Música

Em álbum pop, Fafá de Belém atualiza sua música com novos ritmos

Fafá recebeu muitas propostas para um novo trabalho, mas nada lhe convencia

Roberto Midlej (roberto.midlej@redebahia.com.br)
Atualizado em 16/08/2015 15:08:54

Faz mais ou menos dois anos que Fafá de Belém foi “atropelada”, como ela mesma gosta de dizer, pela canção Meu Coração É Brega, de um conterrâneo seu, o paraense Veloso Dias, autor de Ex Mai Love, gravada pela também paraense Gaby Amarantos.

Fafá havia acabado de participar da festa do Círio de Nazaré, em Belém, e, num almoço com os amigos, numa roda de violão, conheceu a música, que acabou dando origem ao seu novo álbum, Do Tamanho Certo Para Meu Sorriso (Joia Moderna), que será vendido em formatos digital e físico a partir de quinta-feira.

Sem gravar um disco em estúdio desde 2005, quando lançou Tanto Mar, só com músicas de Chico Buarque, Fafá recebeu muitas propostas para um novo trabalho, mas nada lhe convencia.
Só quando ouviu Meu Coração É Brega é que começou a pensar na ideia. “Eu gosto muito de fazer shows e, mesmo sem gravar, nunca parei de me apresentar. A essa altura, com tanto tempo de carreira, não aceito gravar qualquer coisa só para ter um novo disco”, diz Fafá, 59 anos.

Depois de dez anos sem gravar em estúdio, Fafá de Belém volta às origens e resgata repertório muito identificado com o seu estado, o Pará (Foto: Divulgação)

Origens
A canção de Veloso Dias  levou a cantora  a uma viagem no tempo e a fez pensar sobre a sua infância na capital paraense: “Logo que a escutei veio um filme da minha vida.  Pensei em quando eu era criança e ouvia as coisas do Pará nas rádios de Belém”.

Mas o novo álbum só começou a se concretizar no início deste ano, quando a cantora se encontrou com o DJ  e produtor Zé Pedro, como lembra: “Ele veio a minha casa (em São Paulo, onde a intérprete vive) e eu disse que já tinha escolhido algumas canções. Me sugeriu que gravasse pela Joia Moderna, que é dele”.

Fafá topou e, como queria um álbum que a levasse de volta às origens, começou a buscar outras canções que se identificassem com o Pará. Por isso estão no disco Quem Não te Quer Sou Eu (Firmo Cardoso e Nivaldo Fiúza) e Os Passa Vida (Osmar Junior e Rabolde Campos), típicos bregas românticos que fazem sucessos nas casas noturnas de Belém.

“Para o banho de paraensismo ser completo, decidi chamar Manoel Cordeiro e Felipe Cordeiro (pai e filho, também do Pará) para a produção do disco. Eu queria um toque caribenho na sonoridade e eles captaram isso”, afirma Fafá, que está celebrando 40 anos de carreira.
A mudança em relação aos últimos álbuns é clara, lembra Fafá: “Meus últimos discos eram ‘noturnos’, contidos, elegantes. Antes, eu vinha gravando Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi e tinha uma orquestra maravilhosa”.

O retorno a um repertório mais popular pode trazer o risco de ser novamente considerada “brega”, como aconteceu a partir da segunda metade dos anos 80, quando a cantora foi rejeitada por críticos que antes a veneravam.

Em 1986, ela gravou Memórias, de Leonardo Sullivan, irmão de Michael Sullivan. O arranjo de Lincoln Olivetti (1954-2015) tirou a crítica musical do sério. O ápice das críticas veio mais tarde, em 1991, quando Fafá gravou Nuvem de Lágrimas com Chitãozinho & Xororó.

“Fiquei muito mal com os comentários porque aqueles que falavam as piores coisas de mim haviam dito dois anos antes que eu era fabulosa. E eu sou mesmo. Então, mandei todos esses críticos às favas”, diz, gargalhando.

Realmente, a mudança no repertório era impactante, afinal, Fafá havia surgido como intérprete de compositores requintados, gravando músicas de Milton Nascimento e Chico Buarque.
Aquele mesmo disco de 1986, Atrevida, tinha também uma seleção de lambadas, moda que reinou no país naquele período. Fafá incluiu uma versão de Fogaréu, do baiano Walter Queiroz, autor também do primeiro sucesso da cantora, Filho da Bahia, gravado para a trilha sonora da novela Gabriela (1975).

Roberto Sant’Ana A gravação de Filho da Bahia era só mais uma evidência dos seus laços com a Bahia, que haviam começado com o produtor musical Roberto Sant’Ana. “Ele produzia Toquinho e Vinicius e foi para o Pará com o show deles. Procurou conhecer as novidades musicais de Belém e o levaram para me ouvir num bar. Me chamou para ser cantora, mas eu estava certa de que aquilo era uma cantada e eu, brava, com cara de um índio tucuxi, disse a ele que fosse falar com meu pai”.

Zeca Baleiro deu letra a Asfalto Amarelo enquanto comia uma macarronada com Fafá
(Foto: Rama de Oliveira/Divulgação)

Para  surpresa de Fafá, um dia, ao chegar em casa, encontrou o pai conversando com o produtor. Sant’Ana então tentou convencê-lo a permitir que a filha se tornasse profissional. “Mas eu era muito nova, tinha  15 ou 16 anos, e não pretendia ser cantora”.

Depois de dois anos se correspondendo com o pai de Fafá, finalmente Sant’Ana conseguiu trazê-la para uma temporada de shows no Teatro Vila Velha. “Eu fui para ficar uns dias e acabei ficando três meses, morando na casa de Djalma Correa (percussionista e compositor), em Amaralina”.

Um dia, Roberto Sant’Ana mandou Fafá encontrá-lo no Rio de Janeiro. Quando chegou lá, a cantora soube que ia gravar a canção Filho da Bahia no dia seguinte.

Com o sucesso da música, não parou mais e estreou em 1976 com um disco próprio, Tambá-Tajá, que tinha Siriê, canção de outro baiano, Edil Pacheco, com Paulinho Diniz.

A menina, ainda com 20 anos, foi amadurecendo e criou sua identidade musical. Criou também identidade política e dez anos depois engajou-se na luta pela democracia. Tornou-se um dos símbolos do movimento Diretas Já e sua versão do Hino Nacional tocou em diversos comícios.

“Naquela época, ao contrário das manifestações de hoje, havia lideranças políticas muito claras e a campanha pelas diretas era discutida nas ruas”, lembra-se.

Sobre o momento atual, Fafá diz que é necessário encontrar uma solução política para a crise atual e deixar as paixões de lado. Mas o que mais lhe chama a atenção é a intolerância: “Nesta semana, uns  imbecis no Instagram falaram horrores de mim. Não pensei duas vezes: mandei eles vestiram suas fraldas e seus cueiros”.

O produtor Roberto Sant’Ana convidou Fafá de Belém para gravar o primeiro sucesso dela, Filho da Bahia
(Foto:  Marcio Costa e Silva/Arquivo Correio)

 

 

 

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