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Mariana Rios
Publicado em 2 de julho de 2026 às 15:47
As disputas sobre qual cidade teve maior protagonismo na Independência da Bahia costumam ganhar força a cada 2 de Julho. Para o historiador Fábio Batista Pereira, porém, a resposta está na união entre as vilas do Recôncavo e de outras regiões da província, que organizaram uma ampla mobilização política e militar até a expulsão das tropas portuguesas, em 1823.>
O pesquisador defende que a Independência baiana foi resultado de um esforço coletivo, envolvendo autoridades, militares, voluntários e moradores de diversas localidades do interior. Segundo ele, reduzir esse processo ao protagonismo de uma única cidade ignora a dimensão da articulação que sustentou a guerra.>
"Esse aspecto confederado marca a natureza do movimento emancipacionista que teve lugar no interior da Província da Bahia", reforça Fábio.>
Veja como foi o desfile do 2 de Julho
Um dos exemplos citados pelo historiador é a criação do Conselho Interino de Governo da Província da Bahia, instalado em Cachoeira em 6 de setembro de 1822.>
O órgão reuniu representantes de 17 vilas, entre elas Santo Amaro, São Francisco do Conde, Maragogipe, Cairu, Valença, Camamu, Jacobina, Rio de Contas e Inhambupe. A estrutura passou a funcionar como centro político do movimento emancipacionista enquanto Salvador permanecia sob controle das tropas portuguesas lideradas pelo general Madeira de Melo.>
Segundo Pereira, esse conselho demonstra que a luta pela independência foi organizada de forma integrada pelas chamadas "vilas confederadas", que coordenaram ações políticas e militares durante o conflito.>
O historiador também procura esclarecer uma das discussões mais recorrentes sobre o processo de independência: o papel desempenhado por Santo Amaro e Cachoeira.>
De acordo com ele, os acontecimentos registrados nas duas cidades não competem entre si, mas representam momentos distintos da construção da independência.>
Em 14 de junho de 1822, Santo Amaro aprovou uma ata considerada inovadora para a época. O documento defendia a existência de um governo central no Brasil, um Exército próprio, uma Marinha nacional, um Tesouro brasileiro, um Tribunal Superior de Justiça e até a criação de uma universidade.>
Apesar do avanço político, o texto ainda mantinha o Brasil como parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.>
Já em 25 de junho, Cachoeira adotou uma postura mais radical. Autoridades, militares e moradores reunidos na Câmara Municipal proclamaram Dom Pedro como regente e defensor do Brasil, rompendo com as Cortes Portuguesas. Dias depois, a cidade enfrentou uma embarcação de guerra portuguesa no Rio Paraguaçu, episódio considerado o marco inicial da Guerra da Independência da Bahia.>
Para Pereira, Santo Amaro protagonizou o "ato político", enquanto Cachoeira deu o "passo decisivo" que desencadeou o conflito armado.>
Além de Cachoeira e Santo Amaro, Fábio destaca a participação de São Félix, Saubara, Nazaré, Maragogipe, Itaparica e de diversas comunidades distribuídas ao longo da Baía de Todos-os-Santos.>
Segundo o pesquisador, essas localidades garantiram abastecimento, transporte, apoio logístico e reforço militar às tropas que cercaram Salvador durante meses até a retirada definitiva dos portugueses, em 2 de julho de 1823.>
O historiador também ressalta a participação de personagens populares, como Maria Felipa, os Caboclos de Itaparica e os moradores de Saubara, além de centenas de combatentes anônimos que integraram os batalhões de voluntários.>
Fábio também lembra que a união das vilas não eliminou divergências políticas.>
Documentos históricos mostram discussões entre lideranças sobre a organização da Junta de Governo instalada em Cachoeira, além de conflitos envolvendo o comandante francês Pierre Labatut, que chegou a ser destituído do comando das forças brasileiras.>
Ainda assim, segundo Pereira, essas disputas internas não impediram que as diferentes regiões mantivessem o objetivo comum de expulsar as tropas portuguesas da Bahia.>
Para o historiador, as comemorações do 2 de Julho ajudam a manter viva a memória da Independência, mas também devem reforçar o reconhecimento do protagonismo coletivo das cidades do interior e da população que participou da guerra.>
Ele destaca que a conquista da independência política não significou o fim das desigualdades nem da escravidão, mas considera que o movimento permanece como símbolo da capacidade de mobilização popular e da defesa da soberania brasileira.>