeito a polêmicas, ele marca posição mais uma vez  sobre a possível construção de uma ponte entre Itaparica e Salvador: “Continuo achando que  não tem razão de ser!”.


No bar Point da Ilha, no Mercado do Peixe, Ubaldo encontra uma porção de amigos: “Aqui todo mundo é meu chapa ou é meu sobrinho”

 
A ponte só provocaria um desenvolvimento “predatório, trazendo favelas, shoppings e condomínios abomináveis” - à maneira de Salvador. “Um  exemplo de esculhambação! O metrô é uma vergonha e a cidade é um engarrafamento só!”. Ubaldo ainda manda para aquele lugar quem disser que ele não pode reclamar só porque  mora no Rio, em um apartamento no Leblon.

Vaidade? 
A conversa passa à literatura. Ele tem um novo livro em mente, mas não revela o tema. Só diz que anda “minhocando uma coisa na cabeça” e sugere que o livro terá uma linha diversa do último romance, O Albatroz Azul, que, segundo ele, “não teve muita repercussão na mídia”.

Mas, tanto faz. “Não tenho que provar mais nada, e ao chegar aos 60, 70, você percebe que a vida é curta. Ars longa, vita brevis, dizia o poeta. Você entende que há coisas mais importantes do que ser reconhecido”.

A única cobrança que leva em conta é a sua, “que não é pouca”. Ele lembra de uma frase do escritor peruano Vargas Llosa: “Quando o sujeito senta para escrever um livro, ele resolve se vai ser bom ou não”, e emenda: “Eu resolvi ser bom. E enquanto  acreditar na minha autenticidade  vou continuar escrevendo”. Ganhador de diversos prêmios, como o  Jabuti, vencido por ele duas vezes,  Ubaldo sabe que  é    um dos maiores autores brasileiros em atividade.

Porém, nem os elogios de amigos como Glauber Rocha (1939-1981), Jorge Amado (1912 -2001) e Fernando Sabino (1923-2004)  o fizeram perder o chão e a  autocrítica. “Nunca vi motivo pra  botar banca. Mas  não cuspo no prato. Gosto de ser reconhecido. Só não exagero!”. Ter recebido o Prêmio Camões, em 2008, por exemplo, “foi fora de comparação”, lembra. “Afinal, você representa a língua portuguesa”. E como após o Camões agora só lhe  resta  o Nobel, será que ele pensa um dia em embolsar os 10 milhões de coroas suecas? “O pessoal fala disso, mas eu não penso, não. Senão ficaria maluco!”

Um giro e adeus
Após oferecer um guaraná  geladinho, o quase abstêmio Ubaldo  nos leva para  um giro pelo Mercado e o Largo da Quitanda. A certa altura, lembra que esqueceu de tomar o remédio para a pressão.  O esquecimento foi por estar sem o seu notebook: “No meu Outlook tem um lembrete que me avisa a hora do remédio”.


No Bar de Espanha, cujo dono é o amigo Bernardino Fernandez, ele compra cigarros. “Estou sempre deixando de fumar amanhã!”

O papo tecnológico avança sobre os leitores digitais de livros como Kindle, que ele despreza: “Ganhei um desses leitores num sorteio na Academia. Mas nunca fui buscar”.  Desde 1994, Ubaldo  ocupa a   cadeira nº 34 da Academia Brasileira de Letras.

São 11 horas quando a entrevista termina e Ubaldo já está de novo debaixo de sua mangueira. Dessa vez, ao lado da mulher, Berenice, da filha Chica, 27,  e da comadre Marli Rodrigues, 52, com a filha Virgínia, 28. Os cinco atacam siris e lambretas comprados do amigo Gueba, no Mercado.

Ele ainda responde à pergunta se tem outro projeto para desenvolver este ano além do livro. “E você acha pouco só fazer livro?”, rebate irônico, lembrando que também deve trabalhar em um roteiro com o amigo Domingos de Oliveira.  Acompanhando a reportagem até o carro, se despede com seu humor típico: “Que o Ferry seja leve! Aquela desgraça!”.

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Adoro. Figura emblemática da minha Bahia.

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Edmar

Esse aí não quer deixar de ser a estrela da ilha.Não se preocupa com a população pobre que só iria lucrar com o progresso que a ponte poderia trazer.

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Luiz

Esse e o Bom Bahiano...

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