Vida

Itaú cultural celebra 30 anos com exposição que reúne 750 obras

Entre os artistas, estão os baianos Rubem Valentim e Mestre Didi, além de ícones como Portinari, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti

Laura Fernandes (laura.fernandes@redebahia.com.br)

Escultura do artista baiano Mestre Didi é feita com
nervura de palmeira, couro, contas e búzios
(Foto: Itaú Cultural/Divulgação)

Uma das maiores iniciativas privadas de apoio à cultura, o Itaú Cultural completa 30 anos com uma série de ações ao longo de 2017. Uma delas, a de maior destaque até agora, é a exposição Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos, que reúne 750 obras do acervo do Itaú Unibanco, pinçadas de um montante de 15 mil peças.

Artistas de renome como os baianos Mestre Didi (1917- 2013), Rubem Valentim (1922- 1991), Emanoel Araujo e Mário Cravo Neto (1947-2009), além do polonês radicado na Bahia Frans Krajcberg, estão reunidos na mostra que tem abertura amanhã, para convidados. Com visitação gratuita a partir de quinta, a exposição ocupa os 10 mil metros quadrados do edifício da OCA, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, e fica em cartaz até 13 de agosto.

Ícones das artes plásticas podem ser vistos nesse que é o maior recorte do acervo de obras de arte do Itaú Unibanco exibido até hoje. Entre os artistas, estão Tarsila do Amaral (1886-1973), Candido Portinari (1903-1962), Aleijadinho (1730-1814), Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), Hélio Oiticica (1937-1980), Auguste Rodin (1840-1917) e Pierre Verger (1902-1996).

Na tentativa de explicar a narrativa que costura as 750 obras da mostra que inclui pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e instalações, o curador Paulo Herkenhoff explica que a iniciativa foi batizada no plural para mostrar que o Brasil não se reduz a uma única linha de explicação. Ou seja, são várias leituras feitas por diferentes artistas sobre o seu país.

“Vamos ver como o ato de colecionar, para além da reunião numérica de objetos, pode constituir núcleos que simbolizam o Brasil e a enorme experiência do olhar da arte. A exposição trabalha transversalidades, não uma sucessão de estilos. É um emaranhado de direções tomadas por artistas”, resume Herkenhoff, que assina a curadoria com Leno Veras e Thais Rivitti.

Obra do pintor e desenhista paulista Benedito Calixto retrata o Porto de Santos, em São Paulo, em 1890
(Foto: Sérgio Guerini/Itau Cultural/Divulgação)

Núcleos Simbólicos
Dessa forma, o público não vai encontrar uma sequência cronológica, muito menos homogênea, nos quatro andares da OCA, edifício projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012) que abriga a coleção do Itaú adquirida ao longo de três décadas. A variedade de estilos, técnicas e gerações de artistas marca os trabalhos reunidos na mostra.

Para guiar o público nesse roteiro sobre os vários “brasis”, o Itaú Cultural fez da exposição uma constelação de 20 núcleos a serem percorridos pelos visitantes. No térreo, o público é recepcionado por fotos e obras sobre São Paulo, que abocanha o maior foco da mostra e é retratada da sua fundação até os dias atuais.

Dividido nos núcleos Esculturas, História, Paisagens, Urbanidade, Urbanismo, Modernismos e Concretistas, o andar é composto por trabalhos de quase 100 artistas. Entre as obras, estão telas de Portinari, Anita Malfatti (1889- 1964), Benedito Calixto (1853- 1927) e Alfredo Volpi (1896- 1988), além de fotos de Bob Wolfenson e Pierre Verger.

O subsolo, por outro lado, destaca experimentos da arte nacional, através dos núcleos Cibernética Conceitual, Teoria dos Valores, Natureza, Subjetividade, Escritura e Gambiarra (que destaca a capacidade brasileira de dar um “jeitinho” em tudo). No andar, estão trabalhos de nomes como o artista multimídia paraibano Antonio Dias, a pintora, gravadora e ilustradora carioca Beatriz Milhazes, o escultor Frans Krajcberg e o artista plástico, arquiteto e paisagista paulista Burle Marx (1909-1994).

Em seguida, no primeiro andar, o visitante encontra um ambiente do pós-Segunda Guerra Mundial, dividido em quatro núcleos. No espaço, que reúne mais de 90 artistas, está a famosa obra O Beijo, de Auguste Rodin, ao lado de colagens da paulista Leda Catunda, de esculturas da carioca Lygia Pape (1927-2004) e telas da paulista Tomie Ohtake (1913-2015).

“A exposição é uma grande estrutura de sistema de memória que nós estamos disponibilizando como escopo de pesquisa”, ressalta o também curador Leno Veras. “A possibilidade de leitura e de construção de memória, através do seu acervo como sistema de estruturação da cultura brasileira, é uma oportunidaede múltipla”, acredita.

Os azulejos da carioca Adriana Varejão são considerados “obra-prima da arte brasileira”, pelo o curador
(Foto: Sérgio Guerini/Itaú Cultural/Divulgação)

 

Contribuição baiana
No segundo e último andar da exposição, o público encontra uma leitura sobre a formação social do Brasil. O Barroco e Neo Barroco são retratados, assim como a escravidão e a conquista das terras indígenas através de esculturas, fotos e vídeos de mais de 50 artistas. Entre eles, estão os baianos Rubem Valentim, Emanoel Araújo e Mestre Didi.

“Temos gerações de artistas afro-descendentes com enorme contribuição na Bahia dos anos 60 e 70”, destaca o curador da mostra, Paulo Herkenhoff. Rubem Valentim, para ele, é “um dos grandes artistas desse país”, “um artista de porte mundial” que se destaca por transformar símbolos das representações dos orixás a um vocabulário geométrico em suas telas e serigrafias.

Já Emanoel Araújo, criador do Museu Afro Brasil, foi “o primeiro a buscar um diálogo plástico entre a vontade construtiva do Brasil e aquilo que via na cultura popular africana dos anos 70”. Mestre Didi, por outro lado, é “o maior artista de arte sacra do século XX”, para o curador. “Sua produção tem enorme originalidade, tradicionalismo e ele sintetiza esses valores de uma forma ímpar”, elogia Herkenhoff.

O trabalho dos três artistas são exemplos de construção simbólica do Brasil que pode ser encontrada na heterogênea exposição Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos. A mostra, para Herkenhoff é um desafio honroso e complexo  que reforça o lugar da arte na formação do sujeito.

Para o curador, a arte e a cultura são partes fundamentais nesse processo. “Hoje, com a crise, com a descrença na economia brasileira, na política brasileira, o que salva o Brasil é a arte. Fica claro que a arte não vai curar o mundo, mas pode curar nossa maneira de pensar o mundo”, provoca.

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