Bruno Menezes | Redação CORREIO
bruno.menezes@redebahia.com.br
O acarajé não reina mais absoluto nas praias de Salvador. Sem barracas, as baianas estão aprendendo a dividir o paladar dos banhistas com hamburgeres, batata frita e sanduíches caseiros. Na nova orla de Salvador, que está sendo planejada, as baianas terão seu espaço cativo, afinal, são patrimônio cultural imaterial do Brasil. Mas, até que as novas barracas aportem nas praias, o jeito é se preparar a própria farofa em casa e torcer para o frango aparecer na praia.
“Vim de Barretos, em São Paulo, para conhecer a Bahia que eu vi na internet. Mas, até agora, não ouvi uma música sequer da Ivete na praia. Não comi um camarãozinho. Como é que vou voltar para sampa e dizer que a Bahia não é nada daquilo? ”, questiona a funcionária pública Maria de Lourdes Bento, 45 anos. 
Turistas de São Paulo precisam sair da areia para comprar comida
Companheira de viagem, a estoquista Izabel Gonçalves de Souza, 29 anos, comemorou a chegada de um vendedor de queijo coalho no espaço onde elas estavam, na praia do Corsário, como se fosse a virada do ano. “Tiramos até uma foto. Pelo menos o queijo a
gente comeu”, completa.
Para passar a tarde com o namorado na praia de Jaguaribe, a advogada Cláudia de Miranda Avena, 25 anos, fez uma boquinha antes de sair de casa, no Itaigara. Seu namorado, o advogado espanhol Daniel Díaz, 33 anos, já se acostumou com a situação. "Quando não dá para comer em casa, o jeito é pegar o carro e procurar algum restaurante. Agente sempre acaba comendo perto de casa e já fica por lá mesmo”, explica.
Preço
Quando o único restaurante perto tem o preço mais salgado que água do mar, o jeito é improvisar. “Quando a fome começa a chegar, subo e como um caranguejo, de R$3, 50. Vou fazendo isso até a hora de ir pra casa. O problema é que, quando a fome chega violenta, não dá para comer um só. E a praia acaba pra mim”,conta a vendedora Nilse Barreto, 29 anos.
De Amaralina até Itapuã, há muitas opções, mas, como as pessoas ainda estão se acostumando com a nova situação, a alternativa é garimpar.“A solução é ir no posto de gasolina ou ficar no passeio esperando passar um ambulante. Caldo de cana é uma boa, porque enche, estufa a nossa barriga. Dá para aguentar muito mais tempo no sol”, diz o autônomo João Reis, 48 anos.
Peixe
Outra opção é procurar pelas colônias de pescadores. Em Itapuã, por exemplo, na Rua K, Nilson dos Santos, o Pai velho, não só serve alguns quitutes para os banhistas, como oferece banheiro, uma raridade na orla. “E ainda ajudo os barraqueiros. Aqueles que não têm mais onde trabalhar estão usando meu espaço para vender comida, gelar sua cerveja e guardar o material”, conta o líder dos pescadores.
A migração dos consumidores das barracas para os restaurantes tem mudado a rotina de alguns estabelecimentos. No Doctor Burguer, que funciona em frente à praia do Corsário, o movimento aumentou em pelo menos 20%. Os funcionários contam que o estabelecimento recebe muitos banhistas que querem trocar dinheiro, usar o banheiro ou até pedir água.
Restaurantes populares em alta
Alguns restaurantes que ficam na orla de Salvador temo preço muito alto para quem frequenta a praia todos os dias ou mesmo nos fins de semana. No entanto, em alguns pontos da orla, é possível encontrar espaços como a Cabana do Mar, em Amaralina. No local, o prato executivo sai por R$ 7 e o cliente ainda escolhe entre sete opções.
Na Boca do Rio também há restaurantes com prato feito. “Comi num que nem tinha nome, mas a comida era ótima. É só procurar”, conta a ambulante Nívea Salgado, 38 anos. “Ambulante trabalha e também come. Vou fazer o quê?”, diz.
Baiana reina soberana nas areias das praias
Para muitos baianos, praia sem cheiro de dendê e banhista comendo acarajé não é praia. Mas, essa é a nova realidade nas areias de Salvador. De acordo com o projeto que define como serão as estruturas temporárias da orla, as baianas terão espaço garantido, ao lado de cada tenda. Algumas delas continuam ocupando os espaços antes divididos com as barracas. Mas as baianas também terão que se adequar ao horário dos banhistas.
Na praça delas, em Amaralina, por exemplo, o expediente só começa depois das 18h, quando o sol já foi embora. “Aí, fica difícil. Ir à praia tem se tornado uma grande aventura de exploração. Vamos ver até quando nós baianos vamos aguentar isso”, desabafa a banhista Nilse Barreto.
Adeus ao velho chuveiro
Outro item que está fazendo falta na areia dos baianos é o famoso chuveirinho. Na edição de quinta-feira, o CORREIO mostrou que havia um funcionando na praia de Jardim de Alá. A geringonça foi montada na areia e era alimentada com água doce, sugada por uma bomba elétrica, ligada a um gato de luz. Após o corte da energia, o jeito foi tirar o sal do corpo com uma cuia. Demora mais, mas cumpre a função, explicaram alguns banhistas. “O chuveiro faz falta. Como vou entrar num restaurante cheio de sal?”, questiona João Reis.
Queijinho com melaço é a salvação
Quem sabe rezar leva até terço para a orla para pedir um ambulante que venda queijo coalho. Após três dias visitando a praia do Corsário, as amigas Maria de Lourdes e Izabel finalmente comeram o famoso queijinho com melaço. “E também só encontramos um vendedor de cerveja hoje. Na falta de opções, desistimos e fomos embora nos outros dois dias”, contam.
Outra solução encontrada por quem vai a Jaguaribe, por exemplo, é sair da praia e comprar guloseimas e bebidas no supermercado. “O que estressa é a fila”, explica a advogada Cláudia de Miranda.
Banhista se vira estirado na canga
Em algumas praias como Jardim de Alá já é possível alugar mesas, cadeiras e sombreiros. Mas, em vários outros pontos da orla o jeito por enquanto é levar de casa uma toalha, canga ou uma cadeira. “Quando a gente esquece, o jeito é pagar. Tenho que escolher entre pagar a cadeira ou comer”, reclama a banhista Michele Lopes, 31 anos. A cobrança, no entanto, já é conhecida no Porto da Barra, território livre de barraca, mas loteado por ambulantes.
Isopor: só com cerveja bem gelada
Outra fonte de comidas e bebidas especiais para banhistas são os postos de gasolina e suas lojas de conveniência repletas de sanduíches, biscoitos e várias bebidas. Geladas, o que é melhor. As amigas Juliana Cardoso, 25 anos, e Juliana Alves, 24, curtem a praia com um isopor cheio de cerveja gelada. No caminho para a praia, pararam no posto e abasteceram a caixa térmica. “Melhor trazer do que ficar de bico seco. A praia está chata depois que tiraram a alegria do baiano. Essa não é a Bahia que a gente conhece desde que nasceu”, dizem as amigas, em coro.
Sufoco na hora de fazer xixi
Em qualquer ponto da orla o que não faltam são banhistas a procura de um banheiro. Em Amaralina, Armação, Boca do Rio, Piatã e Patamares, o jeito tem sido apelar para postos de gasolina. Mas, a revolta logo surge, por exemplo, em Jaguaribe e em Jardim de Alá. Banheiros públicos instalados na orla não funcionam. Nos dois, a palavra “indisponível” é o que está escrito no visor do equipamento. “Ontem consertaram durante a noite e hoje amanheceu quebrado. E o medo de ficar preso ali dentro? O picolé vai derreter todo”, reclama um ambulante, sem se identificar.
Comente esta notícia
Ocultar comentários
Caroline
O governo precisa cuidar mais da segurança na orla. Sem as barracas está um Deus dará.
Avalie
Clique na barra de avaliação para avaliar este item.
Reportar abuso
Comentar notícia | Cadastre-se