Música

Álbum póstumo de Serena Assumpção celebra 12 orixás do candomblé

Serena, filha do cantor e compositor Itamar Assumpção (1949-2003), morreu em março deste ano, em decorrência de um câncer

Roberto Midlej (roberto.midlej@redebahia.com.br)
Atualizado em 25/07/2016 16:15:48

Muito ligada ao candomblé, a cantora e produtora cultural paulista Serena Assumpção (1977-2016) acreditava que tinha uma missão designada pelos deuses de sua religião: lançar o disco Ascensão (Selo Sesc), que, em cada uma das 12  faixas, saúda um orixá.

“Um dia, ela me disse que havia feito um jogo de búzios no terreiro e o jogo havia dado a ela a missão de fazer o disco”, lembra-se o paulista Dipa, 34, que divide a produção do disco com Serena e Pipo Pegoraro. A cantora, que frequentava o terreiro Ilê de Obá de Dessemi, em São Paulo, começou então, naquele ano de 2009, a planejar o álbum que seria seu último trabalho fonográfico.

Serena, que morreu em março deste ano, é a diretora artística do álbum Ascensão
(Foto: Divulgação)

Serena, filha do cantor e compositor Itamar Assumpção (1949-2003), morreu em março deste ano, em decorrência de um câncer. Apesar de ter sofrido com a doença por quase cinco anos, ela fez questão de participar diretamente do projeto durante todo o tempo. Em cinco faixas, ela registra sua voz ao lado de outras. Nas demais músicas, atuou só como produtora.

Anelis 
Dipa concorda que Serena funcionava bem como ‘agregadora’ e essa qualidade foi decisiva para que os artistas participassem do disco. A  produtora conseguiu mesmo juntar muita gente de prestígio: Karina Buhr, Tatá Aeroplano, Tulipa Ruiz, Curumin, Filipe Catto, Letieres Leite e muito mais gente. Está no disco também Anelis Assumpção, irmã de Serena. Anelis canta Pavão, que tem letra e melodia de Joãozinho Da Gomeia (1914-1971), baiano de Inhambupe que foi sacerdote do candomblé.

Ela conseguiu unir a música da umbanda e do candomblé à música popular Anelis Assumpção, que é irmã de Serena e canta na faixa Pavão (Foto: Renato Stockler/ Divulgação)

A maior parte das letras do disco é de Gilberto Martins, ogã do terreiro que Serena frequentava. “As músicas do disco são daquele terreiro e ‘Giba’ é o maior compositor de lá. Ele compõe durante as festa de lá e não é músico profissional. É bibliotecário e à noite vai pro terreiro”, revela Dipa, que também é frequentador do Ilê de Obá de Dessemi, graças a Serena, que o levou até lá. Além das composições de Filberto Martins, há uma de domínio público. Embora fosse de Oxum - era chamada de Serenita de Oxum pelos amigos -, Serena compôs uma canção para Iemanjá.

Música e candomblé
“Ela conseguiu unir a música da umbanda e do candomblé à música popular. O disco faz um paralelo entre a religião e a música popular”, diz Anelis. “Serena poderia fazer um disco com a música exatamente como é no terreiro, mas lá dentro há uns rigores que precisam ser respeitados”.

Anelis diz que o disco foi um norte na vida da irmã, principalmente depois que soube que tinha um tumor na mama. “A produção do CD mantinha ela cheia de esperança de se curar”, recorda-se. Mesmo doente e sob tratamento, Serena viajava para encontrar os músicos que participavam do disco, como Letieres Leite, em Salvador e Domenico Lancellotti, no Rio de Janeiro.

O show de lançamento do disco em São Paulo, no começo deste mês, homenageou a cantora Serena
(Foto: Ricardo Ferreira/Divulgação)

Debilitada, Serena conseguiu concluir o disco, que, segundo Dipa, está exatamente como ela esperava: “A escolha dos intérpretes foi dela e ela acompanhou todas as gravações. Deixou tudo aprovado, até o encarte. Só não viu o produto físico”.

No começo do mês, o disco foi lançado em São Paulo, em um show no Sesc Pompeia, quatro meses após a morte de Serena. Karina Buhr, Filipe Catto, Tulipa Ruiz, Céu, Anelis Assumpção e outros artistas estiveram presentes no palco. 

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