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Moyses Suzart
Publicado em 6 de setembro de 2026 às 05:00
Um banho quentinho, sem pressa, a água limpando todas as impurezas de um dia desgastante. É libertador. Mas esse chuveiro ligado sem pretensão não mede a dimensão do que acontece antes, no percurso da água entre a fonte natural e seu chuveiro. Enquanto você relaxa se banhando, outras pessoas são ameaçadas de morte, têm sua casa incendiada e uma fonte de água que abastece boa parte do nosso estado está ameaçada. Não se engane: a água que chega à torneira de milhões de baianos não começa na barragem, mas em nascentes como as da Serra da Chapadinha, na porção sul da Chapada Diamantina. Com 18,4 mil hectares distribuídos entre Itaetê, Ibicoara, Mucugê e Iramaia, o local corre sérios riscos de ser dizimado pela grilagem, por mineradoras e pela especulação imobiliária. E você pode ficar sem água. >
Antes de correr pelos rios e ser armazenada nos reservatórios, a água precisa nascer, infiltrar-se no solo e alimentar nascentes. E a Serra da Chapadinha é um dos lugares mais importantes nesse quesito. O local é um dos principais componentes do sistema hídrico da Bacia do Rio Paraguaçu, que, por sinal, abastece mais de 60% da Região Metropolitana de Salvador. A Serra ainda conserva mais de 90% de sua vegetação nativa. Um paraíso, mas ameaçado.>
A Serra da Chapadinha é cobiçada e está sem proteção cotidiana. Depois de muita pressão e do silêncio do Poder Executivo estadual, a Serra da Chapadinha finalmente ganhou uma proteção oficial, mas sem a eficácia necessária. Depois de anos de denúncias, processos administrativos, mobilização de ambientalistas, pesquisadores e parlamentares, o território localizado no sul da Chapada Diamantina foi incluído em um decreto de proteção ambiental.>
A medida representa uma vitória para quem passou anos tentando impedir que a mineração e outras formas de ocupação avançassem sobre uma das áreas consideradas de maior importância ambiental e hídrica da região. Mas a conquista chegou acompanhada de um paradoxo: enquanto o território passou a ter proteção jurídica, os ambientalistas foram expulsos de lá. Ou seja: ninguém garante que grileiros e mineradores não estejam ocupando o espaço, pois não há nenhuma fiscalização no local.>
“É muito bonito quando a gente fala que o decreto foi feito, mas a gente precisa que o Estado ocupe o território. Porque lá está uma terra sem lei, onde jagunço manda. Só o decreto não adianta nada. É preciso o Estado estar lá, fazer uma base fixa, fazer educação ambiental com as pessoas do entorno e começar a fazer todo o trabalho de gestão”, afirma Alcione Correa, uma das ambientalistas que dedicou anos à defesa da Serra da Chapadinha e foi expulsa de lá.>
É justamente esse o temor que acompanha a comemoração do decreto. A área pode ter deixado de ser apenas um território reivindicado por ambientalistas para se tornar oficialmente uma área protegida, mas, sem presença permanente do poder público, a proteção corre o risco de existir mais nos documentos do que no chão da serra. Os próprios ambientalistas, que mantinham uma estrutura no local e acompanhavam de perto a fauna, a vegetação, as nascentes e a movimentação no território, estão longe de casa desde maio, quando foram atacados por homens fortemente armados. E, depois que saíram, afirmam que nenhuma fiscalização foi realizada para verificar o que passou a acontecer na área.>
A preocupação envolve especialmente a mineração, apontada como uma das ameaças que motivaram a mobilização pela proteção da serra. Segundo a ambientalista, um grupo ligado à atividade minerária começou a entrar na região em 2021. A partir daquele momento, ela e o companheiro, Marcos Fantini, passaram a provocar órgãos ambientais e o Ministério Público para impedir que a exploração se estabelecesse no território. O receio era de que a presença inicial se transformasse em ocupação permanente.>
A luta, porém, não nasceu com a mineração. O vínculo dos ambientalistas com a Serra da Chapadinha começou anos antes, quando eles deixaram o ABC Paulista e vieram para a Bahia. Em 2010, aproximadamente, chegaram à região e passaram a desenvolver atividades de turismo de natureza, pesquisas científicas e catalogação da fauna. A base era a Toca do Lobo, um abrigo de montanha que, com o passar dos anos, deixou de ser apenas uma casa para se transformar em ponto de apoio para pesquisadores, fiscais ambientais e ações de preservação.>
A biodiversidade foi o primeiro chamado. Um dos episódios que marcou o início dessa trajetória ocorreu quando uma onça-parda apareceu a menos de três metros dos ambientalistas durante a noite. A partir dali, o contato cotidiano com a fauna revelou a dimensão da riqueza daquele território.>
Serra da Chapadinha ameaçada
“É um negócio maravilhoso, uma riqueza de biodiversidade gigante. Para você ter ideia, tem um cnidário, uma água-viva de água doce, que não é catalogada pela Bahia. A nossa história começou muito pelo contato com essa fauna, que era muito rica. A gente começou a fazer um trabalho de catalogação de fauna, pesquisas científicas e turismo de natureza”, relata.>
A importância da Serra da Chapadinha, entretanto, vai muito além da existência de animais raros, de cachoeiras ou do potencial turístico. É justamente a água que transforma a região em uma área estratégica. Entre as formações existentes no território estão as turfeiras, ambientes capazes de armazenar grandes quantidades de matéria orgânica e água e exercem papel fundamental tanto na retenção de carbono quanto na manutenção hídrica.>
A serra funciona, na prática, como uma espécie de caixa-d'água natural. Durante os períodos chuvosos, a vegetação e o solo acumulam água. Quando chega a estiagem, esse estoque não desaparece de uma vez: é liberado gradualmente, alimentando nascentes, cursos d'água e águas subterrâneas que abastecem sua casa. A importância desse mecanismo aparece justamente quando a chuva deixa de cair. A Chapadinha acaba sendo crucial para manter o abastecimento, principalmente do Rio Una, que se liga ao Paraguaçu.>
“Às vezes a gente só fala de água de beber, mas é água de beber, é água do agro, é a água da indústria, é a água do turismo, é água do comércio. Um monte de setores da economia precisa de água. Proteger a Serra da Chapadinha é uma questão de sobrevivência”, afirma Alcione Correa.>
Foi justamente a percepção de que aquela riqueza poderia ser perdida que levou os ambientalistas a ampliar a pressão sobre o poder público. Os processos avançaram na esfera federal e, em 2025, a discussão ganhou força, pressionando o governo da Bahia para que tivesse o decreto. >
Mas, no meio dessa trajetória, veio a violência. No dia 1º de maio de 2026, os ambientalistas foram acordados durante a madrugada por homens que, segundo o relato, estavam fortemente armados. Os criminosos destruíram equipamentos de comunicação e energia e obrigaram os moradores da Toca do Lobo a fugir a pé. Para deixar o território, o casal precisou percorrer mais de 15 quilômetros por uma região isolada e de difícil acesso até conseguir chegar a um local seguro.>
“Fomos acordados por milicianos, fortemente armados. Destruíram os nossos equipamentos de comunicação, de energia e tudo mais. Foi quando a gente fugiu a pé. Teve que andar mais de 15 quilômetros lá para fugir. É um território muito isolado, muito ermo. Foi quando a gente veio para Salvador procurar apoio”, conta. O inquérito policial segue em segredo de Justiça, mas sem indiciados.>
Curiosamente, o ataque aconteceu depois de uma visita da Secretaria de Meio Ambiente ao território para ouvir comunidades do entorno da serra. O casal deixou a região, mas continuou cobrando a proteção oficial da área e a responsabilização dos envolvidos. O caso ganhou repercussão nacional e chegou ao governo federal. A saída dos ambientalistas, no entanto, não encerrou a violência. Quando o processo de proteção avançou novamente e uma consulta pública foi realizada, criminosos voltaram à Toca do Lobo. Dessa vez, não havia ninguém na casa. Ainda assim, destruíram praticamente tudo o que encontraram pela frente.>
A estrutura foi incendiada e sofreu danos graves. Paredes, telhados, banheiro, vigas, sistema de energia, equipamentos de comunicação e outros bens foram destruídos. O local que durante anos havia funcionado como residência, abrigo, base de pesquisas e ponto de apoio para órgãos ambientais deixou de existir. Depois disso, ninguém sabe mais o que acontece por lá.>
“Ainda não foi feita nenhuma vistoria, nenhuma fiscalização do local. E a gente teve relato de pessoas que estão tendo desmatamento e afins. É muito bonito quando a gente fala que o decreto foi feito, mas a gente precisa que o Estado ocupe o território. Porque lá está uma terra sem lei”, reafirma.>
A ameaça, segundo Correa, não se restringe à mineração. Há também preocupação com desmatamento e especulação imobiliária em uma região cuja valorização já chama atenção. A ambientalista afirma que existem áreas sendo comercializadas por mais de R$ 360 mil por hectare, mesmo em locais sem estradas de acesso convencionais.>
“A gente espera que, num prazo muito rápido, de no máximo um mês, exista um plano de ocupação desse território, que envolva base fixa, gestor, porque tem dinheiro para isso. O próprio TCE já colocou que existe dinheiro para isso. Então a gente espera realmente que o Estado cumpra seu papel e proteja a água de milhões de baianos”, cobra.>
O segundo pedido é pela responsabilização dos autores dos ataques. “O segundo ponto é realmente a responsabilização dos criminosos, dos executantes, dos mandantes e dos financiadores. Porque enquanto a gente não tiver a responsabilização, a gente vai continuar nesse ciclo de barbárie”, afirma.>
Enquanto aguardam respostas, o casal de ambientalistas permanece longe de casa, alternando estadias em casas de conhecidos e pequenos imóveis alugados. Sem a Toca do Lobo, perderam também a estrutura que sustentava o trabalho que desenvolveram durante anos.>
A ambientalista também critica o que considera silêncio do governo baiano diante da violência sofrida pelo casal. Segundo ela, apesar da repercussão do caso em âmbito federal e internacional, não houve manifestação que considerasse suficiente por parte do governador Jerônimo Rodrigues ou da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos.>
“Eles não fizeram nenhum tipo de fala sobre o nosso caso, sobre a nossa violência. Nenhuma palavra minimamente de sentimento, de dizer ‘olha, isso é uma coisa que não pode acontecer’. Essa ausência na fala parece que eles aceitam esse tipo de violência. Parece, às vezes, que, se eu não falar do caso, o problema some. Não é assim”, afirma.>
Para ela, o silêncio também pode funcionar como uma forma de punição à participação social. “Foi uma tentativa de silenciamento da participação social. O que eles queriam, na verdade, era amedrontar a gente e que a gente ficasse quieto. Só que a gente saiu do território e tentou abrir a boca para o mundo. A gente teve até evento no Palácio do Planalto falando do nosso ataque. O ministro do Meio Ambiente falou na presença do presidente Lula. Como você consegue ter uma amplitude em nível federal desse tamanho, repercutir inclusive internacionalmente, e você não ter minimamente um secretário de Direitos Humanos daqui falando? É um negócio muito triste”.>
O casal reconhece que o decreto representa uma conquista importante, mas querem mais. “Eu quero voltar para casa. A gente não pode ser eternamente punido por estar protegendo a água de milhões. Hoje a gente está sendo culpado por isso. É um crime contínuo o que está acontecendo com a gente, porque a gente não tem casa, sofreu uma violência muito grande e existe essa omissão do Estado em falar qualquer coisa. A gente espera que tenha uma reparação disso. A gente foi penalizado por cumprir a cidadania e pela ausência do Estado no território”, completa Correa.>
A luta, agora, é para que a proteção da Serra da Chapadinha não termine na assinatura do decreto. Enquanto não houver fiscalização, presença pública e responsabilização pelos ataques, a serra continuará protegida no papel e vulnerável no território. E seu banho quentinho sofre sérios riscos de acabar. >