Carnaval

Plural, pegador, tradicional... Quem é o 'verdadeiro' filho de Gandhy?

Esse ano, cerca de três mil foliões desfilaram no afoxé. Ações buscam criar bloco "socialmente perfeito"

Saulo Miguez (saulo.miguez@redebahia.com.br)
Atualizado em 01/03/2017 20:18:56

"O verdadeiro associado do Gandhy era o homem negro, alto, forte, com perfil de americano e africano e que tinha uma postura de cidadão maduro. Não era assim um jovem, um garotinho”. A descrição é de um dos mais antigos e respeitados diretores do Afoxé Filhos de Gandhy, Tio Souza, 69 anos, que desde 1983 participa ativamente das atividades do bloco.

Fundado em fevereiro de 1949 por estivadores portuários da cidade de Salvador, o afoxé é constituído exclusivamente por homens e tem como inspiração os princípios de não violência e paz do líder indiano Mahatma Gandhi.

Tapete azul e branco (Foto: Marcelo Guedes/ Ag Haack)

Tio Souza conta ainda que o tradicional seguidor do Gandhy tinha ideologia e regras de condutas próprias e que isso, de certo modo, constituía um obstáculo para que outras pessoas que não seguiam aqueles costumes entrassem no bloco.

“O Gandhy não saia dos seus limites. E isso inibia outras pessoas que tinham vontade de ser filhos de Gandhy", disse. Ele compara a velha realidade do bloco com o que, segundo o diretor, ainda ocorre em outros afoxés. "Hoje ainda existem pessoas que ficam com receio de se associar ao Ilê por conta desses estigmas".

Os critérios de associação eram ainda outro fator que impediam a expansão do afoxé. “A partir da década de 1990 o bloco passou a ser mais liberal. Ele não crescia porque existiam critérios de ingresso, e as pessoas tinham receio porque viam o bloco como se fosse uma Maçonaria, fechado, onde ninguém questiona”, disse Tio Souza.

Ainda de acordo com o diretor, havia todo um processo de investigação até a pessoa para que uma pessoa pudesse assumir os colares de conta. “Para se tornar sócio, você deveria ser convidado por alguém que tivesse pelo menos cinco anos de casa. Ainda existia uma comissão de sindicância que fazia um trabalho de investigar aquela pessoa na comunidade, a vida social dela etc".

A abertura para pessoas de outros nichos gerou desconforto. "Chegou ao ponto das pessoas diferenciarem os associados como sendo a nata do Gandhy. Essa 'nata' era aquele cidadão bem vestido, bem apresentado, cortês, gentil. Era o chamado verdadeiro associado", lembrou Tio Souza.

Gandhy desfilando na Barra (Foto: Mauro Zaniboni /Ag Haack)

Socialmente perfeito
Conquistas sociais, no entanto, serviram de estímulo para que a diversidade chegasse no interior das fantasias azul e branca. "Essa demanda foi favorecida pela democracia. E eu creio que foi a partir de 1988, quando foi promulgada a Constituição, que se estabeleceram os direitos de todos”, disse Tio Souza.

O presidente em exercício do Afoxé, Chico Lima, 59, considera que o Gandhy hoje é um bloco socialmente perfeito. “Hoje você olha para o bloco e não consegue identificar o juiz, o desembargador, o arquiteto, o carregador de feira. Então eu considero um bloco socialmente perfeito. Não existem castas na hora que se veste essa roupa", disse.

Chico conta ainda que as mudanças que transformaram o afoxé no que ele é hoje influenciaram, inclusive, a batida que é ouvida na Avenida nos dias de desfile. "No início, o Gandhy tocava marchinhas, mas com a presença das ogãs das grandes casas de santo aqui da Bahia, foi introduzindo novos ritmos, como o ijexá, além das palavras em Iorubá”, explicou.

A pluralidade é visível no desfile do Afoxé. Pessoas de diferentes idades, muitos adolescente, cores e naturalidades compõem o cortejo que sai da Rua Maciel de Baixo, no Pelourinho, e segue pelo circuito Osmar (Campo Grande), durante os três dias de festa.

"Dentro da nossa missão está o combate ao preconceito. Estamos aqui para olhar pela igualdade e pela diferença. Ser diferente também é bom. Ser diferente também contribui. No nosso bloco nós temos pretos, brancos, altos, baixos, magros, gordos. Todo tipo de gente", frisou Chico Lima.

Foto: Marcelo Guedes/ Ag Haack

O mito do Gandhy 'pegador' 
Esse ano, cerca de três mil foliões desfilaram no Gandhy. Dentre eles estava o estatístico Bruno de Brito, 32, que saiu pelo segundo ano e foi acompanhado pela esposa, a enfermeira Daniele Gomes, 30. "A primeira vez que saí, foi por pura curiosidade. Este ano, foi para comprovar que eu gostei muito da experiência. É um alto astral muito grande tudo isso aqui", contou Bruno.

Sobre a famosa troca dos colares por beijos, Daniele afirma que isso não passa de um artifício criado por pessoas que no fundo querem corromper o real significado do grupo. "As pessoas que querem deturpar o bloco inventaram essas coisas de trocar colar por beijo. Eu acho muito bonita a filosofia do Gandhy e a mensagem que eles levam para a Avenida", contou.

A opinião de Daniele é confirmada pelo presidente da alegoria. “Foi se colocando essa crença de que o [folião] Gandhy é o grande pegador da Avenida, que o colar deve ser trocado por um beijo. O que não é verdade”, lembrou Chico Lima.

Flerte e paquera (Foto: Max Haack/Ag Haack)

Tio Souza explica que essa fama veio com os foliões que migraram dos blocos de trio para o Gandhy. “Essa turma, mesmo sabendo das normas do Gandhy, introduziram algumas coisas na entidade que foi motivo de muita preocupação e que hoje não temos como corrigir. E essas pessoas eram aqueles jovens que eram diferentes dos autênticos Filhos de Gandhy".

Segundo o diretor, originalmente a troca de colares era o momento máximo de fé de um associado. “Se dava um colar a partir do momento que um folião, não importando o sexo, pedia. E quando isso acontecia ele dizia porque estava pedindo. Ele ali estava movido de uma fé”.

Ele conta ainda que tamanha era a devoção que o colar não era sequer posto no pescoço de quem o recebia. “A gente tirava o colar do nosso pescoço, colocava na palma da mão direita, aspergia com alfazema e depois colocava a mão sobre a mão daquela pessoa e fechava. Ela estava tão movida na fé que não colocava o colar no pescoço, o guardava e, tempos depois, sempre nos agradecia pelo bem alcançado. Esse é que é o Axé e essa é que é a Filosofia dos Filhos de Gandhy", completou.

Combate ao machismo
Com o objetivo de combater o machismo e resgatar a verdadeira essência do bloco, o Afoxé Filhos de Gandhy estabeleceu no Carnaval de 2017 um trabalho junto à Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM).

“A ação com a SPM que está desfazendo justamente isso. O Gandhy é um bloco masculino porque isso está na sua essência, na sua formação, mas não é um bloco que proíbe a mulher. Estamos aqui justamente para combater o preconceito”, afirmou Chico Lima. 

(Foto: Max Haack/Ag Haack)

As mulheres, aliás, são figuras essenciais para a beleza do desfile. Nos dias de saída do bloco, as turbanteiras se multiplicam pelas ruas do Pelourinho ajeitando um dos principais adereços da fantasia do bloco.

Com suas mãos habilidosas, dona Itamara está há 38 anos arrumando turbantes nos dias de desfile e já perdeu as contas de quantas cabeças já fez ao longo dessas quase quatro décadas de Carnaval.

Fiel a sua turbanteira, Daniel Costa, 41, conta que sempre recorre a dona Itamara para se arrumar nos dias de desfile. “Há 15 anos que só faço meus turbantes com ela. Dona Itamara é uma pessoa de grande importância para nós. Ela representa bem a força da figura feminina no Afoxé", disse.

Diversidade Pipoca
Para Tio Souza, o conceito do Carnaval deste ano, com um aumento das atrações sem corda, foi também um incentivo para que a filosofia Gandhy se disseminasse na cidade. "Ao anunciar que é tudo pipoca e que não terá corda aqui, corda acolá, demonstra que é um Carnaval democrático, liberal e, porque não dizer, família. Se nós baianos somos de uma diversidade cultural e religiosa, esse conceito pipoca está bem de acordo conosco".

Em família, a professora do curso de medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Jordana Soares, 35, foi acompanhar a saída do cortejo. A gaúcha que há nove anos mora em Salvador encarou o desafio de subir as ladeiras do Centro Histórico com o pequeno Kaike, de um ano, no colo.

"Subir essas ladeiras do Centro Histórico com 10 kg no colo não é muito fácil", disse bem humorada. Segundo ela, havia um certo receio de sair com o filho durante o Carnaval por conta do risco, mas para ver o Gandhy o ânimo veio. "É muito interessante. É um bloco que tem muita tradição”.

O casal Larissa Ribeiro, 28, e Elson Moura, 30,  de Natal-RN, também ficou impressionado com a passagem do Afoxé. “A festa aqui é muito bonita e os Filhos de Gandhy tornam o Carnaval ainda mais especial", disse Larissa. Elson completou: "essa foi a primeira vez que viemos a Salvador, mas certamente não será a última".

Ajayô, Gil
Em 2017, o cantor e compositor Gilberto Gil foi o homenageado do Afoxé. Intimamente ligado ao bloco – Gil, inclusive, já compôs uma canção para os Filhos de Gandhy – o mestre da música brasileira saiu devidamente uniformizado e acompanhou a percussão tocando o seu agogô.

Gilberto Gil desfila no bloco Filhos de Gandhy, em Salvador (Foto: Reprodução/Instagram)

Gil com o genro e o neto (Foto: Reprodução/Instagram)

Herbert Silva Santos, 31, que fez sua estreia na alegoria, se sentiu lisonjeado por estar na presença de figura tão ilustre. “É um presente para mim e para todos que estão aqui. Ele é um mestre e esta é uma justa homenagem”.

Para a professora Jordana Soares, Gil sempre leva com muita honra o nome da Bahia para o mundo, então, não há nada mais justo do que ele receber essa homenagem de um bloco que é tão representativo na cultura baiana.

Dificuldades
No Carnaval deste ano, o Gandhy trouxe para a Avenida a discussão a respeito da diáspora africana. O olhar sobre o assunto já tão recorrente nos debates envolvendo os movimentos negros, por sua vez, foi outro.

"A discussão que se fazia era penalizada, do coitadinho e a gente está deixando essa coisa de lado e verificando o que teve de ação positiva e o que não teve ainda para que a gente possa correr atrás", disse Chico Lima.

Os festejos de 2017 foram ainda marcados por muitas dificuldades financeiras enfrentadas pelos blocos afros. Muitas entidades precisaram reduzir o números de pessoas que desfilaram na Avenida para conseguir pôr o bloco na rua.

"Estamos vendo entidades de nome, como o Malê, em grande dificuldade. Eles tiveram que reduzir quadro de associados e o Gandhy também está com as suas dificuldades, mas apesar de tudo estamos vivos e fortes", afirmou Tio Souza.

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