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Crianças brasileiras são precoces nas redes sociais

Pais são os mais liberais, mas também os mais preocupados

26.10.2011 | Atualizado em 26.10.2011 - 08:38

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Foto:Stock XZong

Atenção deve ser dobrada com as crianças

Ayeska Azevedo | Redação CORREIO
ayeska.azevedo@redebahia.com.br

Com apenas 9 anos, crianças brasileiras já possuem cadastro no Orkut, MSN, Facebook, Twitter e utilizam ativamente as redes sociais. Pelo menos é o que diz o estudo Internet Safety for Kids & Families (Segurança de Internet para Crianças & Famílias), feito pela empresa de segurança Trend Micro. 

Depois de ouvir  1.419 pais em sete países, a pesquisa  apontou que as crianças  brasileiras são as que mais cedo ingressam nos sites de relacionamento, destoando dos demais países participantes do estudo, onde a média é de 12 anos (veja gráfico), e bem abaixo da média da Índia, onde o acesso às redes sociais ocorre por volta dos 14 anos.

O estudo revelou também que  os pais brasileiros são os mais liberais. Sessenta por cento deles permitem que os filhos tenham perfis nas redes sociais, mas 50% afirmaram que se preocupam com a privacidade  dos filhos nos sites, já que temem relacionamentos indesejáveis,  o que lhes rendeu o posto de mais preocupados entre os países onde a pesquisa foi aplicada.

Como estratégia para monitorar os rebentos, eles não pensam duas vezes: ficar ‘amigos’ virtuais dos filhos para acompanhar tudo o que acontece nas postagens é prática de 38% dos pais no Brasil. Eles confessam que todos os dias monitoram os perfis dos filhos, enquanto a prática  é seguida por 32% dos pais australianos, 31% dos americanos, 28% dos ingleses, 24% dos franceses e  apenas 9% dos japoneses.

A segurança das crianças é o grande  motivo da preocupação, e  somente 34% dos pais brasileiros afirmaram confiar nas ferramentas de privacidade. Mesmo assim, há aqueles ainda  mais preocupados, como os japoneses, que afirmaram ser totalmente descrentes de que as ferramentas de privacidade  sejam adequadas à segurança de seus filhos.

Cotidiano
“As crianças estão inseridas num mundo cheio de componentes digitais, já nasceram nesse ambiente. Entrar na internet não é mais fazer parte de um mundo paralelo,  já se percebe que, para elas, isso é parte da vida cotidiana. Com 9 anos, as crianças estão vendo o cotidiano dos pais dessa maneira”, analisa José Carlos Ribeiro, professor de Psicologia da Universidade Federal da Bahia  (Ufba).

Ribeiro explica que nessa idade a criança está em um momento de ampliação de seu desenvolvimento cognitivo, mas é preciso atentar para qualquer exagero que possa cometer. “O ideal é não proibir que ela ingresse nos sites de relacionamento, pois isso faz parte de sua rotina. Mas os pais  devem fiscalizar que tipo de relações estão sendo estabelecidas pelos filhos nessas redes, como eles se comportam”, orienta.

No entendimento de Maria Cândida Muzzio, diretora pedagógica do Colégio Miró, é inegável a influência da internet na vida das crianças. “O mundo digital está posto na vida delas, elas nasceram nisso, e nós temos é que educar.  A questão é o que elas acessam, quando acessam e com que propósito acessam as redes sociais”, observa, apontando que a maioria dos alunos da 5ª série, na faixa etária dos 10 anos, usa frequentemente as redes sociais em casa.

Cândida salienta que a criança ainda não tem noção das consequências que podem ter  uma simples  postagem num site de relacionamento. “Elas ainda não têm idade para discernir o que podem e o que não podem publicar. Muitas  podem se sentir muito mal com algo que outra publique a seu respeito. Isso mexe com sua autoestima, mexe com a saúde emocional das crianças”, esclarece.

Fiscalização nunca é demais
Não basta proibir. Quem precisa criar os filhos com tantas modernidades ao alcance  tem mesmo é que redobrar os cuidados e orientar os pequenos a se protegerem. “A internet é um ambiente público e aberto.

Pequenas pistas, quando juntas, podem fornecer uma ampla visão da vida e da rotina da criança ou adolescente. Assim, não se deve fornecer informações pessoais a amigos virtuais (e-mail, número telefônico, escola onde estuda, time para o qual torce, compromissos com amigos, eventos familiares, fotos ou vídeos próprios, dos amigos ou da família)”, orienta a Superintendência Regional da Polícia Federal na Bahia, que dá mais dicas para as crianças utilizarem a internet com segurança (veja ao lado).

É justamente a preocupação com a  segurança que faz a analista de suporte G. S., 41 anos, adotar medidas impopulares com a  filha de 8 anos, flagrada acessando conteúdo impróprio. “Ela está aprontando. Esta semana tivemos que bloquear algumas palavras para ela não conseguir consultar. Sai todo tipo de coisa e acho que ainda não é hora, pois ela não entende direito”, justifica.

Como estratégia para não deixar a pequena sem supervisão, o computador fica no quarto do irmão. “Na hora que vamos dormir é proibido ficar no computador.  Agora ela já percebeu que estamos ligados”.

Durante o dia, quando G.S. e o marido estão no trabalho, cabe à secretária o papel de acompanhar o que a pequena está fazendo na internet. “Ela é nossa fiscal. Quando chegamos do trabalho, conta se aconteceu  alguma coisa diferente ”, diz.

Orientação aparece como melhor saída
Na casa da comerciante Rose Lemos, a confiança é o que rege o uso das redes sociais pelas filhas Ingrid, 14, e Yasmin, 16 anos. “Elas usam muito sites de relacionamento, mas não preciso fiscalizar, pois tenho uma relação de  confiança extrema com elas, que foi construída desde que eram bem pequenas. Se digo que não pode, elas sabem que não pode”, afirma Rose.

Na opinião de Maria Cândida Muzzio, do Colégio Miró, confiança é importante, mas os pais podem adotar outras estratégias para se aproximar do universo dos filhos e acompanhar o que eles andam aprontando nas redes sociais. “Os pais precisam criar estratégias inteligentes para acessar essa grande casa virtual. É importante que estejam na rede social dos filhos e, se for possível, dos amigos dos filhos também. Pai e mãe têm que acompanhar,  pois os filhos estão expostos a muitas pessoas. Então, é preciso saber o que dizem”, opina a educadora.

Cândida usa os ensinamentos na própria casa, com a filha de 11 anos. “Estou no facebook dela e tenho até a senha. De vez em quando estou do lado  quando ela está postando. Mas isso só é possível porque há  uma relação que permite”, conta.

A preocupação com as crianças nas redes sociais  vem mais forte com a entrada em outra fase da vida. “Dos 9 aos 12 anos, elas têm mais interesse em fortalecer as amizades que  já possuem. A partir dos 12, vêm outras preocupações, porque já estão adquirindo uma nova compreensão do mundo, começam a querer fazer amigos pela internet”, comenta José Carlos Ribeiro, da Ufba.

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