09.04.2011 | Atualizado em 09.04.2011 - 10:18
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Álvaro Andrade | Redação CORREIO
alvaro.andrade@redebahia.com.br
Aos 33 anos, o músico carioca Marcelo Camelo continua o mesmo cara sereno e independente que aparentava ser quando, junto com os amigos da banda Los Hermanos - em recesso desde 2007 -, tornou-se conhecido em todo o Brasil. Depois de Sou (2008), seu primeiro disco solo, Camelo lança o intenso e amoroso Toque Dela (Zé Pereira/Universal). O álbum marca um período de mudança na vida do cantor, que saiu do Rio para morar em São Paulo, no início de 2009.
Dentre outras coisas, a mudança serviu para que Camelo ficasse mais perto de sua namorada, a cantora e compositora Mallu Magalhães, 18 anos.
Muitas das canções do disco, aliás, remetem a ela e à nova cidade - ainda que algum raio solar carioca pinte vez ou outra entre as batidas paulistanas do Toque Dela. Camelo falou ao CORREIO, por telefone, enquanto se prepara para o início da turnê do novo disco, dia 28, em São Paulo. O show em Salvador, onde ele gravou seu primeiro DVD, MTV Ao Vivo Marcelo Camelo (2010), será dia 19 de junho.
Logo que as pessoas começaram a ouvir o álbum na internet, teve muita gente no twitter dizendo que o trabalho era muito “Camelo”. Quem é esse Camelo?
Eu não sei bem quem eu sou, tento muito me diferenciar a cada instante. Não tenho assim uma rigidez existencial. Mudo muito de opinião, de ideia, a todo momento. Se disserem que o disco é muito diferente do Camelo, vou gostar também, vou achar legal.

Camelo compôs sete, das dez músicas de Toque Dela, em São Paulo
Em alguns momentos, o álbum lembra suas composições no disco 4, da Los Hermanos. Você concorda? Chegou a pensar nisso?
Não foi feito nesse intuito, e eu não penso nesse diálogo, mas a interpretação é livre. Para mim se remete mais ao meu disco anterior. Só que o Sou eu gravei sem beat. E no Toque Dela já tem esse click, um tempo certo que norteia todos os instrumentos, que é mais condizente com a estética de 2011, e é mais fácil das pessoas gostarem. Mas não é para ser duro, rock duro. Na música brasileira eu gosto é dessa sinuosidade dentro da música. Tem muitas notas dentro das notas, tempos dentro dos tempos. Mas, se todo mundo tivesse fazendo isso, eu faria diferente, é para ser contracultura mesmo. No Sou eu queria peitar o mundo com o violão.
A musica Despedida, que você fez primeiramente para Maria Rita, e que entrou no disco, parece brincar com Marinheiro Só, de Caetano. É mesmo? Qual a influência dos grandes compositores baianos na sua música?
É isso mesmo. Na verdade, Marinheiro Só é da cultura popular, não tem um autor certo, mas Caetano acabou assinando. A Bahia como um celeiro de ritmos é incontestável. É difícil alguém requebrar sem que aquilo tenha vindo da Bahia. O Caymmi, o João Gilberto e o Caetano para mim são pilares. E quanto mais tempo que passa eles vão crescendo, vão ficando mais fortes, mais sedimentados.
Seu primeiro DVD (MTV Ao Vivo Marcelo Camelo, 2010) foi gravado aqui, na Concha Acústica. Como é sua relação com Salvador?
Ah, são muitos anos de história. A Los Hermanos nos permitiu criar relações com vários lugares do Brasil. Aí foram muitos shows, desde o Festival de Verão, com aquela coisa da Anna Júlia; tocamos numa boate, a Rock in Rio; teve um show inesquecível na Ed Dez; os muitos shows na Concha... E, além disso, os jantares com os amigos. Você vai sedimentando uma relação com o lugar.
Voltando ao disco, Toque Dela tem novas colaborações. Entre elas, música com o cartunista André Dahmer (Três Dias) e a presença de Marcelo Jeneci tocando alguns instrumentos. Como se dão esses encontros?
A vida vai caminhando, cara. O vento vai trazendo as pessoas pra perto, algumas ficam, outras passam. O disco é sobre isso, as pessoas ao redor. No caso do Dahmer, foi numa volta da praia, no Rio. A gente foi pra casa, ele, a esposa dele, a Tininha. Ele me mostrou um primeiro traço da música, e eu achei bonita e completei a ideia. Fazer um disco é isso mesmo, uma jornada ao universo afetivo das pessoas.
No fim do mês começa a sua nova turnê. O que muda quando o álbum vira show, vai para a estrada? Você acha que pode acontecer de melhorar ou o contrário?
A prática, a presença física das pessoas modifica tudo. Se tão sentadas, se tão em pé, sempre vai ser uma coisa diferente, e a gente também, como estamos. Gravar é mais estático. Ao vivo é sempre melhor porque não é mecânico. E pela execução ao vivo as músicas ganham mais peso também.
Como é o Camelo no palco? Quais artistas você mais admira ao vivo?
Eu tenho uma grande dificuldade de simular qualquer coisa, então sou sempre eu mesmo. Tem dias que eu tô mais quietão, mais sem graça. Então eu tento pegar o que eu tô sentindo e passar para aquela presença física. Mas sou muito eclético, gosto de vários tipos de espetáculo, de posturas. Das pessoas que eu gosto, tem a Dona Ivone Lara, a Maria Bethânia, o Caetano... Tem essa coisa mais teatral, que você vê e fica encantado. Tem aquela mise-en-scene. E tem os que só tem seu jeito mesmo, e é aquilo. Os artistas daquela época, mais ou menos até os anos 70, tinham essa teatralidade. O rock traz uma quebra dessa fantasia onírica, uma postura mais realista no palco. É claro que tinha o Kiss e bandas mais teatrais também. Mas, de um modo geral, é isso.
A Los Hermanos começou com um disco de rock e foi ficando cada vez mais MPB, e seu trabalho solo também é de MPB. Você ainda tem interesse no rock enquanto gênero? O que você está escutando agora?
Tenho muito, cara! Adoro rock, acho foda. O rock é muito generoso, pode ser misturado com tudo, nem parece música, é mais uma abordagem. A Acabou La Tequila, uma banda que eu gosto muito, dizia que misturava rock com música. O rock tem uma crueza eficiente, é uma beleza e força que surge da supressão e da assertividade, já na música brasileira essa beleza vem do contrário. Minha banda preferida agora é uma americana, a The Growlers.
E no reencontro com a Los Hermanos para os últimos shows, surgiram novas ideias em conjunto?
Não, não, foi bem em função dos shows mesmo. A Los Hermanos tem uma força dentro da gente, então era revisitar aquilo que foi, que é a Los Hermanos.
Você se tornou um compositor muito respeitado e requisitado. Tem feito muitas músicas para outras pessoas?
Nunca fiz muito para uma pessoa em especial, mas estou sempre compondo, e isso me ajuda a dar vazão. Eu nunca me prendi a um tipo de música, posso fazer uma música sertaneja, um samba e um rock no mesmo dia. Isso é bom porque me dá asas. Mas não gosto muito de falar do que estou fazendo agora, porque não deu certo ainda, a pessoa ainda não gravou. É muito bom fazer música para alguém que você gosta.
E com a Mallu Magalhães, sua namorada? Já compuseram algo juntos?
A gente tem feito um pouquinho mais, mas somos muito geniosos, é uma dificuldade para convencer ela de que é melhor uma nota e não outra, e ela de me convencer também. Mas temos escrito mais.
Você produziu o disco do Bebeto Castilho, do Tamba Trio, que também é seu tio. Pretende produzir outros artistas?
Não, não, só o meu mesmo. Tenho deficiências como produtor, tenho que pedir ajuda a amigos engenheiros de som. Mas eu gosto muito disso, de pensar o disco como um todo, a parte artística, os arranjos.
Entre o Sou e o Toque Dela você fez a trilha sonora do seriado Afinal, o que Querem as Mulheres?, do Luiz Fernando Carvalho. Você já tinha feito trilha antes? Como foi essa experiência?
A gente (a Los Hermanos) já tinha feito uma trilha para um curta (Castanho, 2002), do Eduardo Valente. Foi muito legal ter feito a parada, mas também é meio decepcionante trabalhar sob encomenda e ter que lidar com o inconsciente de outra pessoa. Às vezes você pensa a coisa de um jeito, daí a pessoa pede para mudar isso, mudar aquilo. Apesar de eu gostar de fazer, de ser interessante, não gosto muito desse diálogo não.
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Caio Lufo
Muito legal a matéria, mas achei que as perguntas ficaram engessadas, tipo, poderia ser uma conversa... Mas uma falha do jornalismo é isso: pouco tempo pra se perguntar muita coisa, porque tems-se sempre que se perguntar muita coisa, que sejam ideias encadeadas ou não.
Sobre o disco, já tô ouvindo!
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