Maria Clara Dultra
vida@correio24horas.com.br
A pintura, o desenho, a fotografia e o grafite já não são mais aqueles que os seus pais conheceram. Nas palavras da artista plástica, produtora cultural e musicista Andrea May, 46 anos, “o surgimento das novas tecnologias e das mídias móveis ampliou o conceito de arte visual e possibilitou a incorporação de outras linguagens e ferramentas em sua produção, criando uma arte que pode ser multimídia e colaborativa”.
Se você duvida, está convidado para a segunda edição do Atelier Coletivo VISIO, hoje, das 14h às 19h, no Instituto Cultural Brasil Alemanha - Icba, no Corredor da Vitória. A entrada é franca.
A ideia é passar uma tarde criativa ao lado de aproximadamente 40 artistas visuais das mais variadas linguagens. Conhecer trabalhos de fotografia, música, design gráfico, videoarte e web art. Ver performances e ficar por dentro das últimas tendências do tema - você conhece o Dorkbot, por exemplo?

Um dos destaques do projeto Atelier Coletivo VISIO, no Instituto Icba, hoje, o espaço Live Paint integra artistas profissionais e amadores para produzir arte de maneira colaborativa
Intercâmbio
Você também vai poder fazer pinturas com canetas ou produzir um documentário com o seu próprio celular através da oficina de web-documentários. Moral da história: você vai descobrir que é artista e acreditar que arte e tecnologia têm tudo a ver. Quem garante é a própria Andrea May (veja boxe), idealizadora do projeto e para quem colaboração e intercâmbio de ideias também são palavras-chave do evento.
“A proposta do Atelier é apresentar essas novas linguagens multimídia e fomentar a produção e distribuição de obras audiovisuais através de ferramentas acessíveis”, afirma sobre o projeto que teve sua edição-piloto em 2010. Entre setembro e novembro daquele ano, o VISIO reuniu mais de 80 artistas de diversos estados brasileiros.
Em 2011, captou patrocínio da operadora Vivo e do governo da Bahia, pela lei de incentivo Fazcultura. Com o dinheiro, pôde ampliar o projeto desta segunda edição, que começou em novembro e vai até abril, uma vez por mês, aos sábados.
Crianças e teens
“Entre as novidades, destacaria o VISIO.Lab, um laboratório para mostra de trabalhos com softwares livres e hardwares e a VISIOpontinho, oficina de web-documentário para crianças e teens, de 8 a 15 anos, com a videomaker Jamille Fortunato”, diz May.
As atividades da programação são permanentes, mas contam sempre com composições de artistas diferentes. Apenas os interessados em apresentar trabalhos devem se inscrever previamente, enviando o link do portfólio para o e-mail de May: visioponto@gmail.com.
Quem já foi gostou do resultado. A desenhista Vânia Medeiros participará pela segunda vez. Baiana radicada em São Paulo, ela vai aproveitar as férias em Salvador para apresentar seus desenhos e, de quebra, se inteirar do que está sendo produzido na capital baiana.
“As vezes em que pude participar de encontros como esse foram momentos em que mais cresci como artista e pude trocar experiências de forma intensa”, observa.
Para a artista e professora de Arte Contemporânea Alejandra Muñoz, o sentimento de Vânia é comum a todos que produzem arte visual na Bahia: “Diante da carência de foros de encontro e discussão em artes visuais no nosso meio, o Atelier Coletivo VISIO é precioso e deve ser valorizado. Por ser um evento não institucionalizado, permite nuclear, de modo descontraído e instigante, artistas, pessoas ligadas ao circuito das artes e público leigo”.
Valorização
O artista Eder Muniz que o diga. Na primeira edição do VISIO, ele pôde ensinar técnicas de grafite para um público composto, também, por curiosos e iniciantes.
“Além de reconhecer e valorizar os artistas da terra, a grande sacada do Atelier é mostrar que Salvador está inserida no circuito internacional de artes visuais, que contempla as grandes metrópoles mundiais, como São Paulo e Nova York”.
Convidado especial, o designer e cenografista paulista Felipe Vasconcelos apresentará desenhos tridimensionais. Artista cênica e escritora, Larissa Minghin veio do Rio de Janeiro trazer o que ela chama de cápsulas de felicidade. A VJ Bárbara Tércia e o DJ Mangaio são outros nomes da programação. Ou seja, variedade e talentos das artes visuais não vão faltar.
Andrea May se destaca por pioneirismo na cena
Quando teve a ideia inovadora de mesclar música, dança e artes visuais num evento multimídia na capital baiana, em 2003, Andrea May não foi levada a sério. “Meus amigos diziam que eu estava louca”, recorda.

Andrea May, 46: artista conhecida da cena baiana, agora ela se destaca pela criação e curadoria do VISIO
Mesmo assim, ela insistiu, levou o projeto Eletroinvasores adiante e conseguiu lotar o Teatro do Icba. Detalhe: em uma época em que pouca gente consumia arte eletrônica na Bahia. Antes, nos anos 90, em outra iniciativa pioneira na cidade, ganhou notoriedade com a dupla de música eletrônica tara_code, formada por ela e o guitarrista e produtor musical Gilberto Monte.
A grande sacada do projeto, à época, era misturar vocais, letras e estética experimental eletrônica. “Já fiz muitas coisas de lá pra cá, mas é impressionante como esse trabalho me referencia até hoje”, observa May - com certa razão.
Toy Art
De experimentação em experimentação, estudando sobre as tendências da arte visual mundo afora, Andrea May foi ganhando destaque no assunto por sacar outros potenciais modismos.
Mais que isso, criou ambientes propícios para fomentar a arte em variadas linguagens. Em 2005, foi a segunda artista nacional a organizar uma mostra de Toy Art no país.
Bem sucedida, o saldo da façanha artística foram quatro séries da exposição, status de especialista no tema e muitos convites para entrevistas e eventos. “Me saturou. Não quis mais repetir”. Mesmo assim, criou o domínio toycentro.tk, site referência de informações sobre a Toy Art, até hoje bem acessado. A Galeria de Adesivos e o Salão de Post Art (os famosos lambe-lambes), idealizados por May, também esimularam a produção de street art na Bahia.
“Todos esses trabalhos possuem em comum a priori zação de ações colaborativas”, pontua. A arte colaborativa e a criação coletiva exercem um fascínio antigo na artista. Mesmo antes de se dedicar à produção do VISIO, ela criou outros movimentos com a mesma finalidade.
Quem acompanha a cena certamente se lembra do ATTACK+, ação que juntou, em um único dia, no Rio Vermelho, arte urbana com outras modalidades, como música e dança. “A gente fez projeções nos casarões antigos do bairro, mostrando como a cidade pode ser, de certa forma, invadida pela arte, de forma criativa”, conta. E May não pretende parar no Atelier, claro.
Comente esta notícia
Ocultar comentários
Comentar notícia | Cadastre-se