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Jornalista alemão tenta encontrar João Gilberto, no Rio, e acaba criando narrativa

Em tom divertido e com qualidade literária, Fischer cria uma história inteligente e ágil, com uma permanente dose de melancolia

12.02.2012 | Atualizado em 12.02.2012 - 09:01

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Hagamenon Brito
hagamenon.brito@redebahia.com.br

O anseio, o maldito anseio, é que move (quase) tudo no mundo. Especialmente, as almas inquietas e inteligentes, como o escritor e jornalista alemão Marc Fischer, narrador do livro Ho-Ba-La-Lá: À Procura de João Gilberto (Cia das Letras/ R$ 34/ 184 págs./ tradução de Sergio Tallaroli).

Desiludido de amor em Berlim, ele conhece a música de João Gilberto em Tóquio, na casa de um amigo, se apaixona pela bossa nova do mestre e vem ao Rio de Janeiro, em 2010, em busca do ídolo.


João Gilberto, 80 anos, inspirou o jornalista alemão Marc Fischer

Fischer não apenas quer se encontrar com João, que não dá entrevistas há décadas e raramente sai de seu apartamento: quer também convencê-lo a tocar Ho-Ba-La-Lá para ele, num violão centenário que trouxe da Alemanha. Isso vira outro grande anseio em sua vida.

No berço da música que ele chama de "coração da beleza", em um bilhete para a cantora - e ex-mulher de João - Miúcha, o jornalista assume, com humor, o papel de Sherlock, e transforma uma lésbica judia líbano-brasileiro no seu assistente Watson.

"Por que encontrar um homem que, evidentemente, não deseja ser encontrado? Para que fazer contato com quem não quer contato nenhum?", questiona Marc Fischer/Sherlock Holmes.

"Porque João Gilberto é um enigma. Porque não está claro o que o instiga... Porque circulam histórias estranhas a seu respeito, e não se sabe quais são as verdadeiras e quais são as estapafúrdias, fantasiosas, inventadas", responde ele mesmo.

Em tom divertido e com qualidade literária, Fischer cria uma história inteligente e ágil, com uma permanente dose de melancolia, tanto do narrador quanto de suas observações sobre  João, enquanto o procura (até em casa) e se aproxima por meio de entrevistas com artistas e com os poucos amigos do mito.

"Dizem que ele toca violão o tempo todo, sempre as mesmas canções. Dizem que conversa com gatos. Dizem que uiva para a Lua. Dizem que, mesmo  com os parentes, ele só se comunica por intermédio de bilhetes passados por debaixo da porta. Dizem que, em resumo, ele não se comunica. Dizem que odeia tanto as pessoas que não consegue suportá-las. Dizem que ama tanto as pessoas que não consegue suportá-las".


Marc Fischer se matou, em 2011, pouco antes do livro ser lançado

Privada 
Fischer narra detalhes da biografia do cantor e entrevista nomes importantes da MPB. Entre eles, Roberto Menescal (que se afastou de João desde 1962), Marcos Valle e João Donato, que relembra os cigarros de maconha que fumava com  a lenda nascida em Juazeiro, na Bahia, em 1931.

O Sherlock berlinense vai atrás das lacunas da história do artista, como o período que passou em Diamantina (MG), antes de voltar ao Rio nos anos 50, já trazendo a batida da bossa que ganharia o mundo. No banheiro da casa onde João tocava horas seguidas, Fischer toca seu violão centenário e conclui que a beleza da bossa fora criada na privada.

É deliciosa a conversa com o cozinheiro Garrincha, que durante anos, quando trabalhava no restaurante Plataforma,  todo dia às 23h, recebia um telefonema de João, pedindo um steak no sal grosso.

E também o encontro do jornalista com a figuraça Otávio Terceiro, no restaurante Garota de Ipanema. Otávio, na definição do próprio, é "amigo, conselheiro pessoal e gerente" de João.

Suicídio 
O encontro mais revelador da intimidade atual de João, o autor tem com Claudia Faissol, com quem o músico tem uma filhinha, Luísa Carolina ("Ela tem a cabeça redonda, a boca e o nariz do pai. Só os olhos são como os meus", diz Claudia).

Como nem todo anseio é realizado, Marc voltou para Berlim sem conseguir ser recebido por João. Um dia antes de partir, às 4h da manhã, ele atende o celular e ouve uma voz, bem baixinho, cantar Ho-Ba-La-Lá. Antes que acorde totalmente, a linha fica muda e ele não tem certeza se foi João ou um trote de alguém que sabe da sua missão e ficou com pena.

Em abril de 2011, poucos dias antes do lançamento do livro na Alemanha, Marc Fischer se  jogou da janela do seu apartamento, para espanto dos amigos. Tinha 40 anos.

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